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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Ensaio Teológico IX(12) A SABEDORIA, A LIBERDADE E O DESTINO: ENTRE A ESCOLHA E O IMPREVISÍVEL

 


Ensaio Teológico IX(12) A SABEDORIA, A LIBERDADE E O DESTINO: ENTRE A ESCOLHA E O IMPREVISÍVEL

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos vinte e poucos anos, recusei um emprego seguro para seguir um caminho incerto. Na véspera, quase não preguei os olhos. Fiquei pesando salários, medos, conselhos da família e o olhar preocupado de minha mãe. Era como se cada possibilidade puxasse meu braço para um lado, enquanto eu tentava descobrir qual caminho fazia mais sentido. Na manhã seguinte, disse "não" e saí com a impressão de que havia decidido tudo sozinho. Hoje, porém, desconfio dessa certeza. Afinal, será que decidi sozinho mesmo? Ou pesaram na minha escolha a criação que recebi, o temperamento herdado, as circunstâncias daquele momento e até uma conversa casual que já nem me lembro de ter ouvido? Fui eu quem escolheu, sim, mas não escolhi do nada. É justamente aí que começa a inquietação deste ensaio: será que a sabedoria, uma vez escolhida, determina nosso destino de maneira inexorável? Quero examinar essa ideia com respeito, sem transformá-la num espantalho fácil de derrubar.

Começo pela tradição bíblica, porque seria muito cômodo atribuir às Escrituras uma matemática simplória, dessas em que quem obedece prospera e quem erra paga a conta. Ora, a própria literatura sapiencial nos convida a desconfiar dessa leitura. Provérbios apresenta orientações para uma vida bem conduzida e associa a sabedoria a caminhos de prudência e bem-estar (Pv 3:1-2). Eclesiastes, por sua vez, reconhece que há justo que perece na sua justiça (Ec 7:15) e lembra que "o tempo e o acaso" alcançam a todos (Ec 9:11). Já o livro de Jó, do começo ao fim, é um grande protesto contra a ideia de que a virtude sempre recebe recompensa e o sofrimento é necessariamente castigo. Veja só: os próprios sábios de Israel reconheceram que a vida não cabe numa fórmula pronta. Quem transforma Provérbios numa lei de ferro acaba exigindo do texto bíblico uma certeza que nem os demais livros das Escrituras confirmam. A sabedoria oferece caminhos, mas não nos entrega o controle absoluto sobre os resultados.

A ciência chega a esse mesmo território por outra estrada, embora também nos convide à humildade. Daniel Kahneman mostrou como boa parte dos nossos julgamentos acontece por meio de atalhos mentais rápidos e automáticos, revelando que somos menos senhores das próprias decisões do que gostamos de imaginar (KAHNEMAN, 2011). E não para por aí: entram nessa conta a genética, o ambiente, a família, a educação e a época em que vivemos. Afinal, ninguém escolhe o berço em que nasce, a língua que aprende primeiro ou o século em que vem ao mundo. Isso significa que não somos livres? Não necessariamente. Reconhecer os limites da liberdade não é eliminá-la, mas compreendê-la com mais honestidade. Somos como o marinheiro que não comanda o vento, mas pode ajustar as velas e escolher, dentro das possibilidades, como navegar. A sabedoria, portanto, não é uma relíquia guardada numa prateleira, muito menos um conjunto de respostas que serve para todas as épocas. É a arte de reler o mundo quando ele muda, aprender com a experiência e rever as próprias certezas sem jogar fora tudo o que veio antes. A tradição, nesse sentido, deve funcionar menos como âncora, que nos mantém presos ao mesmo lugar, e mais como bússola, que ajuda a encontrar direção sem prometer um percurso livre de tempestades.

É por isso que me incomoda reduzir a existência a um tribunal de causa e efeito, como se cada sofrimento fosse consequência de um erro e cada conquista, prova de virtude. Há dores que não escolhemos, perdas que não prevemos e circunstâncias que escapam ao nosso alcance. Nem tudo o que acontece é castigo, assim como nem tudo o que dá certo é recompensa pela nossa sabedoria. A vida tem contingências, contradições e mistérios que nenhuma explicação consegue eliminar por completo. E há um perigo nessa mania de querer explicar tudo: quando alguém acredita já possuir todas as respostas, deixa de fazer perguntas; quando deixa de perguntar, fecha as portas para o aprendizado. A sabedoria começa, muitas vezes, justamente quando temos coragem de admitir: ainda não sei. Isso não é fraqueza, véi; é reconhecer que o mundo é maior do que nossas certezas e que sempre há alguma coisa a aprender.

Mas, minhas escolhas não terminam em mim. Aquela decisão de juventude, por exemplo, não afetou apenas meu caminho profissional; também mexeu com minha mãe, com as relações que construí e, de algum modo, com aqueles que vieram depois de mim. É que ninguém vive numa ilha, tomando decisões sem tocar a vida alheia. Yuval Noah Harari destaca a importância da cooperação em larga escala para a trajetória da espécie humana, sustentada por histórias e formas de confiança compartilhadas (HARARI, 2015). Isso me leva a pensar que a sabedoria não deve ser medida apenas pelo sucesso individual, pelo dinheiro acumulado ou pela posição alcançada, mas também pelas consequências de nossas escolhas na vida dos outros. De que adianta acertar o próprio caminho e deixar um rastro de sofrimento por onde passamos? Uma decisão pode ser vantajosa para quem a toma e, ainda assim, injusta com quem precisa conviver com seus efeitos. Por isso, escolher bem exige mais do que inteligência: exige responsabilidade, empatia e consciência de que fazemos parte de uma história coletiva.

É nesse ponto que encontro uma aproximação possível entre ciência e fé. Einstein, em reflexões sobre a relação entre religião e ciência, defendeu que essas dimensões não precisam ser inimigas, embora trabalhem com questões e perspectivas distintas (EINSTEIN, 1941). Vejo nessa aproximação uma oportunidade de diálogo, não uma licença para confundir os campos de conhecimento. A ciência investiga os fenômenos, examina evidências e procura compreender como as coisas acontecem; a fé, para quem a vive, também pode abrir espaço para perguntas sobre valores, responsabilidade e o sentido que damos à existência. Uma não precisa ocupar o lugar da outra. Quando a ciência é usada para justificar a indiferença, perde-se de vista a dimensão humana do conhecimento; quando a fé é usada para proibir perguntas, corre-se o risco de transformar a busca espiritual em obediência cega. O desafio é aprender com ambas sem exigir que respondam, da mesma maneira, a todas as perguntas da vida.

Volto, então, àquela noite de insônia, aos cálculos que fiz, ao medo de errar e ao olhar preocupado de minha mãe. Na juventude, eu queria saber qual decisão me garantiria um futuro melhor. Hoje percebo que talvez essa fosse a pergunta errada. O futuro nunca esteve inteiramente nas minhas mãos, e a sabedoria não me daria poderes para controlar o que estava por vir. A pergunta mais honesta seria outra: "que tipo de pessoa quero ser diante de um futuro que não controlo?" Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença. Em vez de procurar uma garantia impossível, passo a buscar critérios para escolher com responsabilidade, reconhecer os erros, reparar o que for possível e continuar aprendendo com as consequências dos meus atos.

No fim das contas, a sabedoria não é uma promessa de que tudo dará certo, nem uma força misteriosa que determina nosso destino sem deixar espaço para a liberdade. É a disposição de caminhar com humildade, considerar as circunstâncias, ouvir a tradição sem ficar prisioneiro dela e aprender com a ciência sem abrir mão da sensibilidade humana. Não escolhemos todas as condições da nossa caminhada, mas podemos refletir sobre a maneira como respondemos a elas. E, mesmo quando nossas escolhas parecem individuais, seus efeitos se espalham, alcançando pessoas, famílias e gerações. Talvez seja essa a lição que levo comigo: viver sabiamente não é ter o destino nas mãos, mas assumir a responsabilidade pelo caminho possível. Porque, no fim, o que construímos nunca é obra de uma pessoa só; é parte de uma história que construímos juntos.

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