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MINHAS PÉROLAS

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(31) A SABEDORIA ENTRE O DIVINO E O HUMANO

 


Ensaio Teológico VIII(31) A SABEDORIA ENTRE O DIVINO E O HUMANO

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Minha avó nunca leu Sócrates, mas lia o Salmo 23 em voz alta e sabia, pelo cheiro do vento, a hora de recolher a roupa do varal e a hora de calar. Quando penso em sabedoria, é a cozinha dela que me vem primeiro à memória, não os livros. Ali, entre o cheiro do café, o barulho das panelas e as pequenas lições da vida, aprendi que nem todo saber precisa de diploma, muito menos de palavras difíceis. E é justamente aí que nasce meu impasse: chamar aquilo de sabedoria divina ou humana? Qualquer uma das respostas faria justiça à minha avó, mas a pergunta, tão antiga quanto a própria busca pelo conhecimento, não se resolve assim, de uma hora pra outra.

Começo pela humildade, porque talvez seja por aí que a sabedoria dê seus primeiros passos. Na Apologia, Platão apresenta Sócrates como alguém que se julgava mais sábio que seus concidadãos justamente por não imaginar saber aquilo que ignorava. A tradição resumiu essa ideia na expressão "só sei que nada sei", uma paráfrase, e não uma citação literal. Gosto dessa lição porque ela cutuca uma ferida antiga do ser humano: a presunção de achar que sabe tudo. Quem transforma a sabedoria em propriedade particular, como se pudesse guardá-la no bolso ou pendurá-la na parede, já começou a perdê-la. Afinal, nenhuma instituição, seja religiosa ou acadêmica, pode bater no peito e se declarar dona exclusiva do conhecimento. A sabedoria não cabe numa prateleira, nem se curva diante de títulos.

Seria cômodo, confesso, trazer Paulo para o meu lado e encerrar a discussão com uma passagem bíblica. Mas o apóstolo escreve, em 1 Coríntios 3:19, que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus. Não quero fugir dessa afirmação, muito menos fingir que ela não apresenta um desafio à minha maneira de pensar. Prefiro encará-la de frente: entendo que Paulo condena a vaidade de quem transforma o saber em troféu, instrumento de orgulho e superioridade, e não necessariamente o exercício do pensamento. Afinal, o próprio apóstolo cita poetas pagãos no Areópago (Atos 17:28) e reconhece a lei inscrita no coração dos gentios (Romanos 2:14-15). Há, portanto, espaço para reconhecer que a verdade também pode ser percebida fora das fronteiras religiosas. Sei que a tradição cristã sustenta que toda sabedoria verdadeira vem de Deus, como afirma Provérbios 1:7. Respeito essa convicção, mas divirjo quanto ao método: uma tese protegida de qualquer possibilidade de contestação corre o risco de deixar de ser uma busca e virar apenas uma certeza fechada sobre si mesma. Por isso, prefiro reconhecer a sabedoria onde ela aparece, sem exigir que todos concordem sobre sua origem. Cada tradição que explique de onde acredita que ela vem; eu quero, antes de tudo, aprender a reconhecê-la.

E essa sabedoria, vejam só, tem endereço, rosto e mãos calejadas. Está nos Kayapó, que há gerações cultivam os apêtê, ilhas de floresta no cerrado, por meio de práticas de manejo documentadas durante décadas pelo etnobiólogo Darrell Posey. Está também na parteira que conhece os sinais do corpo, no pescador que lê o movimento das águas e em tantas pessoas que aprenderam com a experiência aquilo que nenhum livro, sozinho, conseguiria ensinar. E chega até as fronteiras da genética, onde o avanço científico nos permite fazer coisas antes inimagináveis, mas também nos obriga a enfrentar uma pergunta que não pode ser respondida apenas com conhecimento técnico: "devemos?", e não simplesmente "podemos?". Eis a questão! Saber fazer alguma coisa não significa, necessariamente, saber se devemos fazê-la. É nesse ponto que conhecimento e responsabilidade precisam caminhar juntos, porque nem toda porta que a ciência consegue abrir deve ser atravessada sem reflexão.

Jó pergunta onde a sabedoria pode ser encontrada (Jó 28:12), e gosto de pensar que essa inquietação atravessa os séculos sem perder a força. O crente pode enxergar na pergunta um chamado à transcendência; quem não professa uma religião pode encontrar nela o reconhecimento dos limites humanos. São caminhos diferentes, mas ambos podem nos conduzir à humildade de admitir que ainda temos muito a aprender. Se a sabedoria é "a coisa principal" (Provérbios 4:7) e nenhum de nós consegue possuí-la por inteiro, não seria mais sensato ouvir uns aos outros, em vez de disputar quem tem a última palavra? Talvez a grandeza do saber esteja justamente em reconhecer aquilo que nos falta. No fim das contas, volto à cozinha da minha avó: ela nunca precisou ler Sócrates para me ensinar que a vida exige atenção, prudência e respeito. Talvez ser sábio seja isso mesmo: manter a porta aberta, o ouvido atento e a mão estendida a quem chega por outro caminho. Afinal, se o conhecimento pode nos mostrar o que existe, é a sabedoria que nos ajuda a decidir como viver diante disso.

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