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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

 


Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Carrego, desde a infância, perguntas que nem sei de onde vieram: o que faz de alguém uma pessoa boa? O que separa uma vida bem vivida de outra apenas bem comportada? Durante séculos, os códigos religiosos responderam a essas questões por nós. E não me parece justo desprezá-los, afinal, sustentaram comunidades, consolaram os enlutados e deram forma aos desejos humanos. Por isso, prefiro começar pela tradição, não contra ela. Tomás de Aquino compreendia a moral como a razão aplicada à busca do bem, enquanto João Paulo II defendia que a sexualidade é uma linguagem de entrega, traída quando o outro se transforma em instrumento. Reconheço nessas perspectivas uma intuição que não posso simplesmente descartar: o desejo sem cuidado fere. O desacordo, a meu ver, não está entre quem leva a moral a sério e quem não leva, mas entre diferentes maneiras de compreender como o respeito deve se manifestar.

É justamente aí que a pergunta ganha outros contornos. Martha Nussbaum sustenta que uma vida digna se mede pelas capacidades reais de pensar, amar, associar-se e escolher, sem que uma doutrina imponha um único modelo de existência a quem pensa diferente. Isso não significa que tudo seja permitido, mas que a dignidade humana exige espaço para que cada pessoa encontre e construa aquilo que a faz florescer. Com a devida cautela, recorro também a Angela Duckworth. Sei que ela trata de perseverança, não de moral sexual, mas suas reflexões me lembram que a constância e a capacidade de recomeçar são virtudes cultivadas por pessoas de crenças muito diferentes. Já Peter Singer descreve a história moral como um processo de ampliação do círculo daqueles que merecem consideração. É nessa perspectiva que compreendo o consentimento como núcleo da ética sexual: ninguém deve ser reduzido a instrumento do prazer alheio. Afinal, o outro não é objeto, é sujeito.

Mas, é preciso caminhar com cuidado quando o assunto envolve cultura e natureza. Gayle Rubin demonstrou como as sociedades hierarquizam as práticas sexuais com uma severidade que, muitas vezes, nasce de pânicos morais próprios de determinadas épocas. Eva Illouz, por sua vez, adverte que a liberdade prometida também pode produzir novas angústias: afinal, multiplicar as opções não significa, necessariamente, diminuir a solidão. Bruce Bagemihl documenta a diversidade dos comportamentos sexuais em centenas de espécies, mas convém não confundir as coisas: aquilo que acontece entre os animais não determina o que é moralmente bom para os seres humanos. Debra Soh, por outro lado, tem suas posições contestadas por parte da comunidade científica, e faço referência a seu trabalho com a modéstia de quem reconhece estar diante de um campo de investigação vivo, sujeito a revisões e controvérsias. Também há vozes importantes que enfrentam essas questões de dentro da própria fé. Margaret Farley fundamenta a ética sexual na justiça, enquanto Rowan Williams compreende o desejo como dom. Ambos mostram que é possível dialogar criticamente com a tradição religiosa sem precisar negá-la por inteiro.

Ainda assim, seria desonesto encerrar esta reflexão sem reconhecer aquilo que minha própria tese não consegue resolver. O consentimento, embora necessário, também é suficiente? Onde termina a autonomia e começa o dano, inclusive aquele que não deixa marcas visíveis? Imagino uma mulher ensinada, desde cedo, a enxergar o próprio desejo como motivo de vergonha e um homem educado a tratá-lo como troféu. Ambos, por caminhos opostos, aprenderam a não olhar o outro verdadeiramente de frente. E talvez seja justamente aí que esteja o problema: não basta ensinar o que se pode ou não fazer; é preciso aprender a reconhecer a humanidade de quem está diante de nós. O que poderia libertá-los não seria simplesmente acrescentar ou retirar um código de conduta, mas promover uma verdadeira educação do olhar. Talvez a sabedoria esteja nesse equilíbrio: não abolir a lei, tampouco transformá-la em objeto de adoração. Afinal, nenhuma lei deveria ser maior do que a dignidade humana, pois toda norma, religiosa ou não, só encontra sua razão de existir quando está a serviço do florescimento da vida.

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