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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(13) A Língua do Sábio e a Gagueira do Justo: sobre a fala, a tolice e a vara que não ensina

 


Ensaio Teológico X(13) A Língua do Sábio e a Gagueira do Justo: sobre a fala, a tolice e a vara que não ensina

Por Claudeci Ferreira de Andrade
 

Penso num menino da terceira fila que sabe a resposta, levanta a mão, mas, na hora de falar, sente as palavras emperrarem na porta da boca: "o-o-o-o...". Alguém ri baixinho, o professor passa a vez para outro aluno, e o menino se senta novamente, levando consigo a resposta intacta e a vergonha inteira. De fora, alguém poderia dizer: eis um tolo; por dentro, porém, havia ali talvez o aluno mais atento da turma. É dessa cena tão simples, mas tão reveladora, que nasce uma antiga suspeita minha: confundimos o jeito de falar com a qualidade de quem fala. É verdade que a tradição bíblica frequentemente associa a palavra ao caráter, e seria desonesto fingir que não há razões para isso. Provérbios, sobretudo, é um livro que estabelece relações entre a boca, a conduta e a sabedoria (Pv 10:13; 17:28; 18:2). Seu autor parece conhecer bem a natureza humana e observa que nossas palavras frequentemente denunciam aquilo que carregamos por dentro. Negar essa possibilidade seria empobrecer a própria reflexão. Afinal, a fala pode revelar muita coisa, mas será que revela tudo?

É preciso, entretanto, ler as Escrituras com atenção, sem confundir as coisas. O "tolo" de Provérbios (kesil, ewil) não é o gago, o iletrado ou o tímido. Trata-se de uma categoria moral: aquele que despreza a correção, rejeita o conselho e se fecha à possibilidade de aprender. E, convenhamos, esse sujeito pode ser eloquentíssimo! O sábio bíblico não é necessariamente o bom orador, mas aquele que teme ao Senhor, reconhece seus limites e se dispõe a aprender. Basta lembrar de Moisés, que confessou ter a boca e a língua pesadas (Êx 4:10). Deus não o descartou por sua dificuldade de comunicação, tampouco exigiu que se transformasse num grande orador; deu-lhe um irmão para falar ao seu lado. Paulo também reconheceu que sua palavra em Corinto não tinha "excelência de linguagem" (1Co 2:1; 2Co 10:10). E os coríntios, que mediam a sabedoria pela capacidade retórica, estavam equivocados. Percebo, então, uma distinção fundamental: a fala pode revelar disposições interiores, mas não determina a capacidade intelectual nem o valor moral de alguém. A dificuldade de Moisés para falar não era tolice; já a soberba fluente de Faraó não era sinal de sabedoria. Uma coisa é o talento para falar; outra, bem diferente, é a disposição para ouvir e aprender.

É justamente aí que encontro um dos pontos mais delicados dessa reflexão. O mesmo livro de Provérbios afirma que "o que poupa a vara odeia o seu filho" (Pv 13:24), passagem que muitos leitores interpretaram como autorização para corrigir a criança pela força física, inclusive quando sua dificuldade está na fala. Quero, porém, ser honesto tanto com o texto bíblico quanto com sua história de interpretação. A "vara" também pode ser compreendida à luz da imagem do cajado do pastor, instrumento de condução e proteção (Sl 23:4), e as tradições judaica e cristã debateram, ao longo dos séculos, os limites e a natureza dessa disciplina. Hoje, entretanto, dispomos de conhecimentos que exigem uma reflexão ainda mais cuidadosa. A Organização Mundial da Saúde recomenda a eliminação dos castigos corporais e documenta seus efeitos prejudiciais ao desenvolvimento infantil. A psicóloga Joan Durrant, da Universidade de Manitoba, tornou-se referência nos estudos e programas de disciplina positiva, que valorizam o ensino, a explicação, o diálogo e a orientação em lugar da violência. Diante disso, pergunto: afinal, o que a vara deveria representar na educação? Se a entendermos como instrumento de orientação, proteção e condução, sua finalidade não pode ser confundida com a agressão. Guiar uma criança que tropeça nas palavras exige paciência, acolhimento e incentivo, não pancada. Ora, se ela já sofre por não conseguir expressar o que pensa, por que transformar a dificuldade em motivo de castigo?

Resta-me, então, a sabedoria, justamente aquilo que a pressa dos rótulos costuma esquecer. Daniel Dennett, em Intuition Pumps (2013), recomenda uma humildade disciplinada: reconhecer a possibilidade do próprio erro e procurar compreender o argumento do outro em sua melhor versão. Não deixa de ser uma postura muito próxima do ensinamento bíblico de que "o que ouve a repreensão adquire entendimento" (Pv 15:32). Deborah Tannen (1990), por sua vez, lembra que os estilos de conversação variam conforme a cultura e o gênero, enquanto Brené Brown (2012) sustenta que expor-se diante dos outros, mesmo com medo e vulnerabilidade, é também uma expressão de coragem. São três vozes que, por caminhos diferentes, parecem apontar para o mesmo ensinamento: antes de sentenciar alguém pelo som de sua voz, é preciso aprender a escutar. Volto, então, àquela terceira fila e imagino o professor esperando, sem pressa e sem risos. O menino respira fundo, tropeça, recomeça. Dessa vez, ninguém o interrompe. Aos poucos, a resposta sai inteira, com o custo de cada sílaba. E talvez ele descubra, naquele instante, que sua voz também merece ser ouvida. Afinal, a sabedoria não está na rapidez com que alguém fala, mas na disposição com que escuta. O tolo não é aquele que gagueja, hesita ou demora a encontrar as palavras; é aquele que não quer ouvir, não aceita aprender e se julga pronto. Sábio, por sua vez, é aquele que, mesmo tropeçando nas sílabas, continua disposto a aprender.

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