ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (48): A Dança dos Dons.
Houve uma época em que eu escrevia. Não estas crônicas. Outra coisa. Eram contos curtos, às vezes poemas, às vezes textos que nem nome tinham. Escrevia sem projeto, sem público e sem destino definido. Fazia isso pela mesma razão que algumas pessoas pegam um violão e tocam sozinhas no quarto: não para serem ouvidas, mas porque existe algo dentro delas que pede movimento. Algo que, se não encontra saída, acaba virando silêncio acumulado.
Foi nessa época que, durante um retiro da congregação, o responsável pela programação me procurou com um pedido. Queria um texto para o encerramento. Um texto reflexivo, disse ele. — "Algo que toque as pessoas." Aceitei sem pensar muito. Afinal, era justamente esse tipo de trabalho que eu gostava de fazer. Passei alguns dias escrevendo, aparando frases, escolhendo palavras, tentando construir algo que fosse sincero antes de ser bonito.
Quando chegou o momento, li o texto para o grupo. As pessoas ouviram em silêncio. Depois aplaudiram. E, por alguns minutos, pensei que a história terminaria ali. Mas, não terminou. Ao final da reunião, o responsável me chamou de lado. Falou com delicadeza, quase com carinho. Era aquele tipo de voz mansa que costuma anteceder uma correção considerada necessária. Então disse: — "Ficou bonito. Mas, da próxima vez, talvez você possa consultar o pastor antes de escrever. Para garantir que está dentro da linha doutrinária."
Sorri. Disse que sim. E nunca mais escrevi nada para aquela congregação. Não foi uma decisão formal, nem um ato de rebeldia planejado. Foi algo mais sutil. Um recolhimento lento. Daqueles que acontecem quando um dom encontra uma burocracia e conclui, em silêncio, que o desgaste não compensa. Continuei escrevendo. Mas, escrevia no quarto. Para ninguém.
O dom permaneceu comigo. A congregação permaneceu com seus textos aprovados, previsíveis, seguros, cuidadosamente alinhados, sem o perigo de tocar em alguma região da alma que ainda não estivesse catalogada pela linha doutrinária. No fim das contas, todos perdemos alguma coisa naquele acordo silencioso. Eu perdi um espaço para servir. Eles perderam uma voz. E o dom perdeu a pista onde poderia dançar.
Talvez seja por isso que sempre penso nesse episódio quando leio Paulo em Romanos 14: "Cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus." Repare bem. Paulo não diz que prestaremos contas da aprovação que recebemos. Não diz que responderemos pela quantidade de autorizações que acumulamos. Não diz que seremos avaliados pela perfeição da nossa conformidade. Ele diz que cada um dará conta de si mesmo. De si mesmo. Dos dons que recebeu. Das oportunidades que teve. E do que escolheu fazer — ou deixar de fazer — com aquilo que lhe foi confiado.
A verdade é que a dança dos dons nunca teve coreografia aprovada por comissão. Ela tem improviso. Tem ritmo próprio. Tem tropeços. Tem passos errados. Tem momentos de beleza inesperada e momentos de completo constrangimento. E é justamente isso que assusta tantas estruturas religiosas. Porque dom em movimento é imprevisível. E o imprevisível é difícil de controlar. É muito mais confortável lidar com pessoas que aguardam autorização para tudo do que com pessoas que entendem que receberam de Deus a responsabilidade de agir.
Mas, dom parado não é sinônimo de humildade. Muitas vezes, é apenas medo vestido de espiritualidade. É desperdício usando linguagem devocional. É potencial transformado em decoração. Voltei a escrever para além do quarto há algum tempo. E, pensando bem, esta série existe por causa daquela noite de retiro. Ela é, em certa medida, a consequência tardia daquela conversa de corredor. É a decisão finalmente amadurecida de parar de pedir licença para colocar no papel aquilo que precisa ser dito.
Custou alguma coisa. Sempre custa. Quando um dom sai do esconderijo, ele também se expõe à crítica, ao julgamento, ao desconforto e à possibilidade do erro. Mas, existe um preço ainda maior. Aprendi isso da pior maneira possível. O preço de manter o dom guardado. O preço de observar a vida passar pela janela enquanto aquilo que você poderia oferecer permanece trancado no quarto. O preço de perceber que as necessidades ao seu redor pedem exatamente o que você tem para dar, e mesmo assim você escolhe permanecer imóvel.
Paulo não escreveu suas cartas esperando aprovação do Sinédrio. Escreveu porque havia algo que precisava ser escrito. E talvez essa seja uma das lições mais difíceis de aceitar. Cada um de nós carrega alguma versão desse mesmo chamado. Há um dom esperando. Uma contribuição esperando. Uma palavra esperando. Um gesto esperando. Algo que permanece no quarto enquanto repetimos para nós mesmos que ainda não é a hora, que ainda não é o momento certo, que alguém mais preparado surgirá para fazer aquilo que sabemos que deveríamos fazer.
Mas, a verdade é que, na maioria das vezes, ninguém vai aparecer. Somos nós. Com nossas limitações. Com nossos medos. Com nossas imperfeições. Com aquilo que temos nas mãos agora. A pista já está aberta. E, quando chegar o dia de dar conta de nós mesmos a Deus, dificilmente a pergunta será apenas sobre os dons que recebemos. A pergunta será sobre os passos que sabíamos dar e, mesmo assim, escolhemos não dar. Porque dom enterrado não glorifica a Deus. Dom usado, mesmo com tropeços, dança.


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