Ensaio Teológico IV(8) O Sucesso em Diversas Tonalidades
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma pergunta que a tradição religiosa raramente se atreve a fazer em voz alta: e se a sabedoria não tiver um único rosto?
Provérbios 4:7 é categórico: "a sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria". Durante séculos, porém, essa sentença foi lida quase como um mandamento fechado, como se todo caminho de honra, crescimento e promoção humana precisasse, necessariamente, passar pela porta estreita da contemplação filosófica ou espiritual. Mas, o mundo, teimoso como sempre, insiste em produzir pessoas e histórias que não cabem inteiras nessa moldura.
Talvez seja justamente aí que começa a nossa dificuldade: confundimos sabedoria com uma única maneira de pensar, agir ou vencer. Como se houvesse apenas um caminho legítimo para chegar ao sucesso. A vida, no entanto, parece gostar de contrariar nossas certezas.
Einstein já intuía algo parecido quando afirmou que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Não porque o conhecimento seja dispensável — longe disso —, mas porque, sozinho, ele nem sempre produz o salto, a ruptura, a pergunta nova que ninguém havia feito antes. O conhecimento oferece ferramentas; a imaginação, muitas vezes, pergunta o que pode ser construído com elas.
A sociedade contemporânea aprendeu, algumas vezes a duras penas, que resolver problemas reais exige mais do que acumular informações. É preciso imaginar possibilidades, correr riscos, suportar o erro e, sobretudo, ter coragem para enxergar aquilo que ainda não existe.
Veja-se o caso de Steve Jobs. Em 1985, ele foi demitido da própria empresa que havia ajudado a fundar. De repente, o homem que parecia destinado ao sucesso se viu do lado de fora daquilo que construíra. Poderia ter sido o fim de sua história. Não foi.
Aquele fracasso, paradoxalmente, abriu espaço para sua reinvenção. Nos anos seguintes, fundou a NeXT e envolveu-se com a Pixar, projetos que se transformaram em experiências decisivas para sua trajetória. Anos depois, retornaria à Apple não exatamente como o mesmo homem que havia saído, mas como alguém que aprendera, no exílio, lições que o sucesso precoce talvez jamais lhe tivesse ensinado.
E aqui está o ponto que me interessa: não foi necessariamente uma busca deliberada pela sabedoria filosófica que produziu sua transformação. Foi o fracasso convertido em aprendizado. A queda transformada em método. A derrota, em vez de ponto final, tornou-se matéria-prima para uma nova construção.
Elon Musk também enfrentou momentos em que o sucesso parecia uma miragem distante. Em 2008, Tesla e SpaceX atravessavam uma crise financeira gravíssima, enquanto seus projetos enfrentavam o risco real de fracasso. Não havia, naquele momento, garantia alguma de que suas apostas dariam certo. Havia incerteza, pressão e a possibilidade bastante concreta de perder aquilo que havia construído. Ainda assim, persistiu.
Não estou aqui para transformar Musk ou Jobs em modelos absolutos de virtude, muito menos para romantizar o risco, o fracasso ou o empreendedorismo. Não é essa a questão. O que me interessa nessas histórias é outra coisa: elas mostram que determinadas formas de inteligência, criatividade, persistência e capacidade de reinvenção também podem produzir resultados que, tradicionalmente, associamos à sabedoria.
E isso me leva a uma pergunta que considero ainda mais interessante: será que toda inovação, mesmo quando não nasce de uma intenção espiritual declarada, não pode ser também uma forma de sabedoria disfarçada?
Talvez seja. Talvez a sabedoria não esteja apenas naquele que sabe citar grandes filósofos, interpretar textos sagrados ou formular pensamentos profundos. Talvez ela também apareça naquele sujeito que olha para um problema aparentemente insolúvel e diz: “E se fizéssemos de outro jeito?” Há sabedoria na pergunta. Há sabedoria na capacidade de recomeçar. Há sabedoria em reconhecer o próprio erro. Há sabedoria, inclusive, em imaginar aquilo que os outros ainda não conseguem enxergar.
Paulo talvez já apontasse para essa diversidade quando escreveu, em 1 Coríntios 12:4, que há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. A frase, quando lida com atenção, não fecha uma hierarquia; abre um leque. Não transforma um dom em medida absoluta de todos os outros. Ao contrário, reconhece a diversidade e, ao mesmo tempo, aponta para aquilo que os une.
E aqui encontramos uma chave interessante para pensar o sucesso. Talvez não existam apenas pessoas sábias de um único tipo. Talvez existam diferentes manifestações daquilo que chamamos de sabedoria: a sabedoria de quem ensina, a de quem cria, a de quem cura, a de quem administra, a de quem pesquisa, a de quem empreende, a de quem lidera, a de quem serve. Há quem pense profundamente; há quem construa soluções. Há quem contemple o mundo; há quem o transforme pela ação.
Uma coisa não precisa anular a outra. O problema começa quando transformamos nossa própria forma de enxergar a sabedoria em régua para medir todas as outras pessoas. É aí que a religião pode cometer um erro semelhante ao que tantas instituições cometem: confundir tradição com exclusividade. Porque, quando acreditamos que Deus só pode falar pela linguagem que já conhecemos, corremos o risco de não reconhecer aquilo que Ele pode estar dizendo por meio de outras experiências, outros talentos e outras formas de inteligência.
Talvez a sabedoria também se esconda onde não costumamos procurá-la. Pode estar num laboratório, numa sala de aula, numa oficina, numa biblioteca, numa empresa, numa comunidade, numa garagem ou até mesmo no fracasso de alguém que decidiu tentar novamente. Pode estar naquele professor que encontra uma maneira diferente de alcançar um aluno que todos já consideravam perdido. Pode estar no pesquisador que passa anos tentando resolver um problema. Pode estar no artista que enxerga beleza onde os outros só veem banalidade. Pode estar no empreendedor que imagina uma solução para uma necessidade que ninguém havia percebido. Pode estar, simplesmente, naquele ser humano que aprende com a própria queda e não permite que ela seja a última palavra sobre sua história.
Por isso, ampliar a definição de sucesso não significa abandonar a sabedoria. Muito menos diminuir a importância da reflexão espiritual ou filosófica. Significa apenas reconhecer que a inteligência humana possui muitas linguagens e que o talento pode florescer em terrenos bastante diferentes.
No fim das contas, talvez o sucesso tenha mesmo diversas tonalidades. Há o sucesso que se mede em dinheiro, claro. Há também aquele que se mede em conhecimento, em influência, em serviço, em criatividade, em superação. E existe ainda o sucesso silencioso, quase invisível, daquele que simplesmente consegue tornar-se melhor do que era ontem. Talvez seja esse o sucesso que mais me interessa.
Porque, se há diversidade de dons, também deve haver diversidade de caminhos. E se a sabedoria é realmente aquilo que Provérbios nos convida a buscar, talvez devamos ter humildade suficiente para reconhecê-la quando ela aparecer diante de nós — mesmo que venha vestida de inovação, criatividade, persistência ou coragem. A sabedoria, afinal, pode ter muitos rostos. E talvez o nosso maior erro não seja não encontrá-la, mas procurá-la sempre no mesmo lugar.


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