Ensaio Teológico IX(8) DIÁLOGO E TRANSFORMAÇÃO: CONSTRUINDO PONTES, NÃO MUROS
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Acredito que a sabedoria bíblica nos convida a refletir sobre como lidar com quem rejeita conselhos. Em Provérbios 9:7-8, encontro um alerta sobre o escarnecedor, mas me pergunto se essa condição é definitiva ou apenas uma fase da vida. Reconheço que há conversas desgastantes e pessoas que usam o debate para ferir, por isso considero legítimo estabelecer limites, como sugere Mateus 7:6. Entretanto, prefiro distinguir o afastamento necessário de uma condenação permanente: posso interromper uma conversa sem decretar que alguém não tem mais jeito.
Com Carl Rogers, em Tornar-se pessoa (1961), compreendo que a aceitação pode favorecer a transformação, sem significar aprovação dos erros. Eric Kandel e os estudos sobre plasticidade cerebral também me ajudam a reconhecer que as experiências podem modificar o cérebro ao longo da vida, embora nem toda mudança seja garantida. Por isso, não me sinto autorizado a declarar alguém incapaz de mudar. Prefiro manter essa possibilidade como uma aposta ética, reconhecendo que cada pessoa tem sua história, seus limites e seu próprio tempo.
Penso no homem que zombava da fé dos colegas e já era considerado alguém com quem não adiantava conversar. Quando uma colega mais velha decidiu ouvi-lo sem tentar vencê-lo, algo começou a mudar. Essa cena me lembra que uma pergunta sincera pode abrir caminhos que a condenação fecha. Também compreendo, com John Stuart Mill, em Sobre a Liberdade (1859), que o confronto entre opiniões nos ajuda a examinar nossas convicções. Quando me cerco apenas de quem pensa como eu, corro o risco de confundir concordância com verdade e transformar minhas certezas em hábitos nunca questionados.
Na tradição bíblica, encontro em Jesus um exemplo de aproximação: ele se sentava à mesa com publicanos e pecadores (Lucas 15:1-2) e acolheu Zaqueu, cujo encontro com ele foi seguido por mudanças concretas (Lucas 19:1-10). Vejo nisso uma sabedoria que une prudência, responsabilidade e acolhimento. Não preciso aceitar tudo nem permanecer em relações prejudiciais, mas posso evitar que meus limites se transformem em sentenças definitivas sobre os outros. Afinal, acredito que uma sociedade mais justa e compassiva se constrói quando aprendemos a proteger nossa integridade sem perder a humanidade e a construir pontes, em vez de levantar muros contra quem ainda pode mudar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário