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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Ensaio Teológico IV(5) Reinterpretando a Sabedoria: uma perspectiva inclusiva e contemporânea

 






Ensaio Teológico IV(5) Reinterpretando a Sabedoria: uma perspectiva inclusiva e contemporânea

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há uma mulher que conheço — chamemo-la assim, sem nome, porque ela é muitas — que cresceu ouvindo que toda resposta já estava escrita, que bastava abrir o livro certo na página certa. Anos depois, sentada numa sala de aula de Biologia, ouviu falar de evolução celular pela primeira vez. Sentiu, ao mesmo tempo, fascínio e culpa — como se aprender fosse, de algum modo, uma pequena traição. Essa cena, tão comum quanto silenciada, está no coração deste ensaio: a dor de descobrir que a sabedoria pode ter mais de uma porta de entrada.

Confúcio ensinou que a verdadeira sabedoria começa no reconhecimento da própria ignorância. É uma sentença modesta, quase incômoda, porque nos coloca diante do oposto daquilo que a religião, muitas vezes, parece prometer: a certeza. E, no entanto, o próprio Eclesiastes já sussurrava essa inquietação muito antes do filósofo chinês: "na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta o conhecimento aumenta a dor". Não se trata de uma advertência contra o saber, mas do reconhecimento honesto de seu peso. Afinal, saber dói porque nos obriga a rever aquilo que julgávamos resolvido, seguro, definitivo. Essa dor, longe de ser motivo para fechar a porta, pode ser justamente o sinal de que estamos, enfim, atravessando-a.

É preciso, porém, cuidado ao pisar em terreno mais delicado. João 16:13 promete que o Espírito da verdade guiará "a toda a verdade" — uma promessa pneumatológica, isto é, relacionada à ação do Espírito Santo na vida do crente, e não uma descrição sociológica de como o conhecimento se produz ou circula no mundo. Não se trata, portanto, de substituir o Espírito por educadores, cientistas e pesquisadores, como se um anulasse o outro. Trata-se de perceber algo mais sutil: a própria tradição cristã sempre admitiu a ideia de revelação geral — o entendimento que Deus permite ao ser humano alcançar por meio da razão, da natureza e do estudo — ao lado da revelação especial das Escrituras. Nessa perspectiva, ciência e filosofia não precisam ser vistas como inimigas da fé. Para quem crê, podem constituir, inclusive, alguns dos muitos caminhos pelos quais o ser humano é levado a perguntar, investigar e compreender.

Foi assim que Newton, devoto e cientista, pôde reconhecer a grandeza do conhecimento acumulado antes dele. Ao dizer que via mais longe por estar de pé sobre ombros de gigantes, expressava uma humildade diante do saber humano construído ao longo dos séculos. Não era ausência de fé; era, antes, a consciência de que ninguém pensa sozinho e de que toda descoberta nasce, de algum modo, do que outros já descobriram. A sabedoria, nesse sentido, não é uma ilha. É uma construção coletiva, erguida tijolo por tijolo, geração após geração.

Da mesma forma, Romanos 14:1 não deve ser transformado, apressadamente, em um manifesto de tolerância doutrinária ampla. Paulo fala, especificamente, do acolhimento ao irmão fraco na fé, evitando disputas acerca de questões secundárias de consciência — comida, dias e costumes. Ainda assim, há nessa orientação pontual uma semente de alcance maior: a possibilidade de uma comunidade cristã conviver com a divergência sem, por causa dela, se desfazer. Kant, ao definir o esclarecimento como a saída da menoridade da qual o próprio homem é culpado, está tratando de outra questão — a coragem de pensar por si mesmo. Mas, as duas vozes, a paulina e a kantiana, acabam se encontrando num ponto importante: nenhuma delas faz da submissão cega um ideal. Ambas, cada uma a seu modo, colocam o ser humano diante da responsabilidade de pensar, discernir e responder por aquilo que assume como verdadeiro.

E talvez seja justamente aí que a mulher da sala de aula possa respirar um pouco mais aliviada. Ela não precisa, necessariamente, escolher entre o livro sagrado e o livro didático, entre a fé que recebeu e a pergunta que acabou de nascer. Talvez possa aprender sem sentir que está traindo aquilo em que acredita. Talvez possa descobrir que a dúvida não é sempre uma inimiga da fé; às vezes, é a porta pela qual uma fé infantil começa a amadurecer.

Talvez — como sugere Provérbios 15:22, ao lembrar que os planos se confirmam com muitos conselheiros — a sabedoria sempre tenha sido isso: uma mesa com várias cadeiras, e não um trono vazio esperando um único ocupante. Uma mesa em que cabem a Escritura, a ciência, a filosofia, a experiência e, sobretudo, a humildade de reconhecer que ninguém possui sozinho todas as respostas. Afinal, se a verdade é grande demais para caber em nossas mãos, talvez a sabedoria comece justamente quando deixamos de apertá-la com força e aprendemos a contemplá-la de diferentes ângulos.

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