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MINHAS PÉROLAS

sábado, 31 de outubro de 2026

Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

 


Ensaio Teológico X(2) AS DUAS PORTAS: ÉTICA, JUSTIÇA E O PREÇO DO ATALHO

Por Claludeci Ferreira de Andrade

Ao refletir sobre as duas portas que se abrem diante de um jovem de dezessete anos numa viela da periferia, percebo que a escolha entre o tráfico e um caminho honesto está longe de acontecer em condições iguais para todos. De um lado, há a promessa de dinheiro fácil, respeito e conquistas imediatas; do outro, um caminho estreito, feito de estudo, trabalho e incertezas. Não desprezo a sabedoria popular de que “o crime não compensa”, mas também não quero transformar essa frase numa venda que esconda as desigualdades sociais. Afinal, compreender as circunstâncias não significa justificar o delito, muito menos esquecer quem sofre suas consequências. É preciso separar uma coisa da outra: explicar não é absolver.

Com Peter Singer, compreendo que a ética precisa considerar todos os envolvidos, tanto quem pratica a violência quanto quem carrega suas consequências. Philip Zimbardo me faz pensar no peso que o ambiente exerce sobre o comportamento humano, embora isso não apague a responsabilidade individual. Afinal, conheço a realidade de tantas pessoas pobres que, mesmo enfrentando dificuldades de toda sorte, escolheram o caminho da honestidade. E isso também precisa entrar nessa conversa! Com John Rawls e Ruth Wilson Gilmore, percebo que a justiça não se resume a punir quem atravessa a porta errada; exige também instituições capazes de oferecer oportunidades concretas, como educação, saneamento, emprego e segurança. Thomas Piketty, por sua vez, leva-me a questionar as desigualdades que não encontram justificativa, sobretudo aquelas construídas à custa da violência, da fraude e da exploração do próximo.

Na perspectiva da fé, encontro duas responsabilidades que não podem ser colocadas em lados opostos: o mandamento de não roubar (Êxodo 20:15) e a denúncia das estruturas que alimentam a injustiça (Isaías 5:8; Amós 5:24). Ao recordar o jovem rico (Marcos 10:17-22) e Zaqueu (Lucas 19:8-9), compreendo que a riqueza conquistada injustamente compromete a consciência e que a verdadeira conversão não se resolve com palavras bonitas: exige reparação. Também vejo em Nelson Mandela uma distinção que merece atenção. Sua desobediência enfrentou um regime opressor, não buscou enriquecimento pessoal e tinha como horizonte o bem coletivo. Depois de vinte e sete anos de prisão, escolheu a reconciliação em vez da vingança. Por isso, não aceito que sua história seja usada como desculpa para legitimar o atalho do ganho fácil. Uma coisa é resistir à opressão; outra, bem diferente, é explorar a fragilidade alheia para benefício próprio.

Volto, então, àquela viela e ao rapaz diante das duas portas. Concluo que uma sociedade verdadeiramente justa precisa sustentar duas verdades ao mesmo tempo: cada indivíduo responde por suas escolhas, mas todos temos responsabilidade na construção de oportunidades dignas. Não defendo uma justiça que apenas castiga, tampouco uma compreensão social que transforme a pobreza em salvo-conduto para qualquer violência. O caminho precisa reunir prevenção e responsabilização, justiça e misericórdia, proteção às vítimas e possibilidade de recomeço para quem errou. Afinal, não basta apontar a porta errada e condenar quem entrou por ela; é preciso também trabalhar para que a porta da honestidade esteja aberta, iluminada e ao alcance de todos. Para mim, a verdadeira retidão começa justamente aí: em não condenar sem compreender, nem absolver sem critérios, mas lutar por uma sociedade na qual a dignidade humana não seja privilégio de poucos.

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