Ensaio Teológico VIII(36) A SABEDORIA E O MEDO: DA COERÇÃO À LIBERDADE DE PENSAMENTO
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Aprendi cedo que certas perguntas não se faziam em voz alta. Não havia proibição escrita, nem precisava. Bastava o silêncio que caía sobre a sala, o olhar atravessado de quem se sentia incomodado ou aquela frase pronta, repetida como se encerrasse qualquer discussão: “é o temor do Senhor que nos guarda”. Cresci entendendo que duvidar era quase um desacato, uma espécie de rebeldia contra o sagrado, e que a obediência silenciosa representava a forma mais elevada de sabedoria. Só muito tempo depois comecei a perceber o preço daquela educação pelo medo. Quanta pergunta ficou entalada na garganta? Quantas ideias deixei de explorar, quantas possibilidades de aprendizagem abandonei, sem sequer me dar conta? Pois é, há silêncios que não fazem barulho, mas vão apagando, devagarinho, partes importantes de quem somos.
Com o tempo, compreendi que esse silêncio não nasce do nada. Em determinados ambientes religiosos, exige-se a aceitação irrestrita da chamada “Sabedoria”, quase sempre acompanhada de um vocabulário de ameaças. Quem questiona “esfria”, “se perde”, “dá lugar ao inimigo”, enquanto o destino de quem rejeita as orientações estabelecidas é anunciado em tons de condenação e ruína. Convém esclarecer: não estou falando de todos os crentes, muito menos ignorando aqueles que encontram na dúvida uma forma sincera de aprofundar a própria fé. Conheço a importância da experiência religiosa na vida de muita gente. Minha crítica se dirige a uma pedagogia específica: aquela que transforma o medo em método de ensino e confunde obediência com compreensão, como se repetir uma verdade fosse o mesmo que entendê-la. Ora, uma coisa é respeitar uma convicção; outra, bem diferente, é proibir que alguém examine os fundamentos dessa convicção.
O mais irônico é que essa postura costuma encontrar respaldo em Provérbios 1.7: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Seria fácil, talvez até tentador, transformar o versículo em adversário e atribuir à própria Escritura a responsabilidade por tudo o que se fez em seu nome. Mas isso seria uma leitura apressada, daquelas que condenam o texto sem examinar as interpretações construídas ao redor dele. No hebraico, a expressão yirat YHWH está associada ao temor reverente diante de Deus, uma atitude que envolve respeito, assombro e reconhecimento dos próprios limites, não necessariamente terror ou submissão cega. Nessa perspectiva, o versículo não precisa ser entendido como uma ordem para calar, mas como um convite à humildade e à aprendizagem. Afinal, reconhecer que não sabemos tudo deveria nos tornar mais dispostos a aprender, e não mais receosos de perguntar. O problema, portanto, não está necessariamente no texto bíblico, mas no uso que se faz dele quando a reverência vira ameaça e o princípio da sabedoria, que deveria abrir uma caminhada, passa a ser tratado como ponto final.
Para enfrentar essa confusão, vale chamar alguns interlocutores que, embora venham de caminhos diferentes, ajudam a iluminar a questão. Bertrand Russell nos convida a reconhecer os limites do conhecimento e a desconfiar das certezas que se julgam intocáveis. Afinal, quem acredita já possuir todas as respostas fecha as portas para aquilo que ainda poderia aprender. Chimamanda Ngozi Adichie, por sua vez, alerta para “o perigo de uma história única”, mostrando como uma narrativa exclusiva pode reduzir pessoas e culturas a uma imagem incompleta, apagando suas diferenças, experiências e possibilidades. E o que acontece quando, no campo religioso, uma única interpretação recebe o direito de falar em nome de toda a verdade? Acontece que as perguntas desaparecem, as experiências divergentes são desconsideradas e, pouco a pouco, pessoas inteiras deixam de caber no discurso oficial. Quando a Sabedoria se transforma numa voz única, não é apenas o pensamento que empobrece: são vidas humanas que perdem o direito de se expressar e de participar da construção do conhecimento.
É nesse ponto que Paulo Freire nos oferece uma chave preciosa: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.” Essa afirmação desmonta duas ilusões de uma só vez. A primeira é a do mestre que acredita libertar os outros pela imposição de suas próprias certezas, como se ensinar fosse depositar respostas prontas na cabeça de quem aprende. A segunda é a do indivíduo que imagina poder construir sozinho todo o conhecimento de que necessita. A verdadeira aprendizagem exige encontro, escuta e participação. Ninguém precisa abrir mão de suas convicções para dialogar, assim como discordar não significa, necessariamente, desrespeitar. A sabedoria que liberta é um trabalho a muitas mãos, tecido com diálogo, divergências, paciência e disposição para rever caminhos. É nesse exercício que o conhecimento deixa de ser instrumento de controle e passa a ser possibilidade de emancipação.
Por isso, recuso-me a escolher entre a fé e a liberdade de pensamento, como se uma precisasse sufocar a outra para sobreviver. Prefiro uma fé tão firme que não tenha medo de ser interrogada e uma dúvida tão honesta que também esteja disposta a escutar. Não vejo sabedoria em aceitar tudo sem exame, assim como não vejo lucidez em rejeitar tudo por princípio. O caminho exige discernimento, humildade e coragem. A busca da sabedoria é, sim, um empreendimento nobre, mas só merece esse nome quando não carrega a mão do medo sobre o ombro de quem pensa. Se o temor do Senhor é o princípio da sabedoria, que seja um temor nascido da reverência, capaz de nos fazer reconhecer nossa pequenez sem transformar essa condição em prisão. Que seja o temor de quem se ajoelha, se levanta e continua perguntando, não o de quem se cala para escapar da punição.
Hoje, quando uma pergunta me sobe à garganta, já não a engulo como fazia antigamente. Deixo-a sair, ainda que a voz trema e que a resposta não venha na hora. Aprendi que perguntar não é necessariamente afrontar, assim como duvidar não significa abandonar a fé. Às vezes, é justamente a pergunta que impede a crença de virar repetição mecânica e abre espaço para uma compreensão mais profunda daquilo em que acreditamos. Continuo aprendendo, errando, revendo ideias e reconhecendo que ainda há muito a descobrir. E talvez seja essa a lição que mais demorei a compreender: a sabedoria não exige que eu saiba todas as respostas, mas que tenha coragem de procurá-las sem transformar o medo em senhor do meu pensamento. Afinal, se a sabedoria abre caminhos, a coragem é a primeira porta que precisamos atravessar.


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