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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Ensaio Teológico VIII(18) A Sabedoria Garante o Sucesso?

 


Ensaio Teológico VIII(18) A Sabedoria Garante o Sucesso?

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Pergunto-me se a sabedoria garante o sucesso, já que Provérbios 4:7 a chama de "a coisa principal" e, há séculos, essa promessa vem sendo interpretada como uma espécie de contrato de honra e prosperidade. Antes de responder, porém, preciso definir de que sabedoria estou falando. Provérbios 9:10 enraíza-a no temor do Senhor, enquanto a tradição filosófica, desde a phronesis de Aristóteles, entende-a como a capacidade de julgar com lucidez, adaptar-se ao imprevisto e preservar os vínculos humanos. Ora, reduzi-la a um conjunto de "habilidades" até pode torná-la mais precisa, mas também lhe rouba um pouco da alma. Prefiro, portanto, deixar essas duas perspectivas conversarem, sem varrer para debaixo do tapete as diferenças que existem entre elas.

Na prática, entretanto, a promessa nem sempre se cumpre. Conheço gente de juízo admirável que passou a vida contando moedas, como aquela professora de aldeia que ensinou meia cidade a ler e, no fim da carreira, aposentou-se com quase nada. A própria Bíblia não esconde essa contradição. Eclesiastes 9:11 lembra que o pão não pertence necessariamente aos sábios, nem as riquezas aos prudentes. Paulo, em Filipenses 4:12, afirma estar "instruído" tanto para a fartura quanto para a fome. E aqui está o ponto: a sabedoria não o poupou das tempestades da vida, mas o ensinou a atravessá-las sem perder a si mesmo. Afinal, uma coisa é ter o controle das circunstâncias; outra, bem diferente, é aprender a não ser inteiramente dominado por elas.

O mesmo raciocínio vale para as nações. É tentador olhar para a riqueza de um povo e enxergá-la como um selo de aprovação do Céu, como se a prosperidade material fosse um certificado divino de virtude. Mas a realidade é mais complicada. Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber examina as relações entre crenças religiosas e comportamento econômico. Acemoglu e Robinson destacam o papel das instituições inclusivas; Diamond chama a atenção para a geografia e os recursos naturais; e Amartya Sen enfatiza a educação, a saúde e as liberdades concretas. Nenhum desses olhares elimina o valor da sabedoria, mas todos nos ajudam a perceber que ela atua num tabuleiro cujas regras nem sempre escolhemos. Por isso, atribuir tudo à fé ou tudo à razão é, no mínimo, uma forma preguiçosa de interpretar o mundo. Entre a bênção que se espera e a realidade que se enfrenta, há estruturas sociais, oportunidades desiguais e circunstâncias que não se resolvem apenas com boas intenções.

Também não espero que o sábio seja, necessariamente, feliz. A realização pessoal e espiritual é uma jornada intransferível, cheia de escolhas, renúncias e contradições. Até Salomão, que pediu sabedoria e recebeu riqueza e glória, terminou com o coração dividido. Eis uma ironia que merece nossa atenção: ter discernimento não significa estar livre dos próprios conflitos, assim como conhecer o caminho não garante que jamais nos percamos. Concluo, então, que a sabedoria não é moeda de troca, muito menos garantia de sucesso financeiro ou de felicidade permanente. Seu valor está na lucidez com que enfrentamos a fartura e a fome, nos vínculos que conseguimos preservar e na dignidade com que seguimos vivendo, mesmo quando a vida não nos devolve na mesma medida aquilo que oferecemos. Continuo a chamá-la de "a coisa principal", mas já não lhe cobro lucros como se ela fosse um investimento. Porque, pensando bem, talvez o gesto mais sábio seja justamente este: amá-la sem ficar esperando o troco.

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