Ensaio Teológico X(11) O Coração Não Cabe na Boca: sobre os limites da palavra como retrato do caráter
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Todos nós já dissemos, no calor de uma discussão, algo que não éramos — ou fomos exatamente aquilo que dissemos e só descobrimos tarde demais. É nessa fresta entre o que se diz e o que se sente que me instalo para perguntar: será que a palavra revela o coração por inteiro ou apenas um recorte dele, às vezes disfarce, às vezes, confissão involuntária? Penso numa cozinha, onze da noite. Uma mulher exausta, depois de um dia daqueles, diz ao marido: "Faça o que quiser. Eu não me importo." À primeira vista, suas palavras expressam uma indiferença glacial; entretanto, quem conhece aquela mulher talvez escute nelas um pedido de socorro. A frase é a mesma, mas os sentidos são opostos. Quem julga apenas pelo som corre o risco de condenar sem compreender.
Reconheço, porém, que o próprio Cristo ensinou que a boca fala do que o coração está cheio (Lc 6:45; Mt 12:34). Seria desonesto, portanto, negar que nossas palavras frequentemente denunciam aquilo que carregamos por dentro. Ainda assim, a Escritura nos oferece um contraponto fundamental: o homem vê o exterior, mas o Senhor vê o coração (1Sm 16:7). Só Deus lê a alma sem intermediários; a nós cabe interpretar aquilo que escapa pelos lábios, sabendo que se trata de vestígios, não de veredictos. Basta lembrar os amigos de Jó: falaram com piedade aparentemente impecável, mas erraram profundamente em seus julgamentos. Pedro, por sua vez, negou o Mestre três vezes e, depois, chorou amargamente. Suas palavras diziam uma coisa; suas lágrimas, outra. A ciência moderna chega a conclusões semelhantes por caminhos diferentes. Com Goffman (1959), compreendo que ajustamos nossos papéis conforme o público, e quem conhece apenas a ribalta conhece a personagem, não necessariamente a pessoa. Com Pinker (2007), entendo que a fala indireta muitas vezes serve para administrar relações, e não simplesmente para expressar sentimentos. Tannen (1990), por sua vez, mostra que interromper alguém pode representar entusiasmo em determinada cultura e grosseria em outra. Já Damasio (1994) me recorda que somos organismos em movimento, atravessados por emoções e circunstâncias, não estátuas morais condenadas a permanecer iguais para sempre.
Isso, entretanto, não me autoriza a concluir que a palavra não importa. Afinal, se a fala nunca revela nada sobre o caráter, a calúnia seria inocente e a humilhação, mero acidente? Ora, não é por aí! É preciso distinguir a palavra como janela, nem sempre transparente, da palavra como ato, cujas consequências são bem reais. Austin (1962) ensinou que dizer também é fazer, enquanto o antigo provérbio bíblico já advertia que a morte e a vida estão no poder da língua (Pv 18:21). A palavra importa, sobretudo, pela responsabilidade que temos sobre aquilo que provocamos com ela, e não por funcionar como um diagnóstico infalível de quem somos. Posso, sim, ser cobrado pelo golpe que desferi com minhas palavras, sem que isso autorize alguém a decretar, de uma vez por todas, quem sou. Com Habermas (1984), prefiro trocar a pergunta "que tipo de pessoa fala assim?" por outra, muito mais produtiva: "que tipo de diálogo estamos construindo?" Desse modo, saímos do tribunal e nos sentamos à mesa, onde ainda é possível ouvir, ponderar e reconstruir pontes. Isso não significa adotar um relativismo preguiçoso, como se tudo pudesse ser desculpado em nome das circunstâncias. Afinal, uma crítica franca e até uma palavra profética podem nascer de um amor profundo, enquanto uma doçura excessiva, dessas que escorrem mel pelos lábios, pode muito bem esconder veneno.
Resta-me, então, a lição mais antiga, deixada pelo apóstolo Tiago: quem não tropeça no falar é homem perfeito (Tg 3:2). Como perfeitos não somos, convém ser lentos para sentenciar e rápidos para ouvir. Julgar o coração alheio a partir de uma frase solta é usurpar um ofício que não me foi confiado (Mt 7:1). Chomsky (2006) nos lembra da assombrosa criatividade da linguagem, e um ser capaz de tamanha infinitude não cabe nos limites de uma única frase. Cada fala é apenas um instante de um rio; ninguém conhece o rio inteiro contemplando a fotografia de uma onda. Que eu aprenda, portanto, a escutar com a paciência de quem reconhece que a pessoa diante de mim é sempre maior que suas palavras. E que também aprenda a falar com o temor de quem sabe que as próprias palavras, mesmo quando não revelam inteiramente quem sou, carregam minha responsabilidade e me comprometem. Afinal, entre aquilo que sentimos, aquilo que dizemos e aquilo que fazemos existe uma distância que exige menos julgamento e mais consciência.







