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MINHAS PÉROLAS

sábado, 17 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(26) Os Dois Livros e o Mesmo Autor

 


Ensaio Teológico VIII(26) Os Dois Livros e o Mesmo Autor

Por Claudeci Ferreira de Andrade

“O Senhor com sabedoria fundou a terra; preparou os céus com inteligência” (Pv 3,19). Quem já ergueu os olhos para um céu escuro, longe das luzes da cidade, sabe que esse versículo não é apenas doutrina: é o espanto humano diante da imensidão transformado em palavras. Os antigos, ao afirmarem que a criação nasceu da sabedoria, não pretendiam fazer física; expressavam reverência diante de algo que os ultrapassava. Antes de qualquer explicação, havia o assombro. E foi justamente esse sentimento, mais do que qualquer teoria, que atravessou os séculos e alimentou a busca humana pelo sentido da existência.

Entretanto, quando o assunto é fé e ciência, parece que muita gente insiste em colocar uma contra a outra. Há quem enxergue na tradição religiosa um obstáculo ao conhecimento, assim como há quem veja nas descobertas científicas uma ameaça à fé. Confesso que já me irritei com os dois lados. Com o tempo, porém, fui percebendo que a irritação é péssima conselheira: em vez de esclarecer, levanta muros; em vez de aproximar, afasta. E tem mais: quando critico aqueles que defendem a fé com rigidez, corro o risco de repetir o mesmo comportamento que condeno, julgando antes de escutar. Ora, se a verdade merece ser procurada, não seria mais sensato começar pelas perguntas, em vez de erguer trincheiras? Prefiro, portanto, investigar como a própria tradição cristã, ao longo de sua história, interpretou as Escrituras e lidou com o conhecimento da natureza.

A resposta pode surpreender quem imagina que o literalismo estrito sempre foi a única maneira cristã de ler a Bíblia. Agostinho de Hipona, em De Genesi ad litteram, advertiu que seria vergonhoso um cristão falar de fenômenos naturais de maneira tão absurda que os não cristãos, ao ouvi-lo, não conseguissem conter o riso. Basílio de Cesareia, em suas homilias sobre o Hexaêmeron, também refletiu sobre a criação à luz dos conhecimentos disponíveis em seu tempo. Essa postura revela algo importante: a tradição cristã não foi, em toda a sua história, uniforme na interpretação dos textos bíblicos. Nela também encontramos a imagem dos “dois livros”: o da Escritura e o da natureza, ambos compreendidos como obras do mesmo Criador. Galileu Galilei retomou essa perspectiva ao defender a distinção entre a finalidade espiritual das Escrituras e a investigação dos fenômenos naturais, sintetizada na conhecida ideia de que a Bíblia ensina como se vai ao céu, não como vai o céu. Não se trata, portanto, de inventar uma conciliação moderna para acomodar a religião à ciência, mas de reconhecer uma vertente antiga do próprio pensamento cristão: a busca pela verdade não precisa transformar o conhecimento em inimigo da fé.

É por isso que não vejo a ciência como rival da espiritualidade. O fato de a vida ter se diversificado ao longo de bilhões de anos, conforme explica a teoria da evolução, sustentada por um vasto conjunto de evidências científicas, não precisa diminuir o mistério da existência. Para mim, pode até aprofundá-lo. Basta pensar numa célula que se divide, numa semente que rompe a terra ou numa estrela cuja luz atravessa distâncias inimagináveis antes de alcançar nossos olhos. Há tanta complexidade nesses processos que a ignorância, quando reconhecida com honestidade, pode se transformar em convite à investigação. E é nesse ponto que me recordo das palavras de Paulo, ao afirmar que, desde a criação do mundo, os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, “têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Rm 1,20). O apóstolo não estava falando de laboratórios, telescópios ou teorias científicas modernas. Ainda assim, suas palavras permitem uma reflexão pertinente: se a criação pode revelar algo sobre seu Criador, investigar a natureza também pode ser uma maneira de contemplar a grandeza daquilo que existe. Para quem crê, observar não precisa ser o contrário de reverenciar; pode ser outra forma de fazê-lo.

No fim das contas, tanto o crente quanto o cientista precisam de uma virtude que nem sempre recebe o devido valor: a humildade. O primeiro reconhece que o mistério o ultrapassa; o segundo compreende que cada descoberta abre caminho para novas perguntas. Evidentemente, fé e ciência não são a mesma coisa, nem respondem necessariamente às mesmas questões. A ciência investiga fenômenos naturais por meio de observações, evidências e métodos verificáveis; a fé procura, entre outras coisas, sentido, propósito e uma relação com o transcendente. Quando cada uma respeita seus limites, o diálogo se torna possível, sem que uma precise usurpar o lugar da outra. Afinal, ninguém segura a verdade inteira nas mãos, por mais que goste de falar como se fosse seu único proprietário. Talvez a síntese que procuro não esteja numa fórmula capaz de resolver todas as controvérsias, mas numa postura diante da vida: ler o livro da Escritura com reverência, o livro da natureza com os olhos bem abertos e a consciência disposta a aprender. E jamais esquecer que, para quem acredita, ambos remetem ao mesmo Autor. Porque, se a fé nos ensina a contemplar, a ciência nos convida a investigar; e, quando há humildade nas duas caminhadas, até as perguntas podem se tornar pontes entre aquilo em que acreditamos e aquilo que ainda precisamos compreender.

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