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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(14) A Sabedoria na Era da Informação: Entre o Silêncio que Guarda e a Palavra que Constrói

 


Ensaio Teológico X(14) A Sabedoria na Era da Informação: Entre o Silêncio que Guarda e a Palavra que Constrói

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de dois silêncios que me ensinaram coisas opostas. No primeiro, durante uma discussão que corroía as relações familiares, um tio de poucas palavras permaneceu calado. Quando finalmente falou, bastou-lhe uma frase para desfazer a tensão. Saí daquela experiência convencido de que sabedoria era justamente isso: calar, esperar e falar na hora certa. Anos depois, porém, presenciei uma situação bem diferente. Um colega percebeu que determinado projeto caminhava para o erro, mas preferiu não se manifestar, por prudência e por um respeito mal compreendido. O resultado? O projeto ruiu. Entre essas duas cenas nasceu a pergunta que move este ensaio: será o silêncio, por si só, sinal de sabedoria, e a abundância de palavras, sinal de tolice?

Antes de derrubar esse pilar que eu mesmo havia construído, resolvi examiná-lo de perto. Afinal, a tradição sapiencial bíblica realmente elogia a contenção. Provérbios afirma que até o insensato, quando permanece calado, pode ser tido por sábio (Pv 17:28), enquanto Tiago compara a língua ao freio e à centelha, advertindo-nos a ser prontos para ouvir e tardios para falar (Tg 1:19; 3:3-6). Entretanto, a Escritura não recomenda o mutismo, mas o domínio da língua. Eclesiastes ensina que há tempo de calar e tempo de falar (Ec 3:7); a própria Sabedoria "clama nas ruas" (Pv 1:20), e a palavra dita no momento oportuno é "maçã de ouro em salva de prata" (Pv 25:11). Portanto, essa oposição entre sábios silenciosos e tolos falantes está mais próxima de uma simplificação popular do que de uma verdadeira doutrina bíblica. Afinal, nem todo silêncio é prudência, assim como nem toda palavra é precipitação.

Essa simplificação precisa ser revista, sobretudo numa época em que o conhecimento deixou de ser escasso e o sábio-depósito vem cedendo lugar ao sábio-aprendiz. Harari aponta que, num mundo de mudanças aceleradas, saber reaprender vale mais do que carregar um repertório fixo de informações. Carol Dweck, com seu conceito de "mindset de crescimento", mostra que o desempenho extraordinário nasce da persistência diante das dificuldades e da capacidade de enxergar o erro não como sentença, mas como matéria-prima para aprender. Gladwell, em Blink, lembra que a intuição pode ser precisa quando alimentada por uma longa experiência, mas também pode falhar, contaminada por preconceitos e julgamentos precipitados. Daí a importância do pensamento crítico: decidir rapidamente só se torna uma virtude quando existe uma longa trajetória de reflexão por trás da decisão.

Mas, aprender é apenas metade do caminho. O conhecimento que não circula corre o risco de virar uma espécie de patrimônio trancado a sete chaves. Tyson defende que a ciência só cumpre plenamente seu papel quando alcança as pessoas, enquanto Freire vê no diálogo o encontro em que os homens, mediatizados pelo mundo, o pronunciam. É nesse ponto que a palavra recupera sua importância: não como instrumento de exibição intelectual, mas como possibilidade de compartilhar saberes, questionar certezas e transformar a realidade. Admito, contudo, a objeção de que as redes sociais demonstram diariamente os perigos do excesso de palavras e de que os defensores da prudência têm, em parte, razão. Afinal, vivemos cercados de opiniões instantâneas, julgamentos apressados e certezas fabricadas. Ainda assim, penso que o grande problema do nosso tempo não é falar demais, mas falar sem ter ouvido, sem ter verificado e, principalmente, sem ter considerado a humanidade de quem está do outro lado.

Resta, porém, o ponto mais delicado dessa reflexão: Mateus 12:36 afirma que daremos conta de toda palavra ociosa. Posso compreender, com Sam Harris, que a moralidade não precisa estar fundamentada no medo de um juízo divino. Confesso, entretanto, que esse texto bíblico me diz algo a mais: a palavra tem peso, é também uma forma de agir, e toda ação produz consequências — seja diante de um tribunal, da própria consciência ou da memória de alguém que ferimos. Orwell, por sua vez, lembra que a linguagem corrompida também corrompe o pensamento. E é justamente aí que volto às duas cenas do início. Por fora, os silêncios eram idênticos; por dentro, porém, havia um abismo entre eles. Um foi sábio; o outro, covarde. O que os distinguia não era a ausência de palavras, mas a intenção, a oportunidade e o cuidado com o outro.

Por isso, hoje, já não acredito que a sabedoria caiba no cofre do silêncio ou no palanque da opinião. Ela exige algo bem mais difícil: ouvir com humildade, pensar com rigor e falar com responsabilidade. Afinal, o saber não é um estoque de informações prontas, muito menos um troféu para exibir diante dos outros. É um processo contínuo de questionamento, revisão e aprendizado. No fim das contas, não é a quantidade de palavras que revela a sabedoria de alguém, mas a consciência com que escolhe pronunciá-las — e a coragem de não se calar quando o silêncio também pode ferir.

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