Ensaio Teológico IV(19) Racionalidade e Progresso: Uma Revisão Crítica da Decadência Moral Percebida
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma cena que se repete, com pequenas variações, em praticamente toda geração: alguém, de olhos fixos no horizonte, anuncia que o mundo está pior do que nunca. Talvez você já tenha ouvido essa voz — ou, quem sabe, ela mesma já tenha ecoado dentro de você, especialmente naqueles dias em que o excesso de notícias, violências e tragédias parece nos esmagar. E não há nada de estranho nisso. Não é fraqueza sentir que o mundo está desmoronando. É, antes, uma reação profundamente humana diante do caos. Quando o presente dói, tendemos a imaginar que alguma coisa preciosa ficou para trás, como se o passado tivesse guardado uma ordem moral que o presente, desatento e apressado, resolveu abandonar.
Os que defendem essa percepção — e prefiro chamá-los de guardiões da memória moral, em vez de simplesmente fanáticos — nem sempre o fazem por ignorância ou má-fé. Há, em muitos deles, uma preocupação legítima com aquilo que consideram sagrado, valioso e digno de ser preservado. Apoiam-se em passagens bíblicas e nas advertências de homens e mulheres que, ao longo dos séculos, chamaram a atenção para os perigos do esquecimento moral. E sua angústia, convenhamos, não é inventada. Ela encontra respaldo em fatos concretos: guerras, violência, desigualdade, corrupção, exploração e tantas outras formas de crueldade que parecem mudar de roupa, mas insistem em reaparecer na história. Seria, portanto, intelectualmente desonesto reduzir essa inquietação a simples delírio religioso ou pessimismo sem fundamento.
Mas, há outra história possível — e aqui começa o problema mais interessante. Não se trata de negar a primeira, mas de colocá-la diante de seu contraponto. Afinal, a humanidade pode estar moralmente inquieta e, ao mesmo tempo, objetivamente melhor em diversos aspectos. É justamente nesse ponto que a razão entra em cena. Immanuel Kant, ao falar sobre o esclarecimento, convocava o ser humano a sair da menoridade da qual ele próprio era culpado. Não se tratava de uma condição determinada por Deus, pelo destino ou por alguma força sobrenatural, mas de uma espécie de acomodação intelectual: a recusa de pensar por conta própria. Sair dessa condição exige coragem. E pensar, às vezes, exige mais coragem do que simplesmente acreditar.
Isso, porém, não significa transformar a razão em uma espécie de novo deus, como se a fé tivesse de ser jogada pela janela sempre que o pensamento crítico entra pela porta. Longe disso. O esclarecimento pode ser compreendido como amadurecimento da razão, e uma razão amadurecida não precisa necessariamente declarar guerra à fé. Pelo contrário, pode ajudá-la a livrar-se do medo, da superstição e das certezas fabricadas pela preguiça intelectual. A fé que suporta perguntas talvez seja mais sólida do que aquela que precisa fugir delas.
Carl Sagan, décadas depois, insistiria em outra dimensão dessa aventura humana: a ciência não é simplesmente um depósito de respostas prontas, mas, sobretudo, uma maneira disciplinada de pensar, investigar, duvidar e corrigir os próprios erros. E é justamente quando abandonamos as impressões imediatas e olhamos para os dados que a narrativa da decadência absoluta começa a perder força. Autores como Steven Pinker e Hans Rosling, apoiados em extensas séries históricas e em dados de organismos como a ONU e o Banco Mundial, chamaram a atenção para um fato que pode parecer desconcertante à primeira vista: em indicadores objetivos — como mortalidade infantil, expectativa de vida, escolarização e pobreza extrema — a humanidade alcançou níveis de progresso que seriam inimagináveis para grande parte de nossos antepassados.
Isso não significa, evidentemente, que o mundo esteja bem. Seria uma conclusão tão ingênua quanto perigosa. Ainda convivemos com guerras, fome, desigualdade, violência, intolerância e inúmeras formas de sofrimento. O progresso material e social não aboliu a condição humana, nem transformou o planeta num paraíso. O que esses dados fazem é algo mais modesto, porém importante: impedem-nos de romantizar o passado. Afinal, para a maioria das pessoas, os chamados "bons velhos tempos" foram marcados por doenças sem tratamento, elevada mortalidade infantil, pobreza extrema, ausência de direitos básicos e uma vida muito mais curta e vulnerável. A memória, quando filtrada pela nostalgia, costuma apagar aquilo que preferimos não lembrar.
Talvez, então, a verdadeira pergunta não seja simplesmente "a humanidade decai ou progride?", mas algo bem mais incômodo: somos capazes de sustentar duas verdades ao mesmo tempo — a dor real e o avanço real — sem nos agarrarmos à narrativa que mais conforta nossas convicções? Talvez esse seja o verdadeiro teste da maturidade intelectual. Reconhecer o progresso sem fechar os olhos para a barbárie; denunciar a barbárie sem fingir que nada melhorou. Afinal, uma coisa não precisa destruir a outra.
É nesse ponto que a reflexão teológica pode reencontrar a racionalidade sem sentir-se ameaçada por ela. A fé não precisa transformar toda mudança em decadência, assim como a razão não precisa considerar toda tradição um obstáculo ao progresso. Há uma espécie de arrogância tanto na fé que se recusa a pensar quanto na razão que se julga capaz de explicar tudo. Ambas, quando absolutizadas, correm o risco de se tornar cegas justamente diante daquilo que pretendiam iluminar.
Paulo, escrevendo aos Gálatas, oferece uma imagem poderosa para essa travessia ao afirmar que não há judeu nem grego, escravo nem livre, mas que todos são um. A afirmação ultrapassa as fronteiras religiosas de seu tempo e aponta para uma humanidade que não deveria ser reduzida às suas diferenças sociais, culturais ou históricas. Talvez esteja aí o convite que permanece de pé: não escolher entre a vitória da razão sobre a fé ou da fé sobre a razão, como se estivéssemos diante de uma guerra em que apenas um lado pudesse sobreviver. O desafio é mais difícil — e, justamente por isso, mais humano.
Talvez seja preciso aprender a pensar na fresta, naquele espaço estreito em que a razão pergunta e a fé responde, mas também onde a fé pergunta e a razão precisa reconhecer seus próprios limites. É nessa fronteira, e não na trincheira, que ambas podem se encontrar. Afinal, se o progresso nos tornou capazes de viver mais e melhor, resta-nos ainda aprender a viver com mais sentido. E talvez seja justamente aí que a racionalidade e a fé, em vez de inimigas, possam tornar-se companheiras de uma mesma busca: compreender o mundo sem perder a capacidade de transformá-lo e, sobretudo, de humanizá-lo.


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