"Se você tem uma missão Deus escreve na vocação"— Luiz Gasparetto

" Não escrevo para convencer, mas para testemunhar."

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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(11) O Coração Não Cabe na Boca: sobre os limites da palavra como retrato do caráter

 


Ensaio Teológico X(11) O Coração Não Cabe na Boca: sobre os limites da palavra como retrato do caráter

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Todos nós já dissemos, no calor de uma discussão, algo que não éramos — ou fomos exatamente aquilo que dissemos e só descobrimos tarde demais. É nessa fresta entre o que se diz e o que se sente que me instalo para perguntar: será que a palavra revela o coração por inteiro ou apenas um recorte dele, às vezes disfarce, às vezes, confissão involuntária? Penso numa cozinha, onze da noite. Uma mulher exausta, depois de um dia daqueles, diz ao marido: "Faça o que quiser. Eu não me importo." À primeira vista, suas palavras expressam uma indiferença glacial; entretanto, quem conhece aquela mulher talvez escute nelas um pedido de socorro. A frase é a mesma, mas os sentidos são opostos. Quem julga apenas pelo som corre o risco de condenar sem compreender.

Reconheço, porém, que o próprio Cristo ensinou que a boca fala do que o coração está cheio (Lc 6:45; Mt 12:34). Seria desonesto, portanto, negar que nossas palavras frequentemente denunciam aquilo que carregamos por dentro. Ainda assim, a Escritura nos oferece um contraponto fundamental: o homem vê o exterior, mas o Senhor vê o coração (1Sm 16:7). Só Deus lê a alma sem intermediários; a nós cabe interpretar aquilo que escapa pelos lábios, sabendo que se trata de vestígios, não de veredictos. Basta lembrar os amigos de Jó: falaram com piedade aparentemente impecável, mas erraram profundamente em seus julgamentos. Pedro, por sua vez, negou o Mestre três vezes e, depois, chorou amargamente. Suas palavras diziam uma coisa; suas lágrimas, outra. A ciência moderna chega a conclusões semelhantes por caminhos diferentes. Com Goffman (1959), compreendo que ajustamos nossos papéis conforme o público, e quem conhece apenas a ribalta conhece a personagem, não necessariamente a pessoa. Com Pinker (2007), entendo que a fala indireta muitas vezes serve para administrar relações, e não simplesmente para expressar sentimentos. Tannen (1990), por sua vez, mostra que interromper alguém pode representar entusiasmo em determinada cultura e grosseria em outra. Já Damasio (1994) me recorda que somos organismos em movimento, atravessados por emoções e circunstâncias, não estátuas morais condenadas a permanecer iguais para sempre.

Isso, entretanto, não me autoriza a concluir que a palavra não importa. Afinal, se a fala nunca revela nada sobre o caráter, a calúnia seria inocente e a humilhação, mero acidente? Ora, não é por aí! É preciso distinguir a palavra como janela, nem sempre transparente, da palavra como ato, cujas consequências são bem reais. Austin (1962) ensinou que dizer também é fazer, enquanto o antigo provérbio bíblico já advertia que a morte e a vida estão no poder da língua (Pv 18:21). A palavra importa, sobretudo, pela responsabilidade que temos sobre aquilo que provocamos com ela, e não por funcionar como um diagnóstico infalível de quem somos. Posso, sim, ser cobrado pelo golpe que desferi com minhas palavras, sem que isso autorize alguém a decretar, de uma vez por todas, quem sou. Com Habermas (1984), prefiro trocar a pergunta "que tipo de pessoa fala assim?" por outra, muito mais produtiva: "que tipo de diálogo estamos construindo?" Desse modo, saímos do tribunal e nos sentamos à mesa, onde ainda é possível ouvir, ponderar e reconstruir pontes. Isso não significa adotar um relativismo preguiçoso, como se tudo pudesse ser desculpado em nome das circunstâncias. Afinal, uma crítica franca e até uma palavra profética podem nascer de um amor profundo, enquanto uma doçura excessiva, dessas que escorrem mel pelos lábios, pode muito bem esconder veneno.

Resta-me, então, a lição mais antiga, deixada pelo apóstolo Tiago: quem não tropeça no falar é homem perfeito (Tg 3:2). Como perfeitos não somos, convém ser lentos para sentenciar e rápidos para ouvir. Julgar o coração alheio a partir de uma frase solta é usurpar um ofício que não me foi confiado (Mt 7:1). Chomsky (2006) nos lembra da assombrosa criatividade da linguagem, e um ser capaz de tamanha infinitude não cabe nos limites de uma única frase. Cada fala é apenas um instante de um rio; ninguém conhece o rio inteiro contemplando a fotografia de uma onda. Que eu aprenda, portanto, a escutar com a paciência de quem reconhece que a pessoa diante de mim é sempre maior que suas palavras. E que também aprenda a falar com o temor de quem sabe que as próprias palavras, mesmo quando não revelam inteiramente quem sou, carregam minha responsabilidade e me comprometem. Afinal, entre aquilo que sentimos, aquilo que dizemos e aquilo que fazemos existe uma distância que exige menos julgamento e mais consciência.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(10) A Máscara e o Rosto: Ensaio sobre Vulnerabilidade, Vergonha e Graça

 


Ensaio Teológico X(10) A Máscara e o Rosto: Ensaio sobre Vulnerabilidade, Vergonha e Graça

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aprendi cedo a arte de parecer: inteligente na escola, seguro de mim mais tarde, incansável no trabalho. Ninguém ensina isso formalmente numa sala de aula, mas, de um jeito ou de outro, todos aprendemos que existe uma versão de nós mesmos feita para agradar aos outros e outra, mais lenta, frágil e cheia de dúvidas, que escondemos quando há alguém por perto. É assim que a máscara nasce: dessa espécie de contabilidade entre o que mostramos e o que somos. No começo, parece escudo e até cumpre bem esse papel. O problema é que, com o passar do tempo, ela cobra seu preço. Afinal, ninguém consegue amar um rosto que nunca viu, e nós mesmos acabamos impedidos de receber amor quando não permitimos que alguém nos conheça de verdade.

A tradição bíblica conhece muito bem esse mecanismo. No Gênesis, homem e mulher estavam nus e não sentiam vergonha (Gn 2,25). A máscara aparece depois, quando entram em cena a folha de figueira, o esconderijo entre as árvores e a pergunta "Onde estás?" (Gn 3,9). Deus não pergunta por desconhecer o paradeiro humano, mas para provocar um encontro, chamar à consciência quem já havia começado a se esconder. Mais adiante, na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14), encontramos outra face dessa mesma questão: volta justificado para casa aquele que, sem ostentar méritos, bate no peito e pede misericórdia. O fariseu não era propriamente um vilão; seu equívoco estava em confundir currículo religioso com identidade, aparência de virtude com transformação interior. A psicologia também nos oferece boas pistas para compreender esse comportamento. Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito (2012), sustenta que a vulnerabilidade é o berço da criatividade, do pertencimento e do amor. Jürgen Habermas, por sua vez, na Teoria da Ação Comunicativa (1981), distingue o agir estratégico do agir comunicativo. Essa diferença me ajuda a compreender a máscara como uma espécie de administração silenciosa das impressões: mostramos o que convém, escondemos o que incomoda e, quase sem perceber, passamos a viver em busca de aprovação.

Seria ingenuidade, entretanto, defender uma transparência absoluta, como se devêssemos abrir a alma para qualquer pessoa ou transformar a intimidade num espetáculo público. Erving Goffman, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana (1956), mostrou que a vida social é constituída por papéis e representações, e que desempenhá-los não significa, necessariamente, viver na hipocrisia. O médico que procura tranquilizar o paciente, o professor que mantém a compostura diante da turma e o pai que sorri para não transmitir suas preocupações ao filho também usam máscaras. Só que, nesses casos, elas podem expressar cuidado, responsabilidade e até amor. Portanto, a questão decisiva não é simplesmente saber se usamos máscaras, mas se ainda somos capazes de tirá-las quando encontramos alguém diante de quem podemos ser nós mesmos. Há, contudo, um detalhe que não podemos ignorar: nem todo ambiente acolhe a vulnerabilidade. Revelar nossas fragilidades a quem pode transformá-las em armas contra nós não é coragem, é imprudência. A autenticidade também exige sabedoria para discernir a quem, quando e até que ponto devemos nos revelar.

Lembro-me de uma conversa em que, depois de anos sustentando a imagem de quem tinha tudo sob controle, finalmente admiti a um amigo que estava exausto. Confesso que esperava algum julgamento, talvez um conselho pronto ou aquela velha tentativa de me convencer a ser forte. Mas, ele simplesmente respondeu: "Eu também." Foi só isso. Nenhuma grande explicação, nenhum discurso motivacional. Por fora, nada mudou; por dentro, porém, alguma coisa se desatou. Era como perceber que eu carregava um peso que ninguém havia me pedido para carregar sozinho. Talvez seja essa uma das grandes lições da convivência humana: não precisamos arrancar todas as máscaras de uma vez, mas reconhecer que existe um rosto debaixo delas, com suas contradições, seus medos e suas cicatrizes. E que esse rosto pode ser visto sem que o mundo desabe. A tradição religiosa chama essa experiência de graça; a psicologia, de pertencimento. Eu diria que ambas apontam para uma necessidade profundamente humana: ser reconhecido por inteiro, sem precisar representar o tempo todo, e descobrir que, mesmo depois de vistos nossos defeitos e fragilidades, ainda podemos ser acolhidos. Afinal, que sentido tem passar a vida inteira construindo uma imagem para os outros, se, no fim das contas, nem nós mesmos conseguimos reconhecer quem está por trás dela?

Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

 


Ensaio Teológico X(9) O Corpo, a Lei e a Vida Boa: Ensaio sobre Liberdade Sexual e Caráter Humano

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Carrego, desde a infância, perguntas que nem sei de onde vieram: o que faz de alguém uma pessoa boa? O que separa uma vida bem vivida de outra apenas bem comportada? Durante séculos, os códigos religiosos responderam a essas questões por nós. E não me parece justo desprezá-los, afinal, sustentaram comunidades, consolaram os enlutados e deram forma aos desejos humanos. Por isso, prefiro começar pela tradição, não contra ela. Tomás de Aquino compreendia a moral como a razão aplicada à busca do bem, enquanto João Paulo II defendia que a sexualidade é uma linguagem de entrega, traída quando o outro se transforma em instrumento. Reconheço nessas perspectivas uma intuição que não posso simplesmente descartar: o desejo sem cuidado fere. O desacordo, a meu ver, não está entre quem leva a moral a sério e quem não leva, mas entre diferentes maneiras de compreender como o respeito deve se manifestar.

É justamente aí que a pergunta ganha outros contornos. Martha Nussbaum sustenta que uma vida digna se mede pelas capacidades reais de pensar, amar, associar-se e escolher, sem que uma doutrina imponha um único modelo de existência a quem pensa diferente. Isso não significa que tudo seja permitido, mas que a dignidade humana exige espaço para que cada pessoa encontre e construa aquilo que a faz florescer. Com a devida cautela, recorro também a Angela Duckworth. Sei que ela trata de perseverança, não de moral sexual, mas suas reflexões me lembram que a constância e a capacidade de recomeçar são virtudes cultivadas por pessoas de crenças muito diferentes. Já Peter Singer descreve a história moral como um processo de ampliação do círculo daqueles que merecem consideração. É nessa perspectiva que compreendo o consentimento como núcleo da ética sexual: ninguém deve ser reduzido a instrumento do prazer alheio. Afinal, o outro não é objeto, é sujeito.

Mas, é preciso caminhar com cuidado quando o assunto envolve cultura e natureza. Gayle Rubin demonstrou como as sociedades hierarquizam as práticas sexuais com uma severidade que, muitas vezes, nasce de pânicos morais próprios de determinadas épocas. Eva Illouz, por sua vez, adverte que a liberdade prometida também pode produzir novas angústias: afinal, multiplicar as opções não significa, necessariamente, diminuir a solidão. Bruce Bagemihl documenta a diversidade dos comportamentos sexuais em centenas de espécies, mas convém não confundir as coisas: aquilo que acontece entre os animais não determina o que é moralmente bom para os seres humanos. Debra Soh, por outro lado, tem suas posições contestadas por parte da comunidade científica, e faço referência a seu trabalho com a modéstia de quem reconhece estar diante de um campo de investigação vivo, sujeito a revisões e controvérsias. Também há vozes importantes que enfrentam essas questões de dentro da própria fé. Margaret Farley fundamenta a ética sexual na justiça, enquanto Rowan Williams compreende o desejo como dom. Ambos mostram que é possível dialogar criticamente com a tradição religiosa sem precisar negá-la por inteiro.

Ainda assim, seria desonesto encerrar esta reflexão sem reconhecer aquilo que minha própria tese não consegue resolver. O consentimento, embora necessário, também é suficiente? Onde termina a autonomia e começa o dano, inclusive aquele que não deixa marcas visíveis? Imagino uma mulher ensinada, desde cedo, a enxergar o próprio desejo como motivo de vergonha e um homem educado a tratá-lo como troféu. Ambos, por caminhos opostos, aprenderam a não olhar o outro verdadeiramente de frente. E talvez seja justamente aí que esteja o problema: não basta ensinar o que se pode ou não fazer; é preciso aprender a reconhecer a humanidade de quem está diante de nós. O que poderia libertá-los não seria simplesmente acrescentar ou retirar um código de conduta, mas promover uma verdadeira educação do olhar. Talvez a sabedoria esteja nesse equilíbrio: não abolir a lei, tampouco transformá-la em objeto de adoração. Afinal, nenhuma lei deveria ser maior do que a dignidade humana, pois toda norma, religiosa ou não, só encontra sua razão de existir quando está a serviço do florescimento da vida.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(8) A PERGUNTA COMO REVERÊNCIA

 



Ensaio Teológico X(8) A PERGUNTA COMO REVERÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

No fundo da sala havia um menino que nunca levantava a mão. Sabia algumas respostas, ou pelo menos desconfiava delas, mas a pergunta que lhe queimava a garganta — "E se não for assim?" — parecia-lhe uma espécie de ofensa. Talvez tivesse medo de contrariar a professora, decepcionar os colegas ou simplesmente ser confundido com alguém que não respeitava a autoridade. Até que, certo dia, em vez de repreendê-lo, a professora escreveu a frase no quadro e disse: "Hoje vamos começar por aqui". Naquele instante, o menino aprendeu uma lição que talvez levasse anos para compreender por inteiro: há silêncios que nascem do respeito e outros que são filhos do medo. E só os primeiros merecem ser preservados. Lembro-me dele quando releio o velho provérbio segundo o qual o sábio ama ser ensinado, enquanto o tolo prefere ouvir a própria voz. Não pretendo desmentir essa sabedoria, afinal, quem se considera completo já fechou as portas para o aprendizado. Mas, fica uma inquietação: escutar bem significa deixar de perguntar ou será que uma atitude amadurece justamente com a outra?

A própria tradição sapiencial nunca confundiu humildade com obediência cega. No livro de Jó, encontramos um homem que interroga o Céu, expõe suas angústias e questiona a justiça divina. Curiosamente, é ele quem recebe reconhecimento, enquanto seus amigos, tão seguros de suas fórmulas e explicações prontas, acabam repreendidos. Os Salmos também estão cheios de clamores, perguntas e pedidos de explicação, mostrando que a inquietação pode ser uma forma legítima de oração. Em Atos 17, os judeus de Bereia são elogiados justamente porque recebiam a mensagem com entusiasmo, mas examinavam diariamente as Escrituras para verificar se aquilo correspondia à verdade. Ora, que bela demonstração de equilíbrio! Eles ouviam sem fechar os olhos e examinavam sem desprezar o que ouviam. Vejo nisso uma sabedoria que não coloca a escuta e a crítica em lados opostos: perguntar não é necessariamente desconfiar de quem ensina, mas levar a sério aquilo que foi ensinado.

Nosso tempo, aliás, torna essa lição ainda mais necessária. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens e 21 Lições para o Século XXI, chama a atenção para um problema da sociedade contemporânea: a abundância de informações não significa, necessariamente, maior compreensão. Em meio a tantas notícias, opiniões e versões, o desafio é separar o que realmente importa do barulho que nos cerca. Daniel Kahneman, psicólogo e Nobel de Economia, demonstrou como o pensamento rápido pode nos conduzir a julgamentos equivocados, razão pela qual decidir bem exige, muitas vezes, desconfiar das próprias certezas. Carol Dweck, também psicóloga, acrescenta que a inteligência e a aprendizagem se desenvolvem quando estamos dispostos a errar, rever caminhos e tentar novamente. Paulo Freire, por sua vez, criticava a chamada "educação bancária", na qual o aluno é tratado como um cofre no qual o professor deposita conhecimentos, e defendia uma educação fundamentada no diálogo, em que ensinar e aprender são movimentos de mão dupla. Hannah Arendt, ao refletir sobre os perigos da ausência de pensamento crítico e sobre a responsabilidade individual diante do autoritarismo, também nos ajuda a compreender o risco de simplesmente aceitar o que nos dizem. Hoje, em meio à desinformação, às notícias fabricadas e às opiniões que circulam como verdades absolutas, quem não pergunta acaba ficando à mercê de quem fala mais alto. Até o progresso, penso eu, nasce muitas vezes da inquietação de alguém que resolve examinar aquilo que todos consideram indiscutível. A campanha "Think Different", da Apple, criada por uma agência de publicidade, e não uma declaração pessoal de seu fundador, sintetizou essa intuição: ideias novas costumam parecer insolentes antes de serem reconhecidas como necessárias. Afinal, quase toda mudança começa com alguém que tem coragem de perguntar: por que precisa continuar sendo assim?

Volto, então, ao menino do fundo da sala. O que a professora lhe ofereceu não foi uma licença para a rebeldia, muito menos um convite à contestação gratuita. Foi algo mais importante: a segurança de saber que sua pergunta seria recebida como contribuição, não como desacato. É esse equilíbrio que procuro defender, tanto na escola quanto na vida. A sabedoria não mora na submissão de quem aceita tudo, tampouco na soberba de quem rejeita qualquer ideia que venha do outro. Mora na atenção humilde de quem escuta até o fim, pensa, pondera e só então pergunta, mesmo que sua pergunta provoque algum desconforto. Afinal, não precisamos escolher entre ouvir e pensar, entre respeitar e questionar. Uma coisa não anula a outra; pelo contrário, completa-a. Escutar dá à dúvida o direito de existir; perguntar dá à escuta o seu verdadeiro sentido. Num mundo que muda depressa e onde tantas certezas envelhecem antes mesmo de serem compreendidas, precisamos de pessoas capazes de aprender sem se ajoelhar diante de qualquer discurso e de questionar sem perder a humildade. Gente que saiba ser, ao mesmo tempo, discípula e interlocutora. Porque, no fim das contas, perguntar também é uma forma de reverência: é reconhecer que o conhecimento merece respeito, mas nenhuma resposta humana deve ser confundida com a verdade absoluta.

Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

 


Ensaio Teológico X(7) O NOME NA LÁPIDE: Para o dia de finados

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Na gaveta de minha avó havia uma fotografia sem legenda: quatro pessoas diante de uma casa de pau a pique. Ninguém sorria; todos apertavam os olhos contra o sol, como quem tentava enxergar além daquele instante. Quando perguntei quem eram, ela olhou demoradamente para a fotografia e respondeu: "Já soube". Foi, talvez, a resposta mais sincera que já ouvi sobre a morte. Afinal, aqueles rostos haviam desaparecido da memória dos vivos sem, contudo, jamais terem deixado de existir. Anos depois, aquela fotografia me devolveu uma pergunta inevitável: quando eu partir, o que restará de mim? Meu nome sobreviverá ao tempo ou acabará perdido em alguma gaveta, entre papéis antigos e lembranças sem identificação?

Essa inquietação é tão antiga quanto a própria escrita. O autor de Eclesiastes a formulou com uma serenidade desconcertante: não há lembrança dos antigos, nem haverá dos que vierem depois. Entretanto, em vez de nos entregar ao desespero, o livro nos convida a voltar os olhos para o presente: comer o pão com alegria, desfrutar a vida e compartilhar os dias com quem amamos. Outras passagens bíblicas oferecem uma resposta diferente, falando de um "livro da vida" e de um nome que Deus não esquece, como se a memória verdadeiramente importante não dependesse da lembrança humana. São perspectivas distintas, mas que se encontram numa mesma inquietação sobre a existência. Seja qual for a resposta que eu abrace, permanece a pergunta: "valeu a pena?". Curiosamente, costumo fazê-la olhando para o futuro, quando talvez devesse fazê-la examinando o presente. Afinal, de que adianta desejar um nome na lápide se, em vida, não conseguimos deixar marcas de humanidade no caminho?

Tenho boas razões para desconfiar da posteridade como tribunal. Yuval Noah Harari, historiador e autor de Sapiens, lembra que a história preservou apenas uma pequena parcela da experiência humana. A imensa maioria das pessoas desapareceu sem deixar registros, independentemente de suas virtudes, maldades ou realizações. Já Daniel Schacter, psicólogo da memória, mostrou que recordar não é simplesmente abrir um arquivo e reproduzir o passado: é reconstruí-lo com as tintas do presente. Quem se lembra de nós também projeta sobre nossas histórias suas próprias experiências, sentimentos e interpretações. Zygmunt Bauman, ao analisar a modernidade "líquida", chamou a atenção para a fragilidade dos vínculos e a velocidade com que as relações se desfazem. O ambiente digital, por sua vez, acelerou esse paradoxo: armazenamos fotografias, mensagens e documentos aos milhares, mas nem por isso garantimos que alguém, um dia, se lembrará de nós. Guardamos quase tudo e, contraditoriamente, parecemos esquecer cada vez mais depressa. Diante dessa fragilidade, Viktor Frankl me ensina que o sentido da existência não deve ser perseguido como um troféu, mas encontrado na dedicação a algo maior que nós mesmos. Sartre, por sua vez, lembra que, condenado à liberdade, sou responsável por minhas escolhas e pelos meus atos, sem poder recorrer ao julgamento de um futuro desconhecido para me absolver ou condenar. No fim das contas, viver não é preparar um monumento para a posteridade, mas assumir a responsabilidade pelo que fazemos enquanto ainda estamos aqui.

Essa reflexão também me ensina a fazer justiça aos outros. Se a memória é reconstrução e o contexto exerce tamanha influência sobre o comportamento humano, como sugerem os experimentos de Philip Zimbardo, então condenar ou canonizar os mortos com veredictos definitivos pode ser um grave erro de perspectiva. A história está cheia de personagens que, conforme a época e os interesses de quem os interpreta, passaram de heróis a vilões e de vilões a heróis. A memória coletiva, afinal, nem sempre é justa; às vezes, apenas muda de opinião. Peter Singer me oferece um critério mais humano para avaliar a existência: perguntar quanto sofrimento conseguimos evitar e quanto bem-estar fomos capazes de produzir. É uma medida que dispensa monumentos, sobrenomes importantes e discursos depois da morte. Por isso, volto àquela fotografia esquecida na gaveta de minha avó. Não sei o nome das quatro pessoas, tampouco conheço suas histórias, seus sonhos ou as dificuldades que enfrentaram. Mas, sei que alguém as amou o bastante para guardar aquela imagem. E talvez o legado seja justamente isso: não a eternidade de um nome gravado na pedra, mas o cuidado que, enquanto estivemos vivos, tornou a caminhada de alguém um pouco menos pesada. Se um dia encontrarem uma fotografia minha numa gaveta, sem legenda, não faço questão de que saibam meu nome ou enumerem minhas realizações. Gostaria apenas que, ao segurá-la, alguém pudesse sentir que vivi com dignidade, tratei os outros com humanidade e, apesar das minhas contradições, fui capaz de fazer algum bem. Porque, no apagar das luzes, talvez não seja o nome na lápide que melhor conte quem fomos, mas a saudade silenciosa de quem teve a vida um pouco mais leve por nossa causa.

Ensaio Teológico X(6) A BALANÇA QUE NÃO PESA

 


Ensaio Teológico X(6) A BALANÇA QUE NÃO PESA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Lembro-me de uma senhora de mãos calejadas que, num hospital público, perguntou à enfermeira, sem rancor: "O que foi que eu fiz para merecer isto?". Eram sessenta anos de trabalho, nenhuma dívida e missa aos domingos. Sua pergunta, aparentemente simples, carregava séculos de teologia: aquela velha convicção de que a dor é sentença e a prosperidade, recibo. Compreendo essa crença, afinal, ela nasce do desejo legítimo de acreditar que o mundo tenha alguma lógica e que a virtude não seja em vão. O que me preocupa, porém, é a seriedade com que essa ideia costuma ser defendida, pois, quando transformada em regra, acaba culpando quem sofre e fazendo a compaixão hesitar à porta. E, convenhamos, não há crueldade maior do que acrescentar culpa à dor de quem já carrega tanto peso.

Não penso, entretanto, que apenas a razão secular desconfie dessa balança. A própria fé já a questionou por dentro. No livro de Jó, os três amigos defendem, com eloquência, que o justo prospera e o ímpio padece. Curiosamente, é a eles, e não ao homem que sofre, que o texto reserva a reprovação final. Em João 9, Jesus também recusa a lógica que procura um culpado para explicar a cegueira de nascença. Já a teologia da graça, de Paulo a Agostinho e aos reformadores, reafirma que a salvação é dom, não salário. Portanto, questionar a ideia de que a conduta determina o destino não significa atacar a fé. Pelo contrário, é reencontrar uma de suas vozes mais lúcidas e reconhecer que a existência humana não funciona como um livro-caixa moral, no qual cada sofrimento seria uma dívida e cada conquista, um pagamento.

Se essa balança não pesa, então o que sustenta a moralidade? A filosofia contemporânea oferece algumas respostas que dialogam com essa antiga inquietação. Peter Singer compreende a ética como um esforço de dar sentido à vida compartilhada, defendendo a ampliação do nosso círculo de preocupação moral. Sam Harris, em The Moral Landscape, sustenta que as questões morais giram em torno do bem-estar e do sofrimento humano, embora sua tese seja objeto de controvérsias. Steven Pinker, em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, argumenta que a violência declinou ao longo da história, ainda que suas interpretações e seus números também sejam contestados. Reconheço essas divergências, mas me interessa, sobretudo, uma ideia que atravessa essas reflexões: a moralidade não é uma virtude pronta, muito menos uma herança automática. Ela pode amadurecer, como se educa uma criança, por meio da instrução, das instituições e, principalmente, do cuidado com o outro.

Essa discussão ganha contornos ainda mais concretos quando penso na pobreza. Amartya Sen mostrou que ela não se resume à falta de renda, mas representa também a privação de capacidades e oportunidades. Afinal, o chamado "fracasso" não acontece no vazio: tem endereço, rua, CEP e calendário. Isso não significa ignorar as escolhas individuais, mas compreender que ninguém escolhe a vida a partir das mesmas condições. A virtude não garante o êxito, assim como o êxito não comprova a virtude. Sem essa balança moral, resta-me uma lição que encontro em Jó: aprender a silenciar diante da dor alheia antes de tentar explicá-la e, sobretudo, agir antes de julgar. Carl Sagan preferia compreender a realidade a persistir em ilusões, e vejo nessa postura uma forma de respeito à inteligência e à dignidade humana. Que crentes e descrentes consigam se encontrar nesse ponto, não para apagar suas diferenças, mas para reconhecer uma responsabilidade comum: construir uma sociedade em que ninguém precise perguntar o que fez para merecer a própria dor, porque, antes mesmo de qualquer explicação, alguém já terá estendido a mão.

domingo, 1 de novembro de 2026

Ensaio Teológico X(5) A Complexidade das Oportunidades na Sociedade Moderna [As cotas estão certas]

 



Ensaio Teológico X(5) A Complexidade das Oportunidades na Sociedade Moderna [As cotas estão certas]

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Imagino um rapaz, a quem chamo de Mateus, atravessando a cidade em dois ônibus para chegar a uma escola pública que passou meses sem professor de Física. À noite, estuda na mesa da cozinha, entre as contas da casa e o cansaço de quem já enfrentou um longo dia, sem nunca ter colocado os pés num cursinho preparatório. Na mesma lista do Enem aparece outro rapaz, igualmente dedicado, mas que teve simulados, aulas de reforço e até intercâmbio. Então, alguém dirá, com a tranquilidade de quem consulta uma tabela, que cada um chegou aonde merecia. É justamente dessa tranquilidade que desconfio. Afinal, oportunidade não é uma bênção que simplesmente desce do céu, tampouco um prêmio que se conquista apenas com esforço individual. É uma construção social, feita de escolas, bairros, heranças e relações que abrem ou fecham caminhos. E, se foi construída, também pode ser reconstruída com mais justiça. É nesse horizonte que se inserem as políticas de cotas.

Para sustentar essa reflexão, recorro primeiro a Michael Young, que, em 1958, cunhou o termo meritocracia como uma sátira e, mais tarde, lamentou vê-lo transformado em elogio. Michael Sandel, por sua vez, adverte que a crença no mérito absoluto costuma produzir soberba entre os vencedores e humilhação entre os derrotados. Com Ann Swidler, compreendo a cultura como uma espécie de caixa de ferramentas, cujos recursos não são distribuídos igualmente entre as pessoas. Simone de Beauvoir também ajuda a perceber como a sociedade participa da construção dos lugares que cada indivíduo ocupa e das possibilidades que encontra pelo caminho. Reconheço, entretanto, o contraponto de Carol Dweck: a mentalidade e a disposição para aprender fazem diferença. Mas há um detalhe que não podemos ignorar: motor sem estrada não vai longe. Acreditar que se pode aprender Física ajuda, sim, desde que exista um professor de Física para ensinar.

No campo jurídico, a Lei de Cotas, aprovada em 2012, estabeleceu a reserva de, no mínimo, 50% das vagas nas instituições federais de ensino para estudantes que cursaram integralmente o ensino médio em escolas públicas. No mesmo ano, o Supremo Tribunal Federal reconheceu sua constitucionalidade por unanimidade. Inicialmente concebida como uma política sujeita à revisão após dez anos, a legislação foi atualizada em 2023, ampliando seu alcance para incluir também os quilombolas. E aqui é preciso olhar os resultados sem paixão partidária nem torcida organizada. Quero ser honesto com os números: na UFPE, os cotistas apresentaram resultados melhores nos indicadores de evasão, trancamento e atraso, enquanto os não cotistas se destacaram no coeficiente de rendimento e nos índices de reprovação. Na UFV, quase não houve diferença de desempenho, e a evasão entre os cotistas foi menor. Já na UFBA, os não cotistas ficaram cerca de 6,8% à frente. O quadro, portanto, é misto, e seria desonesto selecionar apenas os dados que confirmam nossas convicções. Mas há algo importante nessa discussão: os estudantes que ingressaram permaneceram, e, quando aparecem diferenças de desempenho, a resposta não deve ser fechar as portas, mas fortalecer as políticas de permanência, com bolsas, tutoria e moradia. Também considero as objeções. A isonomia material exige que se observe o ponto de partida de cada pessoa, embora alguns juristas apontem lacunas no acórdão do STF. A renda, sozinha, não explica todas as desigualdades, razão pela qual a legislação combina diferentes critérios. É verdade, ainda, que o problema de fundo está na precariedade da educação básica, mas uma geração inteira não pode ficar esperando que a reforma chegue. O próprio ministro Marco Aurélio ressalvou que o sistema deve terminar quando cumprir sua função. Ou seja, cotas não precisam ser eternas; precisam ser necessárias pelo tempo em que a desigualdade persistir.

Essa discussão também alcança a teologia, onde convém distinguir três palavras que frequentemente se misturam: destino, a ideia de que alguém decidiu lá em cima quem deve subir e quem ficará para trás; graça, o dom imerecido que, justamente por não depender do mérito, nos convida à partilha; e privilégio, a vantagem herdada que tantas vezes se disfarça de merecimento ou bênção divina. A teologia da prosperidade confunde essas três dimensões, atribuindo ao sucesso uma espécie de aprovação celestial e, por consequência, à pobreza uma culpa que nem sempre lhe pertence. A tradição bíblica, entretanto, aponta para outro caminho. Os profetas denunciam a exploração dos vulneráveis, o Jubileu de Levítico 25 questiona a concentração permanente da riqueza, e a destinação universal dos bens, reafirmada pela opção preferencial pelos pobres nas conferências de Medellín e Puebla, recorda que a dignidade humana não pode ficar subordinada aos privilégios de nascimento.

No fim das contas, Mateus não está pedindo esmola, nem uma vantagem indevida. Pede apenas que o relógio comece a contar no mesmo ponto para ele e para o outro rapaz. Se conseguir entrar na universidade, talvez seja o primeiro de sua família a ocupar uma sala universitária. E essa conquista não será apenas individual: poderá representar uma porta aberta para os que vierem depois dele, uma resposta para a família e uma prova, para a rua inteira, de que a conta não precisava fechar daquele jeito. A pergunta honesta nunca foi "quem mereceu mais?", mas "que escola havia, que professor, que rede, que herança, que sorte?". Afinal, não basta celebrar quem vence uma corrida; é preciso perguntar de onde cada corredor partiu, quais obstáculos encontrou e quem teve condições de lhe oferecer uma pista. Só é verdadeiramente justa a sociedade que tem coragem de fazer essas perguntas e, mais do que isso, disposição para agir sobre as respostas.