Ensaio Teológico VIII(24) A Sabedoria que Brinca Diante do Mundo
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há textos que pedem para ser lidos de joelhos; outros, de olhos bem abertos. Provérbios 8 pede as duas coisas. Nesse capítulo, a Sabedoria toma a palavra e diz que o Senhor a possuiu “no princípio de seus caminhos”, antes das profundezas, antes das fontes carregadas de águas. Ela estava ao lado dele como mestre-de-obras, “brincando diante dele em todo tempo” (Pv 8,22-31). Convenhamos: quem passa os olhos por essa página sem sentir o chão se mover um pouquinho talvez ainda não tenha percebido a grandeza do que está lendo.
A tradição cristã, com razão, enxergou nesse texto algo que vai além da poesia. Os Padres da Igreja reconheceram na Sabedoria preexistente um prenúncio do Logos, e o prólogo do Evangelho de João, assim como o hino de Colossenses, parece ecoar essa mesma intuição: por meio dela, “todas as coisas foram feitas”. É uma leitura antiga, respeitável, sustentada por séculos de oração, reflexão e pensamento teológico. Não a desprezo; pelo contrário, aprendo com ela. Afinal, dialogar com a tradição não significa aceitar cada interpretação sem examiná-la, mas também não exige jogar fora o que gerações de pensadores construíram antes de nós.
Meu desconforto, porém, nasce de outro lugar. Quando lemos Provérbios como se o texto nos entregasse o registro de uma entidade separada, existente antes das águas, quase como quem consulta a certidão de nascimento de um ser cósmico, corremos o risco de exigir da poesia um serviço que ela nunca se propôs a prestar. O hebraico hokmah é um substantivo feminino, e o sábio de Israel transforma a Sabedoria numa voz que clama nas praças, convida para o banquete e brinca como uma criança. Estamos diante de uma personificação, recurso precioso da literatura sapiencial, que dá voz, rosto e movimento a uma realidade abstrata para torná-la compreensível à experiência humana. Agostinho, ao refletir sobre as Escrituras, chamava a atenção para a humildade de sua linguagem como expressão de misericórdia para com os pequenos. Por isso, convém citá-lo com o devido cuidado, indicando a obra e a passagem, em vez de me apoiar numa frase solta. A mesma prudência vale para a ideia de que a compreensão do mundo exige olhares diversos: Chomsky e tantos outros pensadores poderiam defendê-la à sua maneira, mas não seria honesto atribuir-lhes uma frase específica sem uma fonte que a confirme. A busca pela verdade também exige que saibamos distinguir aquilo em que acreditamos daquilo que podemos demonstrar.
E o que resta, então, da Sabedoria? Resta muito — talvez até mais do que imaginamos. Se não precisamos entendê-la como um ser solitário que existia antes do tempo, podemos reconhecê-la na própria marca de Deus impressa na textura do universo: na simetria de um floco de neve, na silenciosa precisão de uma célula que se divide, na gravidade que curva o espaço-tempo ao redor de uma estrela. Já me peguei diante de um céu aberto no interior, longe das luzes da cidade, contemplando aquela imensidão e sentindo que o universo não era apenas grande: era inteligível. Havia nele uma ordem que convidava à descoberta, como se cada estrela, cada silêncio e cada mistério me provocassem a olhar mais fundo. Foi nesse espanto que encontrei uma maneira de chamar essa experiência de Sabedoria. Não uma abstração suspensa acima do mundo, distante da vida e dos nossos sentidos, mas uma ordem generosa que se deixa investigar, embora nunca se entregue por inteiro.
É daí que nasce uma conclusão que me parece mais fiel tanto ao texto quanto à nossa condição humana. Não precisamos escolher entre a sabedoria que vem do alto e o conhecimento que se constrói aqui na terra. Quando o astrônomo mede a distância entre as estrelas, o biólogo observa a vida, o teólogo medita sobre o mistério e o poeta escuta aquilo que as palavras mal conseguem dizer, todos caminham, por trilhas diferentes, em busca de vestígios da mesma realidade. Isso não significa que ciência, teologia e poesia sejam a mesma coisa, nem que suas respostas possam ser avaliadas pelos mesmos critérios. Cada uma tem seus métodos, suas perguntas e seus limites. Ainda assim, todas podem nos ajudar a perceber que o mundo é maior do que aquilo que conseguimos apreender de imediato. O conhecimento humano, tecido de observação, reflexão e diálogo, não precisa ser inimigo da Sabedoria; pode ser um dos caminhos pelos quais nos aproximamos dela.
Se a Sabedoria brinca diante de Deus, como sugere a imagem poética de Provérbios, talvez também brinque, de certa forma, diante de nós. Está no enigma que desafia o cientista, na pergunta que inquieta o filósofo, na passagem bíblica que resiste às interpretações apressadas e no céu que nos devolve o silêncio quando pensamos ter encontrado todas as respostas. Ela nos convida a participar desse jogo sem transformar o mistério em superstição, mas também sem reduzir a existência àquilo que pode ser medido. Brincar de volta significa investigar com rigor, contemplar com reverência e reconhecer, com humildade, que aprender a medir o universo não é o mesmo que esgotar seu significado. Afinal, há uma sabedoria especial em descobrir cada vez mais sem perder a capacidade de se maravilhar.


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