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MINHAS PÉROLAS

sábado, 7 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(16) A Linha que Atravessa o Coração: Sobre a Complexidade da Condição Humana

 


Ensaio Teológico X(16) A Linha que Atravessa o Coração: Sobre a Complexidade da Condição Humana

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Confesso que existe um conforto antigo em dividir o mundo em dois times: de um lado, os justos, que trabalham, oram e prosperam; do outro, os perversos, que colhem exatamente o que plantaram. É uma maneira cômoda de explicar a vida, sobretudo quando a desgraça acontece na casa alheia. Mas, quem já esteve à beira de uma cama de hospital, diante de um réu ou diante do próprio espelho sabe que esse mapa nem sempre corresponde ao território. Penso numa mulher que, durante quarenta anos, cumpriu fielmente cada preceito religioso e, de repente, recebeu um diagnóstico devastador, enquanto o vizinho, indiferente à religião e aos seus mandamentos, seguia a vida sem sequer um resfriado. Se a moral fosse uma questão de aritmética, o universo teria errado a conta. Na verdade, o equívoco está em quem insiste em fazer dessa conta uma explicação para tudo.

Reconheço que a tradição sapiencial parece, à primeira vista, sustentar essa lógica, como em Provérbios 10:16. Entendo, porém, que transformar o provérbio numa promessa mecânica é desconhecer sua natureza literária: ele condensa uma regularidade da experiência humana, não oferece uma garantia de recompensa para cada indivíduo. Aliás, a própria Bíblia se encarrega de questionar essa interpretação. Jó desmonta os argumentos dos amigos que enxergam no sofrimento uma espécie de sentença divina, enquanto Eclesiastes reconhece ter visto o justo perecer e o ímpio prolongar seus dias. Ora, se essas vozes estão dentro das Escrituras, não faz sentido ignorá-las para defender uma interpretação simplista. Por isso, não vejo a Bíblia como o espantalho que preciso combater, mas como uma interlocutora que, sem medo das contradições humanas, também discute consigo mesma.

O problema começa quando dessa leitura simplificada se constrói uma fronteira entre "nós" e "eles", como se o bem e o mal fossem propriedades de grupos distintos, facilmente identificáveis. Soljenítsin, depois de conhecer os campos soviéticos, chegou à conclusão de que a linha entre o bem e o mal atravessa o coração de cada ser humano. Jung chamou de sombra esse território interior que preferimos não visitar. Paulo, citando os Salmos, foi ainda mais incisivo ao afirmar que não há justo, nem sequer um. Isso, entretanto, não significa dissolver a moral num cinza indistinto, como se todas as atitudes tivessem o mesmo peso ou merecessem o mesmo julgamento. Hannah Arendt, ao refletir sobre Eichmann, mostrou como o mal também pode brotar de funcionários obedientes que renunciaram ao próprio pensamento. A responsabilidade, portanto, não desaparece: pensar, julgar e responder pelos próprios atos continuam sendo exigências éticas. Mas, há outra dimensão que não podemos ignorar: a estrutural. Com Foucault, compreendo o poder como uma situação estratégica complexa; com Wilkinson e Pickett, em O Nível, percebo como sociedades profundamente desiguais produzem piores indicadores de saúde e convivência; com Geertz, lembro que somos animais envolvidos em teias de significados que nós mesmos tecemos; e, com Haidt, reconheço que a moral tanto pode nos unir quanto nos cegar. Afinal, nem tudo se explica pelas escolhas individuais, assim como nem toda injustiça pode ser atribuída exclusivamente às estruturas sociais.

E onde fica a esperança no meio dessa travessia? Se ninguém é inteiramente justo, a salvação não pode ser tratada como prêmio por bom comportamento, muito menos como recompensa conquistada por mérito religioso. É justamente aí que a teologia oferece uma palavra que a sociologia, por si só, não pretende oferecer: a graça. Afinal, o sol nasce sobre maus e bons (Mateus 5:45). O mundo não é uma balança que distribui recompensas conforme nossas virtudes; é também uma dádiva que recebemos sem apresentar currículo moral. E quem já recebeu sem merecer deveria pensar duas vezes antes de cobrar do outro uma perfeição que também não possui. Abandonar o pensamento binário, portanto, não é desistir da justiça, tampouco passar pano para a perversidade: é alcançar certa maturidade para reconhecer a complexidade da condição humana sem abrir mão da responsabilidade. Prefiro trocar a pergunta "de que lado ele está?" por outra, bem mais humana: "que história o trouxe até aqui, e o que posso fazer, sendo tão frágil quanto ele, para que a próxima página seja melhor?" Assim, sem romantizar o erro nem condenar o outro à própria história, talvez aprendamos a caminhar com mais consciência. E, quando errarmos — porque também erramos —, que seja ao menos de olhos abertos e com a mão estendida.

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