Ensaio Teológico IV(11) Educação dos filhos: entre a rocha e o rio
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há um momento na vida de todo pai ou mãe que leva a fé a sério em que a Escritura deixa de ser apenas livro e passa a funcionar como mapa e bússola. É justamente nesse ponto que o ensaio teológico aqui deposita sua aposta mais ousada: educar os filhos seria, antes de tudo, um ato de obediência aos preceitos bíblicos. A tese tem beleza, sem dúvida, e também tem peso. Afinal, quem educa não lida apenas com comportamentos, mas com valores, escolhas e destinos. Contudo, toda rocha, por mais firme que seja, precisa conviver com o movimento das águas para não se transformar em deserto. E é justamente esse rio — o da flexibilidade, do diálogo e da adaptação — que o ensaio parece represar.
George Bernard Shaw já nos provocava, com sua conhecida ironia: "Uma vida inteira de felicidade! Nenhum homem vivo conseguiria suportá-la". À primeira vista, a frase pode parecer apenas uma provocação cética à ideia de uma felicidade permanente. Mas, olhando um pouco mais de perto, ela desmonta uma ilusão bastante comum: a de que existe um único caminho, perfeitamente reto e sem tropeços, capaz de conduzir uma criança da infância à maturidade e, finalmente, à bênção. Ora, se nem a felicidade suporta ser inteira e ininterrupta, por que haveria a educação de seguir uma estrada sem curvas, sem dúvidas e sem mudanças de rota? Educar é, também, aprender a lidar com aquilo que não estava previsto.
É nesse ponto que a crítica ao ensino em artes liberais, presente no texto original, merece ser retomada. Não necessariamente como um erro doutrinário, mas como uma possível redução do horizonte educacional. Imagine-se, por exemplo, uma família que, por convicção religiosa, escolhe a educação doméstica para os filhos. Tudo parece coerente até que, aos catorze anos, o adolescente revela um talento extraordinário para a matemática — justamente numa área em que nenhum dos pais tem conhecimento suficiente para acompanhá-lo. O princípio, quando aplicado de maneira rígida e sem mediação, pode acabar sufocando o próprio dom que, segundo a cosmovisão cristã defendida pelo ensaio, teria sido concedido por Deus.
A educação doméstica pode, sim, ser terreno fértil. Mas, até a terra mais generosa precisa de água, luz e, às vezes, de mãos que venham de fora para ajudar no cultivo. Professores, bibliotecas, laboratórios, experiências sociais e diferentes perspectivas não precisam ser vistos como ameaças à formação cristã. Ao contrário, podem ampliá-la. Não há contradição entre criar os filhos "no temor do Senhor" e reconhecer que o conhecimento também pode ser encontrado na geometria, na literatura, na ciência, na história e nas múltiplas experiências humanas. Se toda verdade procede de Deus, não faz muito sentido temer a verdade apenas porque ela veio por uma estrada diferente daquela que imaginamos.
A segunda fratura do ensaio aparece na insistência de que ousadia, dogmatismo e crítica sejam a única resposta legítima diante da oposição. É aí que a reflexão de Isaac Asimov entra como uma espécie de pedra no sapato — pequena, incômoda, mas impossível de ignorar: "A verdadeira prova de sabedoria é a modéstia". E modéstia, aqui, não significa fraqueza, covardia ou falta de convicção. Significa saber ouvir antes de responder, perguntar antes de condenar e reconhecer que, às vezes, podemos estar certos quanto ao princípio e equivocados quanto à maneira de aplicá-lo.
Pensemos numa cena corriqueira: um filho adolescente, durante o jantar, pergunta por que não pode andar com determinados amigos, ler certos livros ou participar de algumas conversas. A resposta dogmática pode até encerrar a discussão naquele instante, mas, junto com ela, pode fechar também a porta do diálogo. O silêncio imposto hoje pode se transformar em distância amanhã. Já uma resposta mais modesta não precisa abrir mão dos princípios. Pode explicá-los, contextualizá-los e, sobretudo, permitir que o filho compreenda as razões por trás deles. Princípio sem diálogo vira muro; princípio acompanhado de diálogo pode virar ponte.
Eu creio — e talvez o próprio autor creia, no fundo — que a verdadeira força de uma educação cristã não está em blindar os filhos contra o mundo, como se fosse possível criar uma redoma ao redor deles, mas em prepará-los para atravessá-lo com discernimento. Afinal, mais cedo ou mais tarde, eles sairão de casa. Encontrarão ideias diferentes, pessoas diferentes, valores diferentes e, inevitavelmente, perguntas para as quais talvez os pais não tenham respostas prontas. E isso não precisa ser motivo de pânico. Pode ser, quem sabe, uma oportunidade de amadurecimento.
Tenho observado que, nas famílias reais, os filhos que permanecem mais firmes em suas convicções nem sempre são aqueles que cresceram mais protegidos, mas aqueles que tiveram espaço para conversar, questionar, discordar e até duvidar. Filhos a quem foi permitido perguntar não necessariamente abandonam a fé; muitas vezes, justamente por terem podido perguntar, retornam a ela com uma convicção que já não é apenas herdada. Há uma diferença enorme entre repetir aquilo que os pais acreditam e chegar, depois de alguma caminhada, à conclusão de que também se acredita naquilo.
Por isso, a busca por uma educação capaz de conciliar as bênçãos de Deus com o desenvolvimento e o sucesso dos filhos continua sendo uma proposta nobre — e, diga-se de passagem, profundamente necessária. Mas, a nobreza do propósito não dispensa a humildade do método. Não basta saber aonde se quer chegar; é preciso também considerar a estrada, as curvas, os obstáculos e, sobretudo, a pessoa que está caminhando conosco.
O equilíbrio entre princípios sólidos e a flexibilidade necessária não representa uma traição à fé. Talvez seja, justamente, uma de suas expressões mais maduras. A fé que não suporta perguntas pode produzir obediência, mas nem sempre produz convicção. Já a fé que atravessa perguntas, dúvidas e conflitos pode sair do outro lado mais consciente de si mesma.
No fim das contas, educar filhos é uma tarefa que se parece menos com a construção de uma fortaleza e mais com o cultivo de uma árvore. É preciso raiz para permanecer de pé, mas também é preciso movimento para sobreviver ao vento. A árvore que tenta resistir à tempestade sendo apenas rígida corre o risco de quebrar; aquela que sabe se dobrar, sem perder suas raízes, atravessa a ventania. Assim também acontece com a educação: sua verdadeira solidez talvez não esteja na rocha imóvel, que nada questiona, mas na raiz profunda que permanece firme enquanto aprende a crescer ao lado do rio.


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