ENSAIO TEOLÓGICO IV(22) A Ordem Sem Transcendência — Uma Progressão Histórica da Moral Secular
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Confesso que, ao escrever estas linhas, carrego comigo uma pergunta incômoda — daquelas que não se deixam encerrar facilmente por uma citação, seja ela bíblica, filosófica ou científica: se a moral não vem de um mandamento gravado em pedra, de onde vem, afinal, a certeza de que não devemos matar, roubar, trair ou fazer ao outro aquilo que não gostaríamos que fizessem conosco? Foi essa pergunta — mais do que qualquer desejo de refutar quem pensa diferente — que me levou a Hobbes, Durkheim e Darwin. Não quero vencer um debate; quero, antes de tudo, compreender. Quero entender por que a humanidade, mesmo quando não se orienta por uma revelação religiosa, continua criando regras, limites e valores para tornar possível a vida em comum.
A tese de que somente a lei divina seria capaz de impedir o caos social, portanto, esbarra em um dado histórico difícil de ignorar: sociedades humanas organizaram sua convivência moral muito antes e, em diversos casos, independentemente de qualquer tradição bíblica. No século XVII, Thomas Hobbes já procurava explicar a origem da ordem social sem recorrer necessariamente a uma fundamentação teológica. Em Leviatã, publicado em 1651, imaginou um estado de natureza marcado pela insegurança e pela disputa, no qual os indivíduos, movidos pelo desejo de preservar a própria vida, aceitariam estabelecer um "contrato social". Em outras palavras, homens que temem a guerra de todos contra todos encontram na organização coletiva uma alternativa à violência permanente. A ordem, nesse caso, não desce do céu: nasce de uma necessidade humana bem concreta — sobreviver.
Dois séculos depois, Émile Durkheim deslocaria ainda mais o eixo da discussão. Ao investigar as causas do suicídio, percebeu que a vida social depende de normas capazes de orientar desejos, expectativas e comportamentos. Daí surge seu conhecido conceito de "anomia": uma situação em que as normas que deveriam regular a vida coletiva se enfraquecem, perdem sua força ou deixam de oferecer referências suficientemente estáveis. E aqui está o ponto que considero decisivo: a desintegração moral não é um privilégio de sociedades sem religião. Ela pode ocorrer tanto em comunidades profundamente religiosas quanto em sociedades seculares. O problema, portanto, não parece estar simplesmente na presença ou na ausência de Deus, mas na capacidade de uma sociedade construir e preservar normas compartilhadas que deem algum sentido à convivência.
Mas, é preciso colocar o pé no freio antes de transformar essa conclusão em uma nova espécie de dogma. Seria intelectualmente desonesto ignorar o outro lado da história. O século XX ofereceu exemplos perturbadores de regimes profundamente seculares, como a União Soviética de Stálin e a China de Mao, nos quais a religião não ocupava o centro da organização política e social e, ainda assim, foram produzidas formas de violência em escala monstruosa. Isso nos obriga a admitir uma coisa bastante desconfortável: a ausência de religião não torna o ser humano automaticamente mais justo, assim como a presença dela não o torna automaticamente bom. A história, nesse aspecto, é uma professora severa — e não costuma passar a mão na cabeça de ninguém.
O que esses regimes revelam é que uma sociedade pode abandonar uma fundamentação religiosa e, ainda assim, construir estruturas autoritárias capazes de esmagar a liberdade e a dignidade individual. O problema, portanto, não desaparece quando Deus é retirado da equação; ele apenas muda de lugar. Sem instituições capazes de limitar o poder, proteger direitos e estabelecer mecanismos de controle, qualquer sistema moral pode ser capturado por interesses políticos e transformado em instrumento de dominação. Nesse sentido, a questão levantada por Durkheim permanece atual: mais importante do que perguntar apenas se uma sociedade é religiosa ou secular é perguntar quais normas a sustentam, como elas são construídas e, sobretudo, o que acontece quando deixam de cumprir sua função integradora.
É justamente por isso que alguns dados da modernidade me interessam tanto quanto me provocam. Em Os Anjos Bons da Nossa Natureza, Steven Pinker reúne uma extensa quantidade de dados históricos para defender a tese de que a violência, em diferentes contextos, apresentou uma tendência de longo prazo de declínio, especialmente em determinadas sociedades ocidentais. O argumento é controverso em alguns de seus aspectos e não deve ser tratado como uma verdade definitiva; ainda assim, ele oferece uma provocação importante: a redução da violência não parece depender exclusivamente do aumento da religiosidade. Instituições, Estado de direito, educação, expansão dos direitos individuais, comércio, cooperação e mudanças culturais também desempenham papel relevante nesse processo.
Os países nórdicos costumam aparecer nessa discussão justamente porque apresentam uma combinação curiosa: níveis relativamente baixos de religiosidade tradicional convivendo com altos índices de confiança social, segurança, educação e bem-estar. Dinamarca, Suécia e Noruega não são sociedades sem moral; longe disso. O que se percebe é uma moralidade que, em grande medida, encontrou outras formas de legitimação e transmissão. A cooperação, a reciprocidade, a educação e as instituições jurídicas passaram a desempenhar funções fundamentais na organização da vida coletiva. E aqui Darwin também entra na conversa, ainda que por uma porta diferente: sua reflexão sobre a sociabilidade e a cooperação ajuda a compreender como comportamentos favoráveis à vida em grupo podem possuir raízes profundas na própria história evolutiva da espécie humana.
Isso não significa, evidentemente, que a secularização tenha criado a bondade, nem que sociedades religiosas estejam condenadas ao atraso moral. Seria trocar um dogmatismo por outro. O que a história parece sugerir é algo mais complexo: a moral humana possui múltiplas fontes, entre elas a religião, a tradição, a experiência social, a razão, a empatia, a reciprocidade, a necessidade de cooperação e, por que não, o próprio instinto de sobrevivência. A religião pode desempenhar um papel poderoso nesse processo, mas não parece ser a única fábrica de valores morais existente na experiência humana.
Talvez, então, a "luz" que civiliza os povos não emane de um único texto, sagrado ou não, mas do esforço contínuo — imperfeito, contraditório, às vezes doloroso e profundamente humano — de rever as próprias normas à luz da experiência. Afinal, sociedades mudam, conhecimentos avançam, antigas certezas desmoronam e novas perguntas surgem. Aquilo que ontem parecia intocável pode amanhã ser reconhecido como injusto. A história da moral talvez seja, em grande medida, a história dessa inquietação: olhar para aquilo que somos e perguntar se podemos ser melhores.
E se isso for verdade, a prosperidade de uma sociedade não depende apenas da obediência, seja ela a um mandamento divino, a uma autoridade política ou a uma tradição cultural. Depende também de algo bem mais difícil: a capacidade coletiva de questionar o próprio caminho. Porque obedecer é, muitas vezes, mais fácil do que pensar; seguir uma regra pronta exige menos coragem do que perguntar se a regra é justa. A civilização, nesse sentido, não nasce quando deixamos de fazer perguntas, mas quando aprendemos a conviver com elas sem transformar nossas respostas provisórias em verdades absolutas.
No fim das contas, talvez a grande questão não seja simplesmente descobrir se podemos ter moral sem Deus, mas compreender de onde vem nossa capacidade de construir, revisar e defender aquilo que consideramos justo. E essa pergunta permanece aberta. Talvez seja justamente essa abertura — esse incômodo que não nos deixa acomodar — uma das marcas mais humanas que possuímos.
Referências
HOBBES, T. Leviatã. Londres, 1651.
DURKHEIM, É. O Suicídio. Paris, 1897.
PINKER, S. Os Anjos Bons da Nossa Natureza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


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