Ensaio Teológico X(6) A BALANÇA QUE NÃO PESA
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma senhora de mãos calejadas que, num hospital público, perguntou à enfermeira, sem rancor: "O que foi que eu fiz para merecer isto?". Eram sessenta anos de trabalho, nenhuma dívida e missa aos domingos. Sua pergunta, aparentemente simples, carregava séculos de teologia: aquela velha convicção de que a dor é sentença e a prosperidade, recibo. Compreendo essa crença, afinal, ela nasce do desejo legítimo de acreditar que o mundo tenha alguma lógica e que a virtude não seja em vão. O que me preocupa, porém, é a seriedade com que essa ideia costuma ser defendida, pois, quando transformada em regra, acaba culpando quem sofre e fazendo a compaixão hesitar à porta. E, convenhamos, não há crueldade maior do que acrescentar culpa à dor de quem já carrega tanto peso.
Não penso, entretanto, que apenas a razão secular desconfie dessa balança. A própria fé já a questionou por dentro. No livro de Jó, os três amigos defendem, com eloquência, que o justo prospera e o ímpio padece. Curiosamente, é a eles, e não ao homem que sofre, que o texto reserva a reprovação final. Em João 9, Jesus também recusa a lógica que procura um culpado para explicar a cegueira de nascença. Já a teologia da graça, de Paulo a Agostinho e aos reformadores, reafirma que a salvação é dom, não salário. Portanto, questionar a ideia de que a conduta determina o destino não significa atacar a fé. Pelo contrário, é reencontrar uma de suas vozes mais lúcidas e reconhecer que a existência humana não funciona como um livro-caixa moral, no qual cada sofrimento seria uma dívida e cada conquista, um pagamento.
Se essa balança não pesa, então o que sustenta a moralidade? A filosofia contemporânea oferece algumas respostas que dialogam com essa antiga inquietação. Peter Singer compreende a ética como um esforço de dar sentido à vida compartilhada, defendendo a ampliação do nosso círculo de preocupação moral. Sam Harris, em The Moral Landscape, sustenta que as questões morais giram em torno do bem-estar e do sofrimento humano, embora sua tese seja objeto de controvérsias. Steven Pinker, em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, argumenta que a violência declinou ao longo da história, ainda que suas interpretações e seus números também sejam contestados. Reconheço essas divergências, mas me interessa, sobretudo, uma ideia que atravessa essas reflexões: a moralidade não é uma virtude pronta, muito menos uma herança automática. Ela pode amadurecer, como se educa uma criança, por meio da instrução, das instituições e, principalmente, do cuidado com o outro.
Essa discussão ganha contornos ainda mais concretos quando penso na pobreza. Amartya Sen mostrou que ela não se resume à falta de renda, mas representa também a privação de capacidades e oportunidades. Afinal, o chamado "fracasso" não acontece no vazio: tem endereço, rua, CEP e calendário. Isso não significa ignorar as escolhas individuais, mas compreender que ninguém escolhe a vida a partir das mesmas condições. A virtude não garante o êxito, assim como o êxito não comprova a virtude. Sem essa balança moral, resta-me uma lição que encontro em Jó: aprender a silenciar diante da dor alheia antes de tentar explicá-la e, sobretudo, agir antes de julgar. Carl Sagan preferia compreender a realidade a persistir em ilusões, e vejo nessa postura uma forma de respeito à inteligência e à dignidade humana. Que crentes e descrentes consigam se encontrar nesse ponto, não para apagar suas diferenças, mas para reconhecer uma responsabilidade comum: construir uma sociedade em que ninguém precise perguntar o que fez para merecer a própria dor, porque, antes mesmo de qualquer explicação, alguém já terá estendido a mão.


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