Ensaio Teológico IV(12) A sabedoria que se move: entre a liberdade e a busca
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Lembro-me de uma tarde, ainda jovem, em que perguntei a um mentor por que a Bíblia, tantas vezes, parecia exigir obediência justamente quando a vida real me cobrava decisões rápidas, capacidade de adaptação, coragem para errar e disposição para recomeçar. Eu esperava um versículo, talvez uma resposta pronta, dessas que encerram a conversa antes mesmo de ela começar. Mas, ele não me respondeu com a Bíblia aberta. Primeiro, ficou em silêncio; depois, fez-me uma pergunta que, confesso, nunca mais me deixou em paz: "Você acha que sabedoria é seguir um mapa, ou é saber ler o terreno quando o mapa já não serve?" Naquele momento, talvez eu não tivesse idade para compreender toda a profundidade da pergunta. Hoje, porém, percebo que ela contém uma questão essencial: até que ponto ser sábio significa obedecer ao caminho conhecido e em que momento significa ter coragem para reconhecer que o terreno mudou?
Durante muito tempo, a sabedoria foi apresentada como uma espécie de patrimônio: adquire-se, guarda-se e transmite-se às gerações seguintes, quase como uma herança que passa de mão em mão sem sofrer alterações. E há verdade nisso. Ninguém começa do zero; somos filhos de uma história, de experiências, de erros e acertos que vieram antes de nós. Mas há algo na experiência humana que resiste a essa imagem estática. A vida não para para que terminemos de consultar o manual. Einstein já intuía essa dinâmica quando afirmou que "a medida da inteligência é a capacidade de mudar". Lida sob uma perspectiva teológica, essa frase não me parece uma heresia, mas uma provocação que pode iluminar a própria experiência da fé. Afinal, o que é a fé, senão também a disposição de se deixar transformar? A sabedoria não despreza o conhecimento acumulado; pelo contrário, alimenta-se dele. Mas não pode ficar presa a ele como quem transforma um mapa em território. Conhecimento que não se move envelhece; sabedoria que não dialoga com a realidade corre o risco de virar apenas repetição.
Penso, por exemplo, num jovem criado numa família de fé rígida, acostumado desde cedo a receber regras claras para praticamente todas as situações da vida. Enquanto está em casa, o roteiro parece funcionar. Há respostas para quase tudo: o que fazer, o que evitar, com quem andar, o que pensar. Até que ele cresce, sai de casa e descobre, não sem algum espanto, que a vida não vem acompanhada de um manual de instruções. Depara-se com decisões profissionais para as quais não existe um precedente bíblico direto, relacionamentos que exigem mais discernimento do que citações e situações em que nenhuma resposta pronta dá conta da complexidade do problema. E aqui está o ponto: esse jovem não necessariamente perde a fé quando aprende a improvisar; talvez esteja, justamente, começando a amadurecê-la. É nesse território desconhecido, onde o chão já não é tão firme, que Nietzsche, com sua conhecida dureza, oferece uma verdade incômoda, mas que merece ser considerada: "Aquilo que não me mata, me fortalece". O sofrimento, o erro e o obstáculo sem manual podem deixar marcas, é verdade, mas também podem produzir maturidade. Às vezes, é justamente quando o mapa termina que começamos, de fato, a aprender a ler o terreno.
Ainda assim, há uma tensão que não posso deixar de lado — talvez o ponto mais delicado de toda esta reflexão. Se Paulo escreve aos Gálatas que "foi para a liberdade que Cristo nos libertou", enquanto Salomão insiste, em Provérbios, que devemos "empregar tudo o que possuímos na aquisição de entendimento", não estaríamos diante de um paradoxo? De um lado, a liberdade; de outro, a busca disciplinada. De um lado, a graça que liberta; de outro, o esforço de quem não se conforma com a ignorância. Afinal, entrega ou empenho? Liberdade ou disciplina? Eu creio que a resposta esteja justamente em não separar aquilo que a vida insiste em manter unido.
Na minha própria caminhada, tenho percebido que a liberdade anunciada por Paulo não significa ausência de busca. Significa, antes, a possibilidade de buscar sem medo; de errar sem viver acorrentado à culpa; de fazer perguntas sem imaginar que toda dúvida seja uma ameaça à fé; de aprender sem precisar fingir que já sabemos tudo. A sabedoria de Salomão, por sua vez, não aprisiona essa liberdade. Ela lhe dá direção. Uma precisa da outra. Liberdade sem busca pode se transformar em dispersão, numa espécie de barco sem leme, levado ao sabor de qualquer correnteza. Mas busca sem liberdade também pode virar fardo: uma caminhada pesada, movida pelo medo de errar e pela obrigação de acertar sempre. E ninguém amadurece verdadeiramente sob o peso permanente do medo.
Talvez, então, a vida não seja exatamente uma escolha entre o caminho da sabedoria e o caminho da tolice, como parece sugerir o texto original. A existência humana é mais sinuosa do que isso. Há dias em que acertamos; em outros, tropeçamos. Há momentos em que avançamos com convicção e outros em que precisamos parar, respirar e admitir: "não sei". E não há vergonha alguma nisso. A sabedoria também nasce dessa honestidade. Aprende-se buscando, mas também se aprende errando; cresce-se perguntando, e muitas vezes amadurece-se justamente quando uma resposta antiga já não consegue explicar a pergunta nova.
No fim das contas, talvez a sabedoria verdadeira seja menos uma coleção de respostas e mais uma disposição permanente para continuar aprendendo. Ela não abandona as raízes, mas também não se recusa a crescer. É como uma árvore: ninguém lhe pede que escolha entre aprofundar as raízes e estender os galhos. Ela faz as duas coisas ao mesmo tempo. Quanto mais se firma no chão, mais pode se lançar ao céu; quanto mais cresce, mais precisa de raízes profundas. Assim também acontece com a sabedoria: ela não precisa escolher entre liberdade e disciplina, entre fé e reflexão, entre tradição e movimento. Ela pode — e talvez deva — tecer tudo isso junto, fio a fio, na trama imprevisível da existência.
Porque viver, afinal, é isso: caminhar com algumas certezas no bolso e muitas perguntas pelo caminho. E talvez seja justamente aí que a sabedoria se revele não como algo que possuímos de uma vez por todas, mas como aquilo que nos acompanha enquanto aprendemos a mudar sem perder a essência, a buscar sem perder a liberdade e, sobretudo, a continuar caminhando quando o mapa já não dá conta do terreno.
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