Ensaio Teológico V(2) Menoridade e Desejo: Ensaio sobre a Sabedoria Sexual em Tempos de Liberdade
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Conheço uma cena que se repete, com pequenas variações, em quase toda vida adulta: alguém diante de uma decisão sobre o próprio corpo, sozinho com ela, sem nenhum verso de Provérbios e sem nenhum tratado de Foucault ao alcance da mão — apenas o próprio discernimento, posto à prova justamente quando mais importa. É desse lugar, e não de uma tese abstrata, que parto. Não para provar que a liberdade sexual contemporânea seja superior à tradição que a antecedeu, tampouco para condená-la de antemão, mas para fazer uma pergunta incômoda: o que, afinal, sustenta essa liberdade quando ninguém está olhando?
O rei Salomão escreveu que "quem anda com os sábios será sábio" (Provérbios 13:20). Longe de ser apenas uma advertência moralista, a frase também pode ser entendida como uma tese sobre formação: aprendemos a discernir observando aqueles que, antes de nós, já aprenderam a discernir. É tentador descartar essa ideia como simples reflexo de uma época em que o corpo e o desejo eram regulados pelo medo. Mas, seria um erro de leitura simplificar demais a tradição apenas para depois derrubá-la com facilidade. Afinal, o próprio texto bíblico não condena o desejo em si; preocupa-se com o desejo sem discernimento, com a vontade que não reconhece limites, consequências ou responsabilidades. E é justamente nesse ponto que tradição e modernidade talvez não estejam tão distantes quanto parecem.
Assumo, portanto, minha posição sem escondê-la atrás de uma falsa neutralidade: defendo uma ética sexual fundada no consentimento, na responsabilidade e na educação. Não porque essa seja a única leitura racional possível, mas porque me parece a que melhor responde às perguntas que uma pessoa real enfrenta quando está sozinha, numa noite qualquer, diante de suas escolhas. Immanuel Kant chamou o esclarecimento de saída da menoridade: a coragem de pensar por si mesmo, em vez de aceitar, por comodidade ou hábito, aquilo que outros decidiram em nosso lugar. Aplicada à sexualidade, essa coragem não significa jogar fora todo e qualquer limite, como se liberdade fosse sinônimo de ausência de freios. Significa, antes, compreender que um limite só adquire verdadeiro sentido quando é reconhecido pela consciência, e não apenas imposto pelo medo de uma autoridade externa.
É aqui que Foucault entra novamente na conversa. Ele teve razão ao mostrar que toda regulação do desejo também envolve relações de poder. Mas, seria ingênuo concluir, a partir disso, que a ausência de regulação constitui, por si só, liberdade. Afinal, o desejo humano não acontece num vácuo: ele envolve corpos, sentimentos, relações, consequências e responsabilidades. A liberdade que vale a pena defender não é a ausência de risco, mas a capacidade de reconhecê-lo, avaliá-lo e decidir diante dele com lucidez.
E aqui faço uma correção importante a um excesso cometido anteriormente. Dizer que o conhecimento científico atual faz "perder força" a preocupação com ciúme, sífilis ou HIV foi impreciso. A ciência e a educação sexual contemporâneas permitem reduzir riscos, preveni-los e tratá-los com muito mais eficácia, mas não os fazem desaparecer. O conhecimento não elimina o perigo; torna possível enfrentá-lo com mais consciência. Fingir que todo risco ficou para trás não fortalece a liberdade — pelo contrário, deixa a pessoa desarmada justamente diante daquilo que deveria saber reconhecer.
Talvez, então, a verdadeira sabedoria sexual contemporânea não esteja nem na rejeição automática das antigas advertências, nem na aceitação ingênua de toda liberdade nova. Existe um terceiro caminho, bem mais difícil, porque exige responsabilidade: o caminho de quem decide por si mesmo, mas decide informado. É alguém que leva para dentro do quarto não o julgamento alheio, mas o próprio discernimento, amadurecido pela educação, pela experiência, pelos erros cometidos e, sobretudo, pelo cuidado consigo e com o outro.
Essa pessoa não precisa de um dogma para controlar cada movimento, mas também não precisa transformar a permissividade em certificado de liberdade. Sabe que dizer "sim" é uma decisão, assim como dizer "não"; que consentimento não é detalhe, mas fundamento; e que liberdade sem responsabilidade pode facilmente se transformar em outra forma de escravidão — desta vez, não ao mandamento de alguém, mas aos próprios impulsos.
No fundo, há uma ironia nisso tudo: quanto mais livre o indivíduo se torna para escolher, maior é a responsabilidade de escolher bem. A liberdade não diminui a necessidade de sabedoria; aumenta-a. Quanto maior o campo de possibilidades, maior também a necessidade de discernimento para não confundir aquilo que posso fazer com aquilo que devo fazer, nem aquilo que desejo com aquilo que necessariamente me fará bem.
Talvez seja justamente aí que Salomão e Kant, apesar da enorme distância histórica e filosófica que os separa, possam conversar. De um lado, a humildade de reconhecer que "quem anda com os sábios será sábio"; de outro, a coragem de sair da menoridade e pensar por conta própria. Um nos lembra que ninguém amadurece completamente sozinho; o outro, que ninguém deve viver eternamente sob a tutela do pensamento alheio.
É nesse encontro — entre a coragem de decidir e a humildade de aprender, entre liberdade e responsabilidade, entre desejo e discernimento — que talvez resida a sabedoria sexual capaz de atravessar qualquer época. Porque ser livre não é simplesmente fazer o que se quer quando ninguém está olhando. É saber o que se está fazendo, compreender suas consequências e, ainda assim, poder dizer: esta escolha é minha, e eu assumo a responsabilidade por ela.


Nenhum comentário:
Postar um comentário