Ensaio Teológico IX(6) A PRUDÊNCIA, A LOUCURA E A SABEDORIA DO ENCONTRO
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma tentação antiga, tão velha quanto o próprio medo: levantar muros em volta da alma e chamar isso de paz. Não zombo desse desejo, porque sei que ele nasce de uma busca legítima por integridade. Afinal, existe verdade no rigorismo quando nos alerta que aquilo que consumimos e as pessoas com quem convivemos influenciam nossa maneira de pensar e agir. Provérbios 13:20 e 1 Coríntios 15:33 nos lembram disso, e prudência não é pecado. Entretanto, vale prestar atenção ao sentido das palavras: o "andar" do provérbio sugere convivência habitual, enquanto o "tolo" (kesil) é aquele que se fecha ao aprendizado, não simplesmente quem pensa diferente de nós. O texto bíblico alerta contra as más influências, mas não nos manda viver numa quarentena cultural, como se todo mundo de fora fosse uma ameaça.
O problema, a meu ver, começa quando a prudência endurece e vira um sistema de classificação das pessoas. De repente, dividimos o mundo entre "sábios" e "tolos", como quem pretende separar o joio do trigo antes da hora, esquecendo que Jesus adverte contra essa pressa em Mateus 13:29-30. A partir daí, o outro deixa de ser alguém com quem podemos aprender e passa a representar um perigo a ser evitado. Ora, a história da cultura está cheia de exemplos que desmentem essa falsa segurança. Erasmo, no Elogio da Loucura (1511), deu voz a verdades que os sisudos não tinham coragem de admitir. Séculos depois, Foucault, em História da Loucura (1961), examinou como as sociedades constroem a figura do "louco" para afastar aquilo que não conseguem compreender ou controlar. E Paulo, muito antes dos dois, já havia provocado uma reviravolta ao afirmar que Deus escolheu as coisas loucas para envergonhar os sábios (1 Coríntios 1:27). Eis aí uma ironia que merece nossa atenção: quem se apressa em condenar a loucura pode acabar rejeitando justamente aquilo por onde o novo, o criativo e até a sabedoria poderão chegar.
Penso, então, numa jovem criada num lar zeloso, onde não havia televisão e a música "do mundo" aparecia nos sermões como motivo de preocupação. Não havia, necessariamente, maldade naquela atitude, mas amor, cuidado e o desejo sincero de protegê-la. O problema é que, aos dezoito anos, ao entrar na universidade, ela descobriu que não sabia conversar com quem pensava diferente. Aquilo que nunca tinha conhecido lhe parecia perigoso, e o desconhecido, sem mais nem menos, ganhava a aparência de uma ameaça. Sua transformação começou quando uma colega a convidou a conversar sobre o conteúdo das canções, em vez de simplesmente condená-las. Aos poucos, ela percebeu que discernir não é fugir de tudo o que nos desafia, mas aprender a examinar, comparar e fazer escolhas conscientes. Afinal, discernimento não se herda como sobrenome: desenvolve-se na experiência, no diálogo e na disposição de rever certezas. É nessa perspectiva que compreendo a cultura popular, como sugere Henry Jenkins em Cultura da Convergência (2006), como uma espécie de praça pública onde a sociedade conversa consigo mesma. Claro que existem conteúdos nocivos, e não precisamos fechar os olhos para isso. A questão é saber se vamos preparar as pessoas para pensar criticamente ou apenas ensiná-las a obedecer a proibições. A meu ver, a formação do olhar é mais fecunda do que a censura prévia. Com Bakhtin, reconheço que o diálogo entre diferentes vozes amplia as possibilidades de compreensão; no monólogo, ao contrário, nossas certezas correm o risco de apenas ecoar a si mesmas.
Por fim, volto a Paulo, que nos lembra que o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos (1 Coríntios 12:14). Sei que, nesse trecho, o apóstolo fala da igreja e da diversidade de seus dons, não propriamente dos debates culturais. Ainda assim, a imagem nos oferece uma reflexão que vai além desse contexto: se a unidade do corpo depende da existência de membros diferentes, a diferença não é um defeito a ser corrigido, mas parte daquilo que torna a comunhão possível. O mesmo vale para a convivência humana. Quem se fecha numa redoma de afinidades acaba perdendo a oportunidade de ser corrigido, de enxergar outros ângulos e de experimentar aquele espanto que só o encontro com o diferente pode provocar. Por isso, prefiro terminar com um convite, não com uma ordem: sejamos prudentes sem nos tornarmos fechados, firmes sem ficarmos surdos e cuidadosos sem transformar o medo em regra de vida. Diante daquilo que julgamos ser "loucura", que tal escutar antes de condenar? Nem tudo o que nos contraria nos ameaça, assim como nem tudo o que nos conforta nos ensina. Às vezes, a sabedoria bate à porta vestida de estranheza, trazendo uma pergunta que nossas certezas não sabem responder. Se tivermos coragem de abrir a porta, talvez descubramos que o diálogo não enfraquece nossas convicções: ajuda-nos a amadurecê-las. E, de conversa em conversa, podemos nos tornar mais humanos e contribuir para uma sociedade mais justa, hospitaleira e viva.


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