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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(33) A SABEDORIA ENTRE A OBEDIÊNCIA E A EXPERIÊNCIA

 


Ensaio Teológico VIII(33) A SABEDORIA ENTRE A OBEDIÊNCIA E A EXPERIÊNCIA

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Aos dezenove anos, ouvi de um velho pastor um conselho que, na minha teimosia juvenil, não quis escutar: eu não devia assumir sozinho um compromisso para o qual ainda não tinha ombros. Sorri, fiz pouco caso e segui pelo caminho contrário. Seis meses depois, lá estava eu, sentado numa calçada, com um café frio no copo de papel e a vergonha inteira pesando no peito. Foi naquele instante que compreendi o que aquele homem já tinha enxergado muito antes de mim. Quando finalmente o procurei, ele não me disse "eu avisei". Simplesmente me serviu água e ficou em silêncio. Curiosamente, aquele silêncio foi o conselho mais eloquente que já recebi.

Costuma-se dizer que a sabedoria nasce da disposição de ouvir quem já caminhou antes de nós. A tradição bíblica confirma essa verdade: o sábio ouve conselhos (Pv 12.15), enquanto o rei velho que já não aceita advertências vale menos que o jovem sábio (Ec 4.13). Entretanto, a mesma Bíblia que recomenda a obediência não esconde as quedas de quem aprende pelo caminho. Afinal, o justo cai sete vezes e se levanta (Pv 24.16); o salmista reconhece que lhe fez bem ter sido afligido (Sl 119.71); e o próprio Cristo aprendeu a obediência pelo que sofreu (Hb 5.8). Ora, se até a dor pode se tornar mestra, por que desprezar as lições que nascem dos nossos tropeços? Para mim, obediência e experiência nunca foram rivais, mas as duas mãos de um mesmo gesto: uma nos ajuda a evitar certas quedas; a outra nos ensina a levantar quando não conseguimos evitá-las. O filho pródigo e Pedro ilustram bem essa realidade. O primeiro "caiu em si" no chiqueiro (Lc 15.17) e decidiu voltar para o pai. O segundo, mesmo advertido de antemão, precisou conhecer a dor da própria negação para experimentar o arrependimento e, depois de restaurado, fortalecer os irmãos (Lc 22.32; Jo 21).

A psicologia contemporânea também me ajuda a compreender esse mistério, desde que eu a tome como lente, e não como fundamento absoluto. Daniel Goleman, em Inteligência Emocional (1995), destaca a importância de reconhecer as próprias emoções e compreender as alheias. De certo modo, foi isso que o filho pródigo começou a fazer quando, no fundo do poço, percebeu a distância entre a vida que levava e aquela que poderia reconstruir. Carol Dweck, em Mindset (2006), distingue a mentalidade de quem enxerga as próprias capacidades como algo fixo daquela que as considera passíveis de desenvolvimento. Nessa perspectiva, o erro pode ser fonte de informação, não uma sentença definitiva, embora o crescimento também exija estratégia, persistência e ajuda. Brené Brown, em A Coragem de Ser Imperfeito (2012), chama a atenção para a coragem de se expor à possibilidade do fracasso e para o peso da vergonha quando nos isolamos. Afinal, quem cai e se esconde tende a carregar sozinho o peso da própria queda; quem encontra coragem para reconhecer o erro e aceitar ajuda pode transformar a ferida em aprendizado. Até Nietzsche, com a conhecida frase "o que não me mata me fortalece", em Crepúsculo dos Ídolos (1888), merece uma leitura cautelosa: nem toda dor fortalece, nem todo sofrimento produz sabedoria. Às vezes, o que nos salva não é a queda em si, mas a presença de alguém que nos oferece água, respeita nosso silêncio e mantém uma porta aberta para o recomeço. Foi assim que a minha queda deixou de ser apenas vergonha e se tornou lição.

Chego, então, ao ponto central desta reflexão: a sabedoria não consiste em obedecer cegamente, tampouco em acreditar que precisamos experimentar tudo na própria pele. Ela está na arte de ouvir antes de cair e, quando a queda for inevitável ou acontecer por nossa teimosia, ter humildade para aprender com ela. Quem apenas obedece, sem compreender, corre o risco de viver uma fé emprestada, sustentada pelas certezas dos outros. Quem insiste em aprender somente pela própria experiência, por sua vez, pode pagar caro por lições que já estavam disponíveis nos conselhos de quem veio antes. Hoje, quando um jovem me procura com aquele brilho teimoso nos olhos — um brilho que conheço bem, porque já foi meu —, procuro compartilhar o que aprendi, mas também me preparo para servir água. Não posso escolher por ele, muito menos impedir todas as suas quedas. Posso, contudo, oferecer uma palavra, estender a mão e deixar a porta aberta. Se não me ouvir, que encontre dignidade para reconhecer o erro e humildade para recomeçar. Porque, no fim das contas, quem um dia foi acolhido aprende a acolher; quem recebeu ajuda descobre o valor de ajudar. E é nesse movimento, entre conselhos ouvidos, erros reconhecidos e mãos estendidas, que nos tornamos não apenas mais sábios, mas também mais humanos.

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