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MINHAS PÉROLAS

sábado, 7 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(17) O Discípulo e a Dúvida: Sobre Aprender sem Servir

 


Ensaio Teológico X(17) O Discípulo e a Dúvida: Sobre Aprender sem Servir

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Confesso que todo mundo já teve um mestre a quem sentiu medo de fazer perguntas. E quase todo mundo descobriu, mais tarde, que o melhor professor era justamente aquele que não tinha medo das perguntas dos alunos. Por isso, desconfio dessa velha equação que insiste em juntar sabedoria e obediência como se fossem irmãs inseparáveis. Ora, se aprender fosse apenas acatar ordens, bastaria um bom manual para fabricar sábios em série. Um aluno que nunca discorda de nada não demonstra necessariamente sabedoria; muitas vezes, revela apenas boa memória e disposição para obedecer. Convém, entretanto, fazer justiça à tradição que estou discutindo. Provérbios exalta quem ama a disciplina e chama de insensato aquele que aborrece a repreensão (12:1). Mas, o sábio ali retratado não é um servo de boca fechada: ele inclina o ouvido, procura o entendimento como quem cava à procura de um tesouro (2:1-5) e aceita a correção porque deseja enxergar melhor, não porque tem medo de contrariar o mestre.

Entendo que a distinção decisiva está entre docilidade e servilismo. A primeira é a abertura de quem reconhece que não sabe tudo; o segundo é a abdicação da própria consciência, de quem prefere deixar que os outros pensem em seu lugar. Por isso, a pergunta importante nunca deveria ser apenas "devo obedecer?", mas também "quem me corrige, com que autoridade e em favor de quê?". Afinal, a orientação de um mestre que deseja meu crescimento não se confunde com a imposição de um poder que pretende me manter calado. E a própria Bíblia oferece bons exemplos dessa diferença. Jó recusou as explicações simplistas dos amigos e, ao final, recebeu a aprovação divina (Jó 42:7). Jacó lutou durante toda uma noite com o anjo e saiu manco, mas abençoado (Gênesis 32). Já os judeus de Bereia foram elogiados por examinarem as Escrituras para verificar o que ouviam, mesmo quando a mensagem vinha de um apóstolo (Atos 17:11). Percebo, assim, que a fé capaz de enfrentar perguntas e sobreviver ao exame é muito mais robusta do que aquela que depende do silêncio para continuar de pé.

A filosofia e a psicologia também ajudam a compreender esse percurso. Kant, em Resposta à pergunta: o que é o Esclarecimento? (1784), definiu a menoridade como a incapacidade de utilizar a própria razão sem a direção de outra pessoa. Para ele, essa condição não decorre necessariamente da falta de inteligência, mas da ausência de decisão e coragem para pensar por conta própria. Daí seu conhecido lema Sapere aude: ousa saber! Entendo, porém, que Kant não nos convida a desprezar os mestres, mas a submeter aquilo que recebemos ao crivo da razão. Piaget, por sua vez, mostrou que o conhecimento se desenvolve nesse movimento entre assimilar o que vem de fora e acomodar nossas próprias estruturas diante daquilo que as desafia. Faço aqui uma ressalva: o desenvolvimento cognitivo da criança não equivale, por si só, à sabedoria moral do adulto. Ainda assim, a intuição que aproxima essas reflexões é valiosa: ninguém aprende verdadeiramente quando se comporta como um simples recipiente, recebendo informações sem examiná-las. Lembro-me, aliás, de uma instrução que segui sem compreender e que, mais tarde, revelou-se um presente; lembro também de outra que recusei, de coração apertado, e cuja rejeição me custou caro. Nas duas situações, a lição não estava apenas na ordem recebida ou na decisão tomada, mas na relação entre quem orientava e quem precisava decidir.

Concluo, então, que a humildade bem compreendida não é inimiga da autonomia; pelo contrário, é uma de suas condições. Só aprende de verdade quem admite que não sabe tudo, assim como só consegue pensar por si mesmo quem reconhece o quanto deve aos outros. O orgulho que impede a sabedoria aparece tanto na submissão de quem não pergunta quanto na rebeldia de quem não escuta. Embora pareçam atitudes opostas, os dois extremos acabam se encontrando no mesmo lugar: ambos recusam o trabalho de pensar. Aprender é um ofício de duas mãos: uma recebe, a outra examina e pondera. Quem apenas recebe vira eco; quem apenas questiona, sem disposição para acolher, corre o risco de se transformar numa ilha. Quero ser aquele que faz as duas coisas: ter humildade bastante para agradecer a quem me ensinou e coragem bastante para ir além. Afinal, um bom discípulo não precisa permanecer eternamente à sombra do mestre. Pode, sim, aprender com ele, caminhar ao seu lado e, quando chegar a hora, enxergar caminhos que ainda não foram percorridos.

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