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MINHAS PÉROLAS

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(35) A SABEDORIA É UMA JORNADA: APRENDER A VIVER SEM TER TODAS AS RESPOSTAS

 


Ensaio Teológico VIII(35) A SABEDORIA É UMA JORNADA: APRENDER A VIVER SEM TER TODAS AS RESPOSTAS

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Há perguntas que não se resolvem de uma vez por todas: elas habitam a gente, acompanham nossos passos e, vez ou outra, tiram nosso sono. A pergunta sobre como viver plenamente é uma delas. Levei-a para a oração, para os livros e para as madrugadas de reflexão, mas sempre voltei com a mesma suspeita: a sabedoria é uma jornada, e nenhum mapa, por melhor que seja, dá conta de todo o território. Numa dessas noites de dúvida, quando as certezas da infância já não me serviam como antes, 1 Coríntios 13.12 falou comigo de outro jeito. Encontrei ali a confissão de um apóstolo que reconhece suas limitações, admitindo que ainda vê de maneira incompleta, como quem se olha num espelho de bronze e contempla uma imagem turva. Foi então que percebi algo importante: a humildade de reconhecer os limites do próprio conhecimento não nasce contra a Escritura, mas dentro dela.

Reparei, sobretudo, na ordem dos verbos usados por Paulo: conheço em parte, mas sou plenamente conhecido. Eis aí uma mudança e tanto de perspectiva! O autoconhecimento cristão não começa apenas em mim, no esforço de examinar meus pensamentos, minhas escolhas e minhas contradições, mas também no olhar de um Outro que já me conhece por inteiro. Sócrates nos convida a conhecer a nós mesmos; Paulo, por sua vez, acrescenta uma dimensão que amplia essa busca: somos também seres conhecidos, mesmo quando ainda não conseguimos compreender tudo a nosso respeito. Por isso, posso encarar o espelho sem tanto medo de minhas imperfeições. É nesse ponto que o diálogo com a filosofia deixa de ser uma concessão e se torna uma necessidade. Martha Nussbaum, herdeira do pensamento de Aristóteles, defende que uma vida boa não se mede apenas pela renda ou pela doutrina professada, mas pelas possibilidades reais de cada pessoa desenvolver suas capacidades, como cuidar da saúde, pensar, amar, brincar e participar da vida em sociedade. Reconheço algo dessa compreensão no fruto do Espírito apresentado em Gálatas 5.22-23: ali se desenha uma vida humana que floresce, não apenas alguém que obedece a regras. Digo isso com cuidado, porque não se trata de condenar toda experiência religiosa, mas de reconhecer um risco: quando a fé se reduz à vigilância doutrinária, seus frutos podem acabar tratados como simples enfeites, quando deveriam revelar a qualidade da vida que cultivamos.

E por que não ampliar ainda mais esse horizonte? Amartya Sen mostrou que o desenvolvimento humano não consiste apenas em acumular riquezas, mas em expandir as liberdades reais que permitem às pessoas escolher e realizar aquilo que valorizam. Kwasi Wiredu, por sua vez, defendeu a necessidade de examinar criticamente os conceitos de cada tradição, fazendo da conversação respeitosa um caminho para a busca da verdade. Esses pensadores me ajudam a compreender que nenhuma tradição, por mais rica que seja, pode falar sozinha em nome de toda a humanidade. Sei que alguém pode objetar que Provérbios 2.6 afirma que a sabedoria vem de Deus, sem apresentar explicitamente a pluralidade de suas fontes. A objeção merece ser considerada. Mas faço uma pergunta: se toda sabedoria procede de Deus, por que eu deveria desprezar uma verdade apenas porque ela foi percebida por alguém de outra cultura, tradição ou perspectiva filosófica? Se encontro uma reflexão valiosa em Atenas, em Acra ou em Calcutá, posso acolhê-la sem precisar renunciar à minha fé. Afinal, o próprio Paulo, no Areópago, dialogou com o pensamento grego e recorreu a palavras de poetas daquela tradição. O exemplo me ensina que escutar o outro não significa abandonar as próprias convicções, mas reconhecer que a verdade não precisa ser temida só porque também pode ser percebida fora dos limites do nosso grupo.

É claro que abertura sem discernimento vira dispersão. Não basta ouvir tudo, aceitar tudo e chamar isso de sabedoria. A própria Escritura oferece um princípio para essa caminhada: "Examinai tudo. Retende o bem" (1Ts 5.21). Gosto dessa orientação justamente porque ela não manda fechar os olhos, tapar os ouvidos ou desconfiar de antemão de tudo o que vem de fora. Manda examinar. O pluralismo que defendo não é uma mistura indiscriminada de ideias, mas a disposição de escutar diferentes vozes, confrontar argumentos e discernir o que contribui para uma vida mais justa, consciente e plena. É nessa mesma direção que compreendo o convite de Romanos 12.2 à renovação da mente: preciso permitir que a Escritura me leia enquanto eu a leio, que a filosofia questione minhas certezas, que a ciência me apresente evidências e que a experiência de outros povos me ensine aquilo que, sozinho, talvez eu nunca descobrisse. Nem sempre esse encontro será confortável; às vezes, vai mexer em convicções antigas e me obrigar a rever caminhos. Ainda assim, prefiro o desconforto de uma pergunta honesta à tranquilidade artificial de uma certeza que não aceita ser examinada.

No fim das contas, talvez a vida plena não consista em chegar a um ponto em que todas as perguntas estejam respondidas, mas em aprender a caminhar sem transformar nossas respostas provisórias em verdades intocáveis. A fé que não suporta perguntas pode esconder fragilidade; a que as acolhe, examina e enfrenta com honestidade revela confiança. Não preciso saber tudo para continuar buscando, nem concordar com todos para aprender alguma coisa com cada um. Talvez a sabedoria seja justamente essa travessia: olhar para o espelho turvo sem desespero, ouvir vozes diferentes sem perder a própria consciência e seguir adiante, mesmo sabendo que meu conhecimento é limitado. Se vejo em parte, mas sou plenamente conhecido, posso reconhecer meus limites sem fazer deles uma prisão. Afinal, a jornada continua, e ainda há muito a aprender, muito a rever e muito a viver. Por ora, isso basta para continuar caminhando.

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