Ensaio Teológico IV(24) — A Importância da Comunicação Eficaz
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Houve um tempo em que aprendi a engolir palavras como quem engole pedras. Fui ensinado, com a melhor das intenções, que "guardar a língua" era sinal de maturidade espiritual. E, durante anos, confundi silêncio com sabedoria, contenção com equilíbrio, resignação com paz. Só que as palavras que não encontravam saída não desapareciam; ficavam dentro de mim, acumulando-se como água represada atrás de uma barragem. O resultado não foi a paz que eu imaginava, mas um azedume silencioso, daqueles que crescem justamente onde a gente mais se esforça para não dizer nada. Foi sentindo o peso desse silêncio mal empregado que comecei a desconfiar de que talvez estivéssemos lendo os provérbios pela metade.
"A morte e a vida estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto" (Provérbios 18:21). Durante muito tempo, interpretei esse versículo quase exclusivamente como uma advertência: cuidado com aquilo que sai da boca, porque palavras podem ferir, destruir e até matar. E isso é verdade. Uma palavra impensada pode atravessar alguém como uma lâmina; uma frase dita no momento errado pode permanecer na memória durante anos. Mas, existe outro lado, menos explorado e, talvez, mais generoso: a língua também pode ser instrumento de vida quando se dispõe a dizer aquilo que precisa ser dito. Pode consolar, esclarecer, denunciar uma injustiça, pedir perdão, estabelecer limites, confessar uma dor e até reconstruir uma relação. Reprimir, portanto, não é necessariamente o mesmo que guardar. Às vezes, guardar a língua é sabedoria; outras vezes, é apenas medo disfarçado de virtude.
Foi Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, quem me ajudou a dar nome a esse desconforto antigo. Sua proposta parte da ideia de que a comunicação não precisa nascer da acusação, da ameaça ou da violência verbal, mas pode partir da capacidade de reconhecer sentimentos, necessidades e limites. Isso me fez perceber algo simples, porém incômodo: aquilo que reprimimos não deixa de existir só porque decidimos não falar. O sentimento continua ali, procurando alguma fresta para escapar. Às vezes, aparece na irritação desproporcional, na aspereza inesperada, no afastamento, no ressentimento ou naquele silêncio que, em vez de pacificar, machuca. O que não dizemos também comunica — e, não raro, comunica muito.
É aqui que surge uma tensão interessante com C. S. Lewis, que defendia a razão como elemento fundamental daquilo que nos torna verdadeiramente humanos, afirmando que "um homem não pode ser humano sem ela". Lewis confiava na razão como uma espécie de bússola; Rosenberg chamou minha atenção para a importância de reconhecer o mundo dos sentimentos. Durante muito tempo, pensei que fosse necessário escolher entre os dois: ou a frieza da razão, ou a espontaneidade da emoção. Hoje, porém, desconfio dessa oposição. Talvez maturidade não seja escolher um lado, mas permitir que razão e emoção se examinem mutuamente antes que a palavra ganhe o mundo. Sentir não basta para estar certo; pensar, por outro lado, não basta para estar vivo. A emoção precisa da razão para não se transformar em impulso, e a razão precisa da emoção para não virar pedra.
Nesse ponto, a comunicação eficaz deixa de ser apenas uma técnica e passa a ser uma forma de responsabilidade. Não basta perguntar: "O que eu quero dizer?" É preciso perguntar também: "Como aquilo que vou dizer poderá chegar ao outro?" Há uma diferença enorme entre sinceridade e brutalidade. Nem toda verdade precisa ser dita de qualquer maneira, em qualquer lugar ou a qualquer hora. A verdade sem amor pode transformar-se em arma; o amor sem verdade pode transformar-se em conivência. Falar bem, portanto, não significa apenas dominar palavras, mas compreender o peso que elas carregam.
Alain de Botton, com uma frase que me desarmou na primeira leitura, oferece talvez uma síntese bastante honesta: "a verdadeira comunicação é impossível sem vulnerabilidade e humildade". E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores dificuldades de qualquer diálogo. Falar de verdade significa correr riscos. Podemos ser mal compreendidos, contrariados ou até rejeitados. Podemos descobrir que estávamos errados. Podemos ferir alguém sem essa intenção e, pior ainda, podemos ouvir do outro aquilo que não gostaríamos de ouvir. A comunicação madura não elimina esses riscos; aprende a atravessá-los. Não é a ausência de perigo que torna uma conversa sábia, mas a disposição de entrar nela sem a arrogância de quem acredita possuir todas as respostas.
Por isso, comunicar-se bem exige mais do que falar. Exige escutar. E escutar, convenhamos, é uma das artes mais difíceis. Há quem permaneça em silêncio apenas esperando a própria vez de responder. Isso não é escuta; é uma pausa entre dois discursos. Escutar de verdade é permitir que o outro exista diante de nós sem que precisemos imediatamente corrigi-lo, julgá-lo ou encaixá-lo em nossas próprias categorias. Às vezes, uma pessoa não precisa de uma resposta pronta; precisa apenas descobrir que alguém finalmente teve a disposição de ouvi-la.
Talvez, então, guardar a língua, no sentido mais profundo do provérbio, não signifique simplesmente calar-se por medo de errar. Signifique aprender a escolher as palavras com o mesmo cuidado de quem planta uma semente, sabendo que todo fruto depende, em alguma medida, daquilo que foi lançado à terra. Uma palavra pode ser semente de esperança ou de ressentimento; pode abrir uma porta ou construir um muro. E ninguém deveria esquecer que algumas portas, depois de fechadas por uma palavra, custam muito a se abrir novamente.
É por isso que a orientação de Paulo continua tão provocadora: Efésios 4:29 pede que nenhuma palavra torpe saia da boca, "mas só a que for boa para promover a edificação". Repare: o texto não manda simplesmente eliminar a palavra; orienta para que ela cumpra uma finalidade. A questão não é falar menos por falar menos, mas falar melhor. Não é transformar o silêncio em virtude automática, mas aprender quando silenciar e quando falar. Há momentos em que o silêncio é prudência; há outros em que ele é covardia. Há palavras que ferem, mas há silêncios que também ferem. Há verdades que precisam ser ditas, embora devam ser ditas com mãos cuidadosas.
Talvez edificar, portanto, não seja sinônimo de conter. Talvez seja justamente o contrário: seja arriscar-se a falar quando o silêncio já não protege ninguém. É dizer a verdade sem transformar o outro em inimigo; expressar a dor sem convertê-la em acusação; estabelecer limites sem humilhar; discordar sem destruir. É deixar que a própria voz, por vezes, trema diante do outro — porque vulnerabilidade não é fraqueza, assim como silêncio nem sempre é sabedoria.
No fim das contas, comunicação eficaz não é a arte de encontrar palavras perfeitas, mas a disposição de construir pontes onde seria mais fácil levantar muros. A língua pode matar, sim; mas também pode ressuscitar aquilo que parecia perdido. Pode destruir uma relação ou oferecer-lhe uma segunda chance. Pode alimentar o ressentimento ou abrir caminho para o perdão. Talvez seja por isso que guardar a língua seja muito mais difícil do que simplesmente fechá-la: guardar não é aprisionar a palavra; é cuidar dela antes de soltá-la. Afinal, toda palavra lançada ao mundo carrega consigo uma responsabilidade — e, cedo ou tarde, como advertiu o provérbio, nós mesmos acabamos comendo do fruto que plantamos.


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