ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (45): O Peso da Consciência.
Havia um homem que ficava na esquina da rua onde eu trabalhava. Vou chamá-lo de Ernesto, porque esse nome tem o peso exato da história que preciso contar. Ernesto tinha seus quarenta e tantos anos, uma barba crescida sem rumo e os olhos avermelhados de quem começava a beber cedo demais — não por causa de uma tristeza passageira, mas por força de um hábito antigo, já entranhado na rotina como ferrugem no ferro.
Todas as manhãs ele ocupava o mesmo pedaço de calçada, segurando um copo plástico e repetindo uma frase que quase nunca mudava: — "Uma ajudinha, senhor." Durante semanas passei por ele fingindo não notar sua presença. Não por maldade. Também não por indiferença. A verdade é que eu carregava uma dúvida que me acompanhava toda vez que cruzava aquela esquina. Sabia que qualquer moeda entregue acabaria na garrafa. Todo mundo naquela rua sabia.
Então, numa manhã qualquer, resolvi parar. Não foi com dinheiro. Foi com um pão de queijo que eu havia comprado para mim e que, de repente, pareceu menos necessário do que imaginava. Coloquei-o em sua mão. Ernesto olhou para o pão, depois para mim. Havia em seu rosto aquela expressão rara de quem recebe algo diferente do que esperava e, por um instante, não sabe exatamente como reagir à surpresa. Comeu ali mesmo, em silêncio. Não agradeceu. Eu também não disse nada. Mas, segui meu caminho sem aquela sensação incômoda que costumava me acompanhar — a culpa discreta, porém persistente, de quem vê uma necessidade diante de si e escolhe atravessar a rua por dentro da própria consciência.
Esse episódio volta à minha memória sempre que penso numa pergunta que quase ninguém gosta de fazer em voz alta: você daria dinheiro a um viciado sabendo que o dinheiro seria usado para alimentar o vício? A resposta honesta incomoda justamente porque não cabe em fórmulas prontas. E, convenhamos, boas intenções costumam preferir respostas simples para questões complexas. Contudo, Paulo, em Romanos 1:32, toca num ponto que a teologia da conveniência frequentemente evita encarar. Ele afirma que não apenas quem pratica o mal, mas também quem o aprova ou o sustenta participa, de alguma forma, da responsabilidade moral envolvida.
Levado a sério, esse princípio desmonta uma das frases mais confortáveis da vida moderna: "Eu fiz a minha parte. O que fazem com isso não é minha responsabilidade." Talvez seja justamente essa frase que devesse nos causar mais desconforto. Porque ela serve tanto para quem entrega dinheiro a Ernesto sabendo qual será o destino daquela ajuda quanto para quem deposita o dízimo numa tesouraria que financia privilégios, excessos ou mordomias, sabendo — ou preferindo não saber — para onde os recursos estão sendo direcionados.
A consciência, afinal, não aceita terceirizações com a mesma facilidade que a rotina. Ela insiste em fazer perguntas. Ela insiste em cobrar respostas. Ela insiste em permanecer acordada quando gostaríamos de dormir tranquilos. Dar bem é diferente de dar certo. Dar certo é preencher o envelope, fazer a transferência ou entregar a oferta e voltar para casa com a sensação de dever cumprido. Dar bem, porém, exige algo mais profundo: exige perguntar, antes de estender a mão, qual será o efeito daquele gesto. E, quando a resposta não for boa, exige coragem para mudar a forma de ajudar.
Ernesto não precisava de mais dinheiro para a garrafa. Naquela manhã, precisava de um pão de queijo quente. Talvez precisasse também de algo ainda mais raro: de alguém disposto a parar por alguns segundos e reconhecê-lo como pessoa, não apenas como problema. A doação precisa chegar integralmente ao seu objetivo. Parece uma frase simples. Mas, poucas exigem tanto de quem a pronuncia. Porque ela transfere para o doador a responsabilidade de conhecer não apenas o ponto de partida da sua generosidade, mas também o caminho que ela percorre e o lugar onde termina.
E conhecer esse caminho nem sempre é confortável. Às vezes, significa trocar o envelope pelo pão de queijo. Às vezes, significa interromper a pressa. Às vezes, significa parar na esquina. Significa olhar nos olhos de Ernesto e perguntar, com sinceridade, do que ele realmente precisa — e não simplesmente oferecer aquilo que é mais conveniente para nós.
A consciência pesa. E ainda bem que pesa. É esse peso que nos impede de confundir generosidade com conivência, compaixão com comodidade, amor com mera transferência de responsabilidade. Ao longo destas quarenta e cinco crônicas, uma lição tem se repetido sob diferentes formas: generosidade sem discernimento não é virtude. É apenas uma consciência tentando comprar tranquilidade. É a caridade sem envolvimento. É a compaixão sem compromisso. Em última análise, é a terceirização do amor.


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