Ensaio Teológico VIII(12) A Sabedoria das Mãos: Entre a Fé, a Ciência e a Responsabilidade Humana
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Meu avô lavrava a terra com uma enxada de cabo gasto e, quando lhe perguntavam de onde vinha tanto saber, respondia sem cerimônia: "Deus ensina a gente". Eu, adolescente e apressado, achava aquilo um jeito bonito de não explicar nada. Afinal, queria respostas, explicações, argumentos; não me contentava com a simplicidade de uma frase que, na minha imaturidade, parecia encerrar a conversa antes mesmo de começar. Hoje, porém, diante de uma tela que põe o mundo na palma da mão, é justamente ele quem me volta à memória. Percebo, agora, que aquela resposta carregava uma sabedoria que eu ainda não tinha aprendido a enxergar. Isaías já dizia que o lavrador recebe instrução para realizar seu trabalho e reconhecia a sabedoria do Senhor, "maravilhoso em conselho e grande em sabedoria" (Isaías 28:26-29). Falamos de inovação com espanto, orgulho ou medo, mas raramente com gratidão. E se, em vez de enxergarmos a criatividade apenas como conquista humana, também a reconhecêssemos como uma dádiva antiga?
Tiago afirma que toda boa dádiva vem do alto, do "Pai das luzes" (Tiago 1:17), e é aí que encontro uma das raízes teológicas da criatividade. Em Êxodo 31:1-5, Deus enche Bezalel de seu Espírito, concedendo-lhe sabedoria, entendimento e habilidade para trabalhar metais, madeira e pedra. Veja só que interessante: entre as primeiras figuras bíblicas explicitamente descritas como capacitadas pelo Espírito para uma tarefa específica está um artesão, não um profeta ou sacerdote. Isso nos convida a ampliar nossa compreensão do sagrado: Deus também pode ser reconhecido no trabalho das mãos, na inteligência aplicada e na habilidade de transformar a matéria. Provérbios 8 reforça essa percepção ao apresentar a Sabedoria falando de conselho, justiça e governo. O espiritual e o prático, portanto, não precisam ser adversários; podem ser duas faces de uma mesma busca por compreensão. Separá-los rigidamente é empobrecer ambos, como sugere a conhecida máxima atribuída a Einstein: a ciência sem religião é manca, e a religião sem ciência é cega.
Mas, não dá para contornar a sombra que acompanha essa luz: se toda boa dádiva vem do alto, o que dizer das invenções que destroem? A mesma engenhosidade capaz de produzir vacinas e salvar vidas também foi empregada na fabricação de gases venenosos e de outras armas de extermínio. Confesso que não tenho uma resposta capaz de dissolver essa dor. A Bíblia, contudo, não ignora a ambiguidade da capacidade humana. Gênesis menciona um artífice que trabalhava o bronze e o ferro (4:22), mas também narra a construção da torre de Babel (11:1-9), episódio que levanta questões sobre orgulho, poder e ambição coletiva. Em outra passagem, Isaías anuncia um horizonte de paz no qual as espadas serão transformadas em relhas de arado (2:4). Eis uma imagem poderosa: o instrumento que fere pode ceder lugar à ferramenta que cultiva. A capacidade é dádiva; o uso, responsabilidade. E, como ensina a reflexão filosófica associada a Descartes, não basta ter bom espírito; é preciso saber empregá-lo bem.
Essa sabedoria, a meu ver, não pertence exclusivamente aos que professam uma religião. O agricultor que conhece a terra, a engenheira que projeta uma ponte e o programador que desenvolve uma ferramenta participam, cada qual à sua maneira, dessa aventura humana de compreender e transformar a realidade. Se o mundo é inteligível e somos capazes de investigar seus mistérios, a criatividade floresce justamente desse encontro entre curiosidade, experiência e conhecimento. A fé pode interpretar essa capacidade como dádiva divina; a ciência, por sua vez, investiga os processos pelos quais ela se manifesta. Não precisamos apagar as diferenças entre essas perspectivas para reconhecer que ambas podem contribuir para uma reflexão séria sobre o que fazemos com aquilo que sabemos.
Meu avô já não está aqui para ouvir o que entendi tarde. Ainda assim, imagino que sorriria e repetiria, sem cerimônia, que Deus ensina a gente. Hoje, eu acrescentaria ao seu ensinamento uma reflexão que a vida, a leitura e tantos anos de experiência me ajudaram a amadurecer: essa sabedoria também nos ensina a agradecer, a discernir e a transformar nossas invenções em instrumentos de cuidado. Afinal, de pouco vale descobrir como fazer alguma coisa se não nos perguntamos para que ela servirá e a quem poderá beneficiar. Se a criatividade humana reflete, ainda que de longe, a imagem daquele que nos criou com sabedoria, cada ferramenta nova se torna mais do que uma conquista técnica: transforma-se numa pergunta sobre quem somos e numa escolha sobre quem desejamos ser. No fim das contas, não basta iluminar o mundo com nossas descobertas; precisamos decidir, com discernimento, prudência e coragem, a serviço de que luz queremos colocá-las.


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