Ensaio Teológico III(27) O Bom Samaritano na Era da Globalização: Repensando a Misericórdia e a Caridade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma cena que, volta e meia, insiste em visitar minha memória: um homem caído à beira de uma estrada empoeirada, abandonado por aqueles que tinham pressa, posição e até religião, mas socorrido justamente por quem, aos olhos da sociedade, era o menos esperado. É uma narrativa contada há quase dois mil anos, mas que continua a nos inquietar como poucas. Afinal, quem é, de fato, o meu próximo?
As tradições religiosas, de modo geral, ensinam que toda dívida — financeira, moral ou espiritual — deve ser honrada sem demora. A própria Bíblia parece, num primeiro olhar, estabelecer uma ordem de prioridades ao recomendar que cuidemos de todos, "especialmente aos da família da fé" (Gálatas 6:10). Mas será que essa orientação ergue muros ou apenas organiza responsabilidades? Em outras palavras, esse círculo foi desenhado para limitar nossa compaixão ou para servir como ponto de partida de algo muito maior?
Séculos mais tarde, Immanuel Kant ampliaria essa reflexão ao formular o imperativo categórico: tratar a humanidade — em nós e nos outros — sempre como um fim, jamais como um meio. Quando levamos essa ideia às últimas consequências, as fronteiras entre "os nossos" e "os outros" começam a perder sentido. É exatamente isso que a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) revela. O Samaritano não perguntou quem era o homem ferido, de onde vinha, em que acreditava ou se um dia poderia retribuir o favor. Simplesmente interrompeu seu caminho, aproximou-se e fez o que precisava ser feito. Às vezes, a verdadeira misericórdia começa justamente onde terminam as justificativas.
Essa mesma pergunta atravessa os séculos e desembarca, sem pedir licença, no mundo contemporâneo. E se fôssemos nós diante de um desconhecido? Não mais à margem de uma estrada, mas diante da tela de um computador ou de um celular, acompanhando notícias sobre enchentes, terremotos, epidemias ou guerras em lugares que talvez jamais visitemos. Quantas vezes olhamos, lamentamos por alguns segundos e seguimos adiante? Nessas horas, vale perguntar: seríamos o sacerdote que continua sua caminhada ou o Samaritano que decide parar?
A interpretação restritiva da caridade — aquela que reconhece dever apenas para com os mais próximos — acaba empobrecendo a empatia justamente na época em que ela se torna mais necessária. Nunca estivemos tão conectados. Cabos submarinos, satélites, aviões e redes digitais encurtaram distâncias que antes pareciam intransponíveis. Paradoxalmente, porém, ainda resistimos a assumir qualquer responsabilidade por quem sofre do outro lado do planeta. Martin Luther King Jr. sintetizou essa realidade de maneira admirável ao afirmar: "a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar". No mundo globalizado, já não existe um "longe demais" capaz de absolver nossa consciência.
É claro que ninguém consegue resolver todas as tragédias do mundo. Entretanto, a disposição de ajudar não deveria depender de cálculos sobre nacionalidade, afinidade, proximidade ou conveniência. A verdadeira solidariedade nasce quando deixamos de medir quem merece nosso cuidado e simplesmente reconhecemos a humanidade compartilhada que nos une. É um gesto gratuito, quase sempre desconfortável, mas profundamente transformador — tanto para quem estende a mão quanto para quem a recebe.
Talvez, então, a pergunta mais importante da parábola nunca tenha sido "quem é meu próximo?", mas outra, bem mais exigente: "estou disposto a me tornar próximo de alguém?". A diferença é sutil apenas na aparência. A primeira busca identificar quem merece nossa atenção; a segunda exige uma decisão pessoal, um compromisso concreto, uma mudança de postura.
Que possamos aprender com aquele Samaritano anônimo, cuja compaixão atravessou os séculos e continua desafiando consciências. Em tempos de fronteiras cada vez mais tênues e de um mundo interligado como nunca antes, a misericórdia não pode conhecer passaporte, idioma ou distância. Afinal, sempre haverá alguém caído à beira do caminho — ainda que, hoje, esse caminho comece na tela diante dos nossos olhos.

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