Ensaio Teológico IV(28) Bênção e Dúvida: um Ensaio sobre o Gesto de Francisco
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há decisões que não mudam imediatamente uma lei, nem reescrevem uma doutrina, mas mudam o ar de uma sala. Foi, em grande medida, isso que aconteceu durante o pontificado do Papa Francisco quando a Igreja Católica passou a admitir, sob determinadas condições, a possibilidade de bênçãos a casais em situações consideradas irregulares, incluindo casais do mesmo sexo. Nenhum dogma foi simplesmente revogado, nem a doutrina católica sobre o matrimônio foi oficialmente substituída. E, ainda assim, algo se moveu — quase imperceptivelmente, como uma porta que não se escancara de repente, mas que deixa de parecer completamente trancada. O gesto tinha limites claros, mas também carregava uma mensagem pastoral que não podia ser ignorada. Paulo Freire descrevia esse tipo de transformação com precisão: a mudança "não é um mar a ser atravessado, é um caminho a ser percorrido". Não há, portanto, uma travessia heroica e instantânea; há caminhada — lenta, sinuosa, por vezes contraditória, mas ainda assim caminhada.
É tentador olhar para esse gesto como se fosse uma vitória definitiva, como se, de uma hora para outra, todas as portas da Igreja tivessem se aberto. Mas a honestidade exige cautela. A decisão não foi recebida com unanimidade dentro do próprio catolicismo. Houve resistência significativa, sobretudo entre bispos e conferências episcopais de alguns países africanos e de outras regiões, que entenderam que a aplicação das bênçãos não seria adequada em seus contextos culturais e pastorais. Essa discordância não é simples ruído a ser eliminado da narrativa; ela faz parte do próprio fenômeno. Afinal, estamos diante de uma instituição que carrega séculos de tradição e, ao mesmo tempo, precisa responder às questões concretas do mundo contemporâneo. Quem assume uma postura mais cautelosa nem sempre o faz por preconceito ou ódio. Em muitos casos, existe o receio sincero de que uma mudança na linguagem pastoral possa ser interpretada como uma mudança na própria doutrina, algo que exigiria uma reflexão muito mais ampla. Esse temor merece ser compreendido, assim como merece ser ouvido o sofrimento daqueles que, durante décadas, sentiram-se excluídos ou julgados dentro da própria comunidade religiosa. Uma coisa não precisa apagar a outra.
É justamente nesse ponto que o gesto de Francisco ganha um peso teológico que merece ser encarado sem simplificações. Há nele um eco de Mateus 7:1 — "Não julgueis, para que não sejais julgados" — não como um slogan religioso para encerrar qualquer discussão, mas como uma advertência incômoda sobre os limites do julgamento humano. Afinal, toda vez que julgamos o outro, também revelamos algo de nós mesmos, de nossos medos, de nossas certezas e até das fronteiras que construímos para proteger nossa própria identidade. O versículo não elimina o discernimento moral, mas lembra que existe uma diferença enorme entre discernir e condenar, entre avaliar uma conduta e transformar uma pessoa inteira em sentença.
Essa reflexão pode dialogar, ainda, com Immanuel Kant, para quem o ser humano deve ser tratado como fim em si mesmo, jamais apenas como meio. É verdade que Kant não estava discutindo diretamente questões de orientação sexual ou pastoral religiosa; seria anacrônico colocá-lo nessa conversa como se tivesse antecipado os debates atuais. Mas seu princípio ético permite uma aproximação fecunda: nenhuma pessoa deveria ser reduzida primeiro a uma categoria moral, social ou sexual para só depois ser reconhecida em sua humanidade. Na linguagem da fé, poderíamos dizer de outra maneira: antes de qualquer rótulo, existe uma pessoa; antes de qualquer classificação, existe uma vida; antes de qualquer julgamento, existe alguém que, para o cristianismo, carrega a dignidade de criatura e filho ou filha de Deus.
Quando se chega a Lucas 15:7 — "haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende" —, porém, é preciso andar devagar. O texto não pode ser transformado num atalho para afirmar aquilo que ele, por si só, não está discutindo. Aplicá-lo diretamente à homossexualidade como se o versículo tivesse sido escrito especificamente para essa questão seria forçar a passagem para dentro de um debate contemporâneo que não era o seu contexto original. O centro da parábola é outro: a alegria pela recuperação daquele que estava perdido. E talvez seja justamente aí que a reflexão se torne mais interessante. Se há alguma aplicação possível ao momento vivido pela Igreja, ela não precisa estar apenas na transformação individual de quem se arrepende; pode estar também na capacidade da própria comunidade de fé de examinar seus comportamentos, reconhecer suas durezas e perguntar se, em algum momento, confundiu fidelidade com exclusão.
Porque, convenhamos, uma Igreja também pode precisar de conversão. Instituições são feitas de pessoas e, portanto, carregam virtudes e defeitos, acolhimentos e contradições. Às vezes, a comunidade que proclama misericórdia precisa aprender novamente a praticá-la. Às vezes, quem fala em nome de Deus precisa ter a humildade de reconhecer que não possui o monopólio da compreensão de Deus. Isso não significa abandonar convicções, dissolver princípios ou transformar toda diferença em verdade. Significa apenas reconhecer que a verdade, quando é realmente buscada, não precisa ter medo da escuta.
É nesse horizonte que ganha ainda mais força uma frase que se tornou símbolo do pontificado de Francisco: "Quem sou eu para julgar?", perguntou o Papa em 2013, ao ser questionado sobre sacerdotes homossexuais. A frase não resolveu a complexa questão moral e doutrinária, tampouco pretendia fazê-lo. Seu valor está justamente em não encerrar o assunto. É uma pergunta que suspende o veredito e abre espaço para a reflexão. E talvez seja aí que resida sua força.
Sócrates, na tradição filosófica, ficou associado à consciência da própria ignorância: saber que não sabe. Há algo dessa humildade na pergunta de Francisco. Não porque toda dúvida seja necessariamente virtude, nem porque toda certeza seja necessariamente arrogância, mas porque existem situações diante das quais o ser humano precisa reconhecer os próprios limites. A vida do outro não é um livro aberto à nossa disposição. Sua história, suas dores, seus conflitos e suas escolhas não nos pertencem completamente. Julgar é fácil; compreender dá trabalho. Condenar é rápido; escutar exige tempo.
Talvez, então, o gesto de Francisco não deva ser lido apenas como uma mudança administrativa ou disciplinar, mas como um convite à escuta. Uma escuta que não elimina a doutrina, mas impede que a doutrina seja usada como arma. Uma escuta que não exige que todos pensem da mesma maneira, mas lembra que ninguém deveria ser reduzido ao pensamento que os outros fazem sobre ele.
No fim das contas, a pergunta permanece mais poderosa do que a resposta: "Quem sou eu para julgar?" Talvez ela não seja a conclusão de um debate, mas o começo de uma atitude. E, diante do mistério da consciência humana, isso já é muito. Afinal, não é fraqueza admitir que há coisas que ainda não compreendemos. Pode ser justamente aí, no intervalo entre a certeza e a dúvida, entre a doutrina e a experiência, entre o julgamento e a escuta, que a fé reencontre uma de suas palavras mais antigas e mais difíceis de praticar: misericórdia.
https://edition.cnn.com/2023/12/19/europe/popes-aproval-of-same-sex-blessings-intl/index.html
https://digital.dm.com.br/#!/view?e=20231219&p=2


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