Ensaio Teológico IV(27) Da Obediência à Escuta: um Ensaio sobre os Limites e as Possibilidades da Fé Questionadora
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma cena que se repete, com pequenas variações, em quase toda tradição religiosa: um mestre aponta o caminho, e o discípulo, de cabeça baixa, segue adiante sem perguntar por quê. Há beleza nisso — afinal, existe algo profundamente humano em confiar-se a algo maior do que si mesmo. Mas, há também um perigo silencioso: quando a fé se transforma em hábito, o hábito pode acabar se tornando acomodação, e a acomodação, pouco a pouco, em ausência de pensamento. É justamente esse risco que este ensaio pretende examinar, não para condená-lo de antemão, mas para compreendê-lo em toda a sua complexidade.
Os pastores, com razão, insistem na importância de um caminho estável. A vida espiritual, como qualquer outra forma de vida, precisa de algum chão firme; sem raízes, a fé pode se dissolver ao sabor dos ventos, das emoções e dos caprichos pessoais. Contudo, Provérbios 4:26 já continha, muitos séculos antes das formulações da filosofia moderna, uma advertência que continua atual: "Pesa o caminho de teus pés e todos os teus caminhos sejam bem ordenados." Ora, pesar o caminho não significa simplesmente caminhar; significa avaliar o peso de cada passo, considerar para onde ele conduz e, se necessário, corrigir a direção. A tradição bíblica, portanto, não é estranha ao discernimento. Ao contrário: ela o pressupõe e, em muitos momentos, o exige.
É aqui que aparece a primeira tensão verdadeira deste ensaio — e não uma oposição artificialmente construída: tradição e questionamento não são, necessariamente, inimigos naturais. O problema começa quando transformamos a obediência em sinônimo de cegueira ou o questionamento em certificado automático de sabedoria. Há perguntas vaidosas, feitas apenas para alimentar o próprio ego, assim como há obediências profundas, nascidas não do medo, mas da experiência acumulada de gerações. Nem todo aquele que pergunta está disposto a ouvir a resposta; e nem todo aquele que obedece deixou de pensar. Reconhecer essa ambiguidade é, talvez, o primeiro exercício de honestidade intelectual que este texto pode oferecer.
Ainda assim, a história do pensamento nos apresenta outras vozes, vindas de lugares diferentes, que ajudam a iluminar essa questão. Einstein lembrava que uma mente exposta a uma ideia nova jamais retorna ao tamanho anterior. É difícil não perceber, nessa formulação, um eco quase involuntário de Romanos 12:2, que fala da "renovação do entendimento". De um lado, a linguagem da ciência; de outro, a linguagem da fé. Não são necessariamente vozes destinadas a se anularem. Podem, antes, conversar — cada uma com seu sotaque — sobre uma experiência profundamente humana: a transformação de quem se permite pensar de novo.
Mas seria ingênuo imaginar que esse diálogo acontece sempre de maneira tranquila. Quando Bertrand Russell define o fundamentalismo como a recusa em admitir o erro, ele expressa uma desconfiança legítima diante de determinadas formas de autoridade religiosa. E essa desconfiança não surgiu do nada. A história registra abusos, manipulações e instituições que fizeram da obediência um instrumento de controle, quando deveriam tê-la compreendido como expressão de cuidado, responsabilidade e liberdade. Não se pode varrer isso para debaixo do tapete. A crítica merece ser ouvida. Mas também não seria justo permitir que ela explique sozinha todo o fenômeno religioso. Existe uma fé que oprime, sim; mas existe também uma fé que consola, transforma e liberta. Confundi-las seria tão injusto quanto fingir que a primeira jamais existiu.
Nesse ponto, Tiago 3:17 oferece uma perspectiva que talvez os críticos mais severos da religião nem sempre levem suficientemente em conta: "a sabedoria que vem do alto é, primeiramente, pura, depois, pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia." Trata-se de uma sabedoria que não precisa viver entrincheirada, sempre pronta para atacar quem pensa diferente. É uma sabedoria aberta ao diálogo, à correção e à misericórdia. E, curiosamente, há aqui uma aproximação possível com aquilo que Brené Brown chama de vulnerabilidade: a coragem de se expor sem a garantia de controlar o resultado. Talvez a fé madura seja justamente aquela que consegue admitir: "posso estar errado". Não como quem abandona suas convicções ao primeiro sopro de dúvida, mas como quem confia tanto na verdade que não precisa protegê-la com violência.
Eis, então, a questão central: o que este ensaio está defendendo? Não a substituição da tradição pela crítica secular, como se tudo o que veio antes de nós devesse ser descartado simplesmente por ser antigo. Também não uma espécie de retorno à obediência passiva, como se pensar fosse uma ameaça à fé. A proposta é outra, talvez mais difícil e, por isso mesmo, mais honesta: uma terceira via, na qual a fé não tenha medo de ser interrogada porque confia na profundidade daquilo que professa.
Steve Jobs falava sobre a necessidade de mudar de curso quando as circunstâncias exigissem. Provérbios 14:15, por sua vez, já advertia que "o prudente atenta para os seus passos". De um lado, a linguagem da inovação; de outro, a linguagem da sabedoria bíblica. Não são vozes concorrentes disputando o monopólio da verdade. São testemunhos, vindos de mundos distintos, de uma percepção bastante antiga: viver exige atenção. E quem presta atenção, cedo ou tarde, precisa perguntar se o caminho percorrido ainda é o caminho que deve ser seguido.
Talvez seja justamente aí que a fé deixe de ser mera repetição e se transforme em experiência. Afinal, quem nunca pergunta pode até caminhar muito, mas nem sempre sabe para onde está indo. Por outro lado, quem questiona tudo o tempo inteiro corre o risco de transformar a dúvida em uma nova forma de dogmatismo. Há pessoas que abandonam um dogma apenas para construir outro com os próprios questionamentos. Trocam a autoridade da tradição pela autoridade do próprio ego e, sem perceber, continuam prisioneiras da mesma lógica.
Por isso, o convite mais justo, ao final, talvez não seja escolher entre obedecer e questionar, mas aprender a fazer as duas coisas com humildade. Obedecer sem se anestesiar. Questionar sem se ensurdecer. Escutar sem abdicar da consciência. Crer sem transformar a crença em blindagem contra a realidade. A fé que não suporta perguntas talvez esteja mais preocupada em proteger suas certezas do que em buscar a verdade.
No fim das contas, a maturidade espiritual não se mede pela quantidade de respostas que alguém consegue oferecer, mas também pela qualidade das perguntas que é capaz de sustentar. Há perguntas que destroem; há perguntas que libertam. Há dúvidas que afastam de Deus; outras, paradoxalmente, afastam apenas as imagens frágeis que construímos sobre Ele. Talvez seja esse o movimento mais fecundo da fé: sair da obediência automática para chegar à escuta consciente; abandonar a segurança infantil da certeza absoluta sem cair no vazio do relativismo; aprender, enfim, que questionar não é necessariamente abandonar a fé — às vezes, é a maneira mais sincera de aprofundá-la.
Porque uma fé viva não precisa de uma mordaça. Precisa de ouvidos. E talvez, no silêncio entre a pergunta e a resposta, seja justamente onde começa a verdadeira escuta.


Nenhum comentário:
Postar um comentário