Ensaio Teológico IX(9) Curiosidade e Ceticismo: As Chaves para a Sabedoria Moderna
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Numa noite de que já nem me lembro o ano, perguntei a alguém que amava por que o mundo existia. A resposta veio entre um carinho e outro: “isso não se pergunta”. Não guardei rancor, não. Guardei a pergunta. E hoje desconfio de que ela tenha sido uma das primeiras coisas verdadeiramente minhas. Afinal, pensar por conta própria começa, muitas vezes, quando a gente se atreve a perguntar aquilo que os outros preferem deixar quieto. Foi assim que aprendi a desconfiar das vitórias fáceis desta era da informação. Ter acesso a tudo não significa compreender coisa alguma. Do mesmo modo, imaginar que a fé pertence ao território do dogma e a razão, ao da dúvida, é uma caricatura que, durante muito tempo, os dois lados aceitaram sem questionar.
Convém começar pelo poder, porque nem todo conhecimento é sabedoria, embora a sabedoria dificilmente floresça onde o conhecimento não encontra espaço. A expressão “conhecimento é poder” é tradicionalmente associada a Francis Bacon, enquanto Michel Foucault foi além ao mostrar como saber e poder se entrelaçam, influenciando-se mutuamente. Nenhum conhecimento circula completamente livre das relações humanas, nem mesmo aquele que consola, liberta ou promete transformar o mundo. Diante disso, talvez a sabedoria não esteja apenas naquilo que sabemos, mas na maneira como lidamos com o que sabemos. Carol Dweck chamou de “mentalidade de crescimento” a disposição para aprender, rever estratégias e desenvolver capacidades. David Eagleman, por sua vez, ajuda a compreender como o cérebro continua se reorganizando em resposta às experiências e ao aprendizado. Ora, se somos capazes de mudar, por que haveríamos de transformar nossas convicções em prisões? Somos feitos de possibilidades, não de certezas definitivas. Aprender, no fundo, é continuar a nos refazer.
A ciência representa uma das expressões mais rigorosas dessa disposição para aprender. Neil deGrasse Tyson costuma destacar que a realidade não muda conforme nossas crenças: ela continua sendo o que é, acreditemos nela ou não. A pandemia de COVID-19 tornou essa questão concreta, dolorosa e impossível de ignorar. Hipóteses submetidas a testes, resultados avaliados por outros pesquisadores e conhecimentos corrigidos à medida que novas evidências surgiam contribuíram para o desenvolvimento de vacinas que salvaram milhões de vidas. A ciência não avançou porque seus pesquisadores possuíam todas as respostas, mas porque aceitaram o risco de estar errados e trabalharam para corrigir os próprios erros. E a dúvida, vale lembrar, não é propriedade exclusiva dos laboratórios. Agostinho, nas Confissões, retratou a inquietação de um coração que não encontra descanso; Tomás de Aquino estruturou os artigos da Suma Teológica apresentando objeções antes de desenvolver suas respostas; e Paul Tillich reconheceu na dúvida uma dimensão da própria fé, não necessariamente sua negação. Portanto, tachar toda sabedoria religiosa de dogmática é ignorar uma tradição inteira de pensadores que fizeram da inquietação, da reflexão e da busca elementos essenciais de sua caminhada. Fé e razão nem sempre precisam andar de mãos dadas, mas tampouco estão condenadas a viver de costas uma para a outra.
O problema é que, enquanto o conhecimento se multiplica, nossa capacidade de prestar atenção parece encolher. Neil Postman advertiu sobre os efeitos das tecnologias na cultura e no pensamento, especialmente quando o entretenimento passa a ocupar o lugar da reflexão. E não é difícil reconhecer esse cenário: informação chega aos montes, opiniões disputam espaço, notícias envelhecem em minutos e, quando a gente mal começa a pensar sobre um assunto, já aparece outro exigindo atenção. Temos acesso a uma quantidade imensa de conteúdos, mas será que dispomos de tempo e disposição para compreendê-los? É nesse terreno que defendo o ceticismo como um exercício paciente, não como um cinismo apressado. Ser cético não é duvidar de tudo por esporte, muito menos rejeitar qualquer ideia que contrarie nossas convicções. É examinar, comparar, perguntar e, se necessário, reconhecer que estávamos errados. Richard Feynman, ao refletir sobre a beleza de uma flor com um amigo artista que acreditava ter perdido algo ao conhecer sua estrutura científica, mostrou justamente o contrário: compreender seus mecanismos não precisava diminuir seu encanto. Para ele, o conhecimento podia ampliar a beleza, revelando detalhes que o olhar desavisado não alcançava. Carl Sagan também encontrou na ciência uma fonte de assombro e de sentido, mostrando que compreender o universo não precisa apagar o mistério de existir.
No fim das contas, ciência e religião podem nascer do mesmo assombro diante da existência, embora percorram caminhos diferentes e nem sempre cheguem às mesmas conclusões. Ambas, contudo, correm o risco de adoecer quando a pergunta é proibida e a certeza se transforma em dona da verdade. A ciência perde sua força quando se fecha às evidências; a religião perde sua profundidade quando exige obediência sem reflexão. E nós, seres humanos, perdemos a oportunidade de crescer quando confundimos convicção com infalibilidade. Hoje compreendo que aquela pergunta da minha juventude nunca foi o problema. O problema seria ter aceitado o silêncio como resposta definitiva e passado o resto da vida sem querer saber mais. Afinal, a curiosidade nos põe a caminho, o ceticismo nos ajuda a examinar a estrada e a humildade nos permite mudar de rumo quando descobrimos que estamos seguindo na direção errada. Talvez a sabedoria moderna comece justamente aí: na coragem de perguntar, na disposição de aprender e na consciência de que ninguém precisa ter todas as respostas para viver com responsabilidade. Porque manter a mente aberta não significa acreditar em qualquer coisa, assim como ter fé não exige abandonar o pensamento. Significa, antes de tudo, reconhecer nossos limites sem desistir da busca — e compreender que cuidar de nós mesmos e uns dos outros também passa pela maneira como pensamos, acreditamos, duvidamos e aprendemos a conviver com aquilo que ainda não sabemos.


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