Ensaio Teológico IV(25) A importância da visão periférica na compreensão holística e equilibrada
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há um verso em Provérbios 4:25 que atravessa gerações de leitores como uma ordem seca, quase incontornável: "Que os teus olhos olhem direto para a frente e as tuas pálpebras vejam o que está diante de ti". Durante séculos, a tradição interpretativa leu essas palavras como um chamado à exclusividade: manter os olhos fixos em Deus, não se desviar, não permitir que nada ao redor roube a atenção do alvo sagrado. É uma leitura forte, quase militar em sua precisão: manter o rumo, não vacilar, não se distrair. E, convenhamos, há momentos em que a vida espiritual exige exatamente isso. Quem não sabe para onde vai acaba, muitas vezes, seguindo qualquer caminho.
Mas, há uma pergunta que não quer calar: já parou diante de uma encruzilhada e percebeu que o caminho certo só se revelou porque você olhou, por um instante, para o lado? É justamente nesse instante que quero fincar os pés e desenvolver este ensaio.
O filósofo francês Henri Bergson, em Matéria e Memória, sustentava uma ideia que, ainda hoje, provoca reflexão: a percepção não é neutra nem se resume a um simples registro passivo do mundo. Ela está ligada à ação e é moldada pelo corpo que, de alguma maneira, se prepara para responder ao que vê. Para Bergson, perceber é, em certa medida, começar a agir. Um olhar excessivamente estreito, portanto, não apenas empobrece a experiência; ele pode comprometer nossa própria capacidade de responder ao real. Afinal, quem olha somente para um ponto corre o risco de não perceber aquilo que acontece ao redor.
Décadas mais tarde, o neurocientista António Damásio daria a essa compreensão um fundamento biológico. Em O Erro de Descartes, ele mostra que emoção, corpo e razão não funcionam como compartimentos isolados, mas como dimensões profundamente interligadas. Não somos uma mente que observa um corpo de fora. Sentimos, percebemos e interpretamos o mundo com o corpo inteiro. A razão não caminha sozinha; leva consigo a memória, as emoções, as experiências e até as marcas que a vida deixou pelo caminho. Ora, se isso é válido para a percepção humana em geral, por que não haveria de ser também para a percepção espiritual?
Pense, por exemplo, numa mãe que ora todas as noites pelo mesmo pedido. Durante meses, talvez anos, ela mantém os olhos fixos numa única direção, esperando uma resposta de Deus exatamente como a imaginou. Até que, um dia, cansada de fitar sempre o mesmo ponto, percebe o vizinho batendo à porta, encontra uma carta que havia esquecido sobre a mesa ou nota o gesto inesperado de um desconhecido. De repente, aquilo que parecia apenas circunstância ganha outro sentido. A visão periférica não a afastou de Deus; ao contrário, foi justamente por meio dela que ela percebeu uma possível resposta divina. É aqui que a metáfora ganha força.
Relidos sob essa perspectiva, "olhos" e "pálpebras" deixam de representar necessariamente uma ordem de estreitamento da percepção e podem ser compreendidos como símbolos de uma presença inteira: corpo, mente e espírito atentos ao que acontece ao redor. Não se trata de abandonar o foco, mas de ampliar a percepção. Não é trocar a direção pela dispersão; é compreender que, às vezes, para seguir em frente, precisamos enxergar também aquilo que acontece ao lado.
E isso nos leva a uma questão ainda mais profunda. Quando Jesus, em Mateus 6:33, ensina a buscar primeiro o Reino de Deus, talvez não esteja propondo uma fuga da realidade nem uma espécie de cegueira voluntária diante do mundo. Buscar primeiro o Reino pode significar estabelecer uma prioridade dentro da própria complexidade da existência. O Reino não precisa ser buscado apesar do mundo, como se fosse necessário fechar os olhos para tudo o que nos cerca; talvez seja possível buscá-lo através do mundo, discernindo, em meio às circunstâncias, os sinais, as pessoas, as oportunidades e até os imprevistos que podem apontar para uma direção que ainda não havíamos percebido.
A fé, nesse sentido, não deveria produzir cegueira, mas discernimento. Não deveria nos transformar em pessoas incapazes de olhar para os lados, mas em homens e mulheres capazes de contemplar o todo sem perder o centro. Porque há uma diferença enorme entre desviar-se do caminho e olhar ao redor para compreender melhor o caminho. O primeiro pode ser distração; o segundo pode ser sabedoria.
Talvez seja justamente aí que esteja a maturidade espiritual: não em viver com os olhos rigidamente presos a um único ponto, como quem teme que qualquer movimento lateral seja uma traição à fé, mas em desenvolver uma visão suficientemente ampla para perceber o que acontece ao redor sem perder a direção. Afinal, quem tem apenas visão frontal enxerga o caminho, mas pode não perceber o perigo que se aproxima pelo lado. Já quem desenvolve uma visão periférica consegue caminhar para a frente sem deixar de perceber o mundo que o cerca.
No fim das contas, talvez a fé mais madura não seja aquela que fecha os olhos ao redor, mas a que os mantém abertos. Uma fé que olha para a frente, sim, mas não despreza o que acontece nas margens; que mantém o rumo, mas não se torna prisioneira de uma visão estreita; que sabe para onde caminha, mas permanece sensível aos encontros, aos sinais e às surpresas que aparecem pelo caminho.
Porque, às vezes, Deus não está apenas naquilo que vemos quando olhamos para a frente. Às vezes, Ele também se revela justamente naquilo que só conseguimos perceber quando ousamos olhar para o lado.


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