Ensaio Teológico IV(4) A Evolução da Sabedoria em um Mundo Moderno
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma cena que se repete, com pequenas variações, em milhões de lares: um pai fala, um filho ouve — ou finge que ouve, com os olhos grudados na tela, enquanto outra voz, vinda de longe, já lhe sussurra uma verdade diferente. É uma cena aparentemente banal, dessas que acontecem todos os dias sem que ninguém lhes dê muita importância. Mas, é justamente aí que está a questão. Essa cena é o ponto de partida deste ensaio e, de certo modo, também sua ferida aberta. É nela que a sabedoria, tal como a entendemos durante séculos, começa a rachar.
Durante muito tempo, o ideário religioso confiou à transmissão entre gerações a tarefa de guardar e perpetuar a verdade. Os pais ensinavam, os filhos aprendiam, e a corrente seguia seu curso, passando de uma geração à outra. Era como uma tocha acesa que uma mão entregava à seguinte, sem que a chama se apagasse. Mas, será que essa corrente ainda resiste ao mundo que a cerca? Eis a pergunta que se impõe. Michel Foucault nos ajuda a perceber que não somos apenas aquilo que somos, mas também aquilo em que nos tornamos na relação com o outro. E é justamente esse contato, hoje ampliado quase ao infinito pelas novas formas de comunicação, que coloca em xeque o antigo modelo linear de transmissão do conhecimento.
Isso, porém, não significa negar a Escritura. Longe disso. Significa lê-la com mais honestidade e, quem sabe, com menos medo de fazer perguntas. Provérbios 18:15 ensina que o coração entendido busca conhecimento e que os ouvidos do sábio vão à sua procura. Há aí um detalhe que não deveria passar despercebido: o verbo "procurar". Procurar pressupõe movimento. Quem procura não fica parado, não se limita ao que já conhece, não permanece eternamente dentro dos mesmos muros. Sai, pergunta, escuta, compara, confronta e aprende. O texto bíblico, lido com atenção, nunca prometeu que a sabedoria ficaria confinada a uma única fonte; antes, ensinou que o sábio deveria buscá-la. Se, em outros tempos, essa busca se realizava principalmente dentro dos limites da família, da comunidade e da congregação, hoje ela transborda para as escolas, os livros, as redes sociais, as universidades, as rodas de conversa e tantos outros espaços de convivência. Não necessariamente por corrupção do desígnio divino, mas pela expansão de um princípio que a própria Escritura já continha.
É nesse ponto que a crítica precisa ganhar rosto, sair da abstração e entrar na vida cotidiana. Não basta dizer que "as igrejas evangélicas ensinam de forma unidirecional". É preciso olhar para o jovem que, no culto de domingo, aprende a repetir respostas prontas e que, na segunda-feira, fica sem palavras quando um colega lhe pergunta por que acredita naquilo que acredita. É preciso olhar também para o pastor que teme as perguntas, como se perguntar fosse o primeiro degrau rumo à apostasia. Ora, desde Sócrates sabemos, ou deveríamos saber, que reconhecer os limites do próprio conhecimento pode ser o começo da verdadeira sabedoria. A pergunta não é necessariamente inimiga da fé; muitas vezes, é justamente ela que impede que a fé se transforme em mera repetição.
O mesmo vale para os pais. Muitos, de boa-fé e movidos pelo desejo sincero de proteger os filhos, acabam confundindo obediência com formação. Querem transmitir valores, o que é legítimo e necessário, mas, às vezes, entregam respostas antes mesmo de permitir que os filhos formulem suas próprias perguntas. E aqui Provérbios 1:5 oferece uma provocação importante: o sábio que ouve aumenta o saber, e o entendido que escuta adquire conselho. Há, portanto, uma pedagogia da escuta presente no próprio texto bíblico. Sabedoria não é simplesmente receber informações; é saber ouvi-las, ponderá-las, confrontá-las e, sobretudo, transformá-las em experiência. É um processo vivo, não uma espécie de depósito onde alguém despeja verdades prontas.
Talvez, então, o problema nunca tenha sido propriamente dos pais, da igreja ou da tradição. Talvez o problema esteja na maneira como aprendemos a temer o diálogo, como se conversar com o diferente fosse uma ameaça àquilo em que acreditamos. E não é. Uma fé que não suporta perguntas talvez precise menos de respostas prontas e mais de amadurecimento. Afinal, uma convicção que só permanece de pé porque ninguém ousa questioná-la parece mais uma parede escorada do que uma casa verdadeiramente construída.
O mundo contemporâneo, conectado por telas, redes e informações que atravessam fronteiras em questão de segundos, não exige necessariamente menos fé. Exige, isto sim, uma fé mais desperta, mais consciente e mais preparada para dialogar sem se dissolver. Como lembra Provérbios 15:14, o coração entendido busca sabedoria. E buscar, nos dias de hoje, significa também aprender a ouvir vozes que não nasceram dentro de casa, que não pertencem à nossa igreja, à nossa tradição ou ao nosso círculo de amizades. Isso não significa abandonar nossas raízes. Pelo contrário: talvez seja justamente uma maneira de aprofundá-las. Uma árvore não demonstra a força de suas raízes recusando o vento; demonstra-a permanecendo de pé quando o vento sopra.
Repensar a transmissão vertical da sabedoria, portanto, não significa abandoná-la, muito menos desprezar a experiência dos que vieram antes de nós. Significa reconhecer que a sabedoria não é uma peça de museu, cuidadosamente protegida para que ninguém a toque. Ela é movimento, encontro, busca e descoberta. Precisa ser recebida, sim, mas também examinada; transmitida, mas igualmente interrogada; herdada, mas sobretudo vivida.
Talvez seja esse o grande desafio de nosso tempo: ensinar sem aprisionar, orientar sem controlar, transmitir valores sem transformar a consciência do outro em propriedade particular. Afinal, sabedoria que não admite perguntas corre o risco de se transformar em dogma; fé que não suporta diálogo pode acabar reduzida a hábito; e tradição que não conversa com o presente corre o perigo de tornar-se apenas memória.
Repensar a transmissão vertical da sabedoria é, no fundo, devolvê-la ao movimento que sempre deveria ter sido seu destino: ser buscada, questionada, confrontada e, finalmente, vivida. Porque a verdadeira sabedoria não teme quem pergunta. Pelo contrário, talvez seja justamente na pergunta que ela comece a nascer.


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