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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(34) A SABEDORIA: DOM DIVINO OU CONSTRUÇÃO HUMANA?

 


Ensaio Teológico VIII(34) A SABEDORIA: DOM DIVINO OU CONSTRUÇÃO HUMANA?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Houve um tempo em que eu repetia, sem pestanejar, que a sabedoria vinha de cima. Aprendi isso cedo, entre cantos, cadeiras de plástico e aquele cheiro de café requentado dos domingos. Na época, eu confundia a segurança de repetir com a certeza de compreender. Depois vieram uma decepção, uma pergunta sem resposta e uma noite comprida, daquelas em que o silêncio faz mais perguntas do que a gente consegue responder. Foi então que percebi: repetir uma verdade recebida não significa, necessariamente, ter compreendido o que ela quer dizer. Dessa inquietação nasceu a questão que conduz esta reflexão: a sabedoria é algo que se recebe ou algo que se constrói? Não trago um veredicto debaixo do braço, muito menos uma resposta definitiva. Tenho apenas uma inquietação que, desconfio, merece mais respeito do que qualquer sentença apressada.

Começo pelo que a tradição afirma. Muitos cristãos, entre eles os evangélicos, compreendem a sabedoria como dom divino e caminho a ser percorrido. O livro de Provérbios recomenda buscá-la "como prata" (Pv 2.4) e declara que "o Senhor dá a sabedoria" (Pv 2.6). Tiago, por sua vez, aconselha aquele que carece dela a pedi-la a Deus (Tg 1.5). Não se trata de ingenuidade, mas de uma convicção antiga, presente também no pensamento de Agostinho e Tomás de Aquino, para quem fé e razão não precisam viver de costas uma para a outra. Por isso, procuro não combater um espantalho, daqueles que a gente mesmo fabrica para derrubar com facilidade. Afinal, existe fé que pensa, questiona e busca compreender, assim como existe fé que apenas repete o que ouviu. A questão, portanto, é outra: o que significa, de fato, "receber" sabedoria? Se a ideia for a de uma espécie de transmissão sobrenatural que dispensa estudo, reflexão e esforço, a própria experiência humana nos obriga a desconfiar, pois ninguém acorda sábio de uma hora para outra. Mas, se entendermos esse dom como uma graça que acompanha a disposição de estudar, escutar, refletir e aprender com os próprios erros, a distância entre a tradição religiosa e a razão diminui consideravelmente. Por outro lado, afirmar que a sabedoria nasce exclusivamente da razão humana também exige argumentos. E, para ser sincero, não encontrei uma resposta pronta que encerre essa discussão.

Há outra questão que me incomoda: quando buscamos a sabedoria apenas para conquistar o favor divino, corremos o risco de transformar o conhecimento numa espécie de moeda de troca. Aprender para receber uma recompensa é diferente de aprender porque reconhecemos o valor do próprio saber. Sócrates defendia a importância de uma vida examinada, uma existência submetida à reflexão, e não simplesmente organizada em função de vantagens. Aristóteles, por sua vez, abre a Metafísica afirmando que todos os seres humanos desejam naturalmente conhecer. E o próprio livro de Provérbios apresenta a sabedoria como caminho de vida, não como mercadoria a ser negociada com Deus. Talvez a motivação mais genuína seja amar o conhecimento pelo que ele é, sem transformá-lo num instrumento de barganha. Digo talvez porque isso, para mim, ainda é uma hipótese a ser examinada, não uma verdade que pretendo impor. Também percebo um perigo dos dois lados: dividir as pessoas entre "bons ouvintes" e "preguiçosos teimosos" é simplificar demais a complexidade humana. Ora, cada pessoa chega ao conhecimento por estradas diferentes, carregando pesos que nem sempre aparecem aos olhos dos outros. Pensemos na criança que não teve acesso à escola, no trabalhador que chega em casa exausto ou naquele homem que, depois de tantas decepções, já não consegue confiar facilmente na palavra de ninguém. Será justo medir todos pela mesma régua? Eu mesmo, que critico esse tipo de divisão, quase caí na armadilha ao imaginar o crente como adversário da razão. Felizmente, questionar também é reconhecer quando nosso próprio pensamento precisa de correção.

É por isso que proponho uma humildade de duas mãos. Ao fiel, faço um convite: reconheça que perguntar não é pecado e que a dúvida, quando nasce de uma busca sincera, pode ser também uma forma de reverência. Questionar não significa, necessariamente, abandonar a fé; às vezes, significa apenas recusar uma fé que não nos permite compreender aquilo em que acreditamos. Ao cético, dirijo outro convite: reconheça que a razão também pode construir seus dogmas e que nem tudo o que importa na existência humana cabe, sem perdas, dentro de um experimento. Isso não significa abandonar o pensamento crítico, mas admitir que a realidade é maior do que nossas explicações sobre ela. Nesse encontro entre fé e razão, a sabedoria deixa de ser troféu para se tornar caminhada. Há espaço tanto para quem acredita tê-la recebido de Deus quanto para quem continua procurando compreendê-la por meio da experiência, do estudo e da reflexão. Quanto a mim, sigo no meio do caminho, sem a pretensão de ter chegado ao fim da estrada. Já não repito com a mesma facilidade aquilo que não compreendo e aprendi a escutar melhor quem pensa diferente. Se a sabedoria é um dom, que me alcance enquanto caminho, estudo e aprendo a reconhecer meus limites. Se é uma construção humana, que eu tenha coragem, paciência e humildade para continuar edificando. Em qualquer dos casos, há algo que não quero perder: a capacidade de me espantar diante da vida, de rever minhas certezas e de continuar perguntando. Afinal, talvez a sabedoria comece justamente quando a gente deixa de se preocupar tanto em ter a última palavra e passa a levar a sério a pergunta que ainda não conseguiu responder.

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