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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

 


Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na gaveta de minha avó havia uma fotografia sem legenda: quatro pessoas diante de uma casa de pau a pique. Ninguém sorria; todos apertavam os olhos contra o sol, como quem tentava enxergar além daquele instante. Quando perguntei quem eram, ela olhou demoradamente para a fotografia e respondeu: "Já soube". Foi, talvez, a resposta mais sincera que já ouvi sobre a morte. Afinal, aqueles rostos haviam desaparecido da memória dos vivos sem, contudo, jamais terem deixado de existir. Anos depois, aquela fotografia me devolveu uma pergunta inevitável: quando eu partir, o que restará de mim? Meu nome sobreviverá ao tempo ou acabará perdido em alguma gaveta, entre papéis antigos e lembranças sem identificação?

Essa inquietação é tão antiga quanto a própria escrita. O autor de Eclesiastes a formulou com uma serenidade desconcertante: não há lembrança dos antigos, nem haverá dos que vierem depois. Entretanto, em vez de nos entregar ao desespero, o livro nos convida a voltar os olhos para o presente: comer o pão com alegria, desfrutar a vida e compartilhar os dias com quem amamos. Outras passagens bíblicas oferecem uma resposta diferente, falando de um "livro da vida" e de um nome que Deus não esquece, como se a memória verdadeiramente importante não dependesse da lembrança humana. São perspectivas distintas, mas que se encontram numa mesma inquietação sobre a existência. Seja qual for a resposta que eu abrace, permanece a pergunta: "valeu a pena?". Curiosamente, costumo fazê-la olhando para o futuro, quando talvez devesse fazê-la examinando o presente. Afinal, de que adianta desejar um nome na lápide se, em vida, não conseguimos deixar marcas de humanidade no caminho?

Tenho boas razões para desconfiar da posteridade como tribunal. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens, lembra que a história preservou apenas uma pequena parcela da experiência humana. A imensa maioria das pessoas desapareceu sem deixar registros, independentemente de suas virtudes, maldades ou realizações. Já Daniel Schacter, psicólogo da memória, mostrou que recordar não é simplesmente abrir um arquivo e reproduzir o passado: é reconstruí-lo com as tintas do presente. Quem se lembra de nós também projeta sobre nossas histórias suas próprias experiências, sentimentos e interpretações. Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade "líquida", chamou a atenção para a fragilidade dos vínculos e a velocidade com que as relações se desfazem. O ambiente digital, por sua vez, acelerou esse paradoxo: armazenamos fotografias, mensagens e documentos aos milhares, mas nem por isso garantimos que alguém, um dia, se lembrará de nós. Guardamos quase tudo e, contraditoriamente, parecemos esquecer cada vez mais depressa. Diante dessa fragilidade, Viktor Frankl me ensina que o sentido da existência não deve ser perseguido como um troféu, mas encontrado na dedicação a algo maior que nós mesmos. Sartre, por sua vez, lembra que, condenado à liberdade, sou responsável por minhas escolhas e pelos meus atos, sem poder recorrer ao julgamento de um futuro desconhecido para me absolver ou condenar. No fim das contas, viver não é preparar um monumento para a posteridade, mas assumir a responsabilidade pelo que fazemos enquanto ainda estamos aqui.

Essa reflexão também me ensina a fazer justiça aos outros. Se a memória é reconstrução e o contexto exerce tamanha influência sobre o comportamento humano, como sugerem os experimentos de Philip Zimbardo, então condenar ou canonizar os mortos com veredictos definitivos pode ser um grave erro de perspectiva. A história está cheia de personagens que, conforme a época e os interesses de quem os interpreta, passaram de heróis a vilões e de vilões a heróis. A memória coletiva, afinal, nem sempre é justa; às vezes, apenas muda de opinião. Peter Singer me oferece um critério mais humano para avaliar a existência: perguntar quanto sofrimento conseguimos evitar e quanto bem-estar fomos capazes de produzir. É uma medida que dispensa monumentos, sobrenomes importantes e discursos depois da morte. Por isso, volto àquela fotografia esquecida na gaveta de minha avó. Não sei o nome das quatro pessoas, tampouco conheço suas histórias, seus sonhos ou as dificuldades que enfrentaram. Mas, sei que alguém as amou o bastante para guardar aquela imagem. E talvez o legado seja justamente isso: não a eternidade de um nome gravado na pedra, mas o cuidado que, enquanto estivemos vivos, tornou a caminhada de alguém um pouco menos pesada. Se um dia encontrarem uma fotografia minha numa gaveta, sem legenda, não faço questão de que saibam meu nome ou enumerem minhas realizações. Gostaria apenas que, ao segurá-la, alguém pudesse sentir que vivi com dignidade, tratei os outros com humanidade e, apesar das minhas contradições, fui capaz de fazer algum bem. Porque, no apagar das luzes, talvez não seja o nome na lápide que melhor conte quem fomos, mas a saudade silenciosa de quem teve a vida um pouco mais leve por nossa causa.

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