ANTOLOGIA DE CRÔNICAS REFLEXIVAS À LUZ DA SÃ CONSCIÊNCIA — Crônica (49): O Chamado da Responsabilidade: Os Mordomos Divinos.
Vou contar a história de um homem que pagava para pregar — e que, ainda assim, acabou sendo barrado. Vou chamá-lo de Gilberto. Durante a semana, trabalhava como técnico de enfermagem. Nos fins de semana, porém, vestia outra espécie de uniforme: uma Bíblia debaixo do braço, disposição no coração e uma convicção difícil de encontrar até mesmo entre profissionais da fé. Eu o vi atravessar bairros periféricos, sentar-se em calçadas, entrar em garagens improvisadas e transformar conversas comuns em encontros que permaneciam na memória muito depois de terminarem.
Gilberto não tinha ordenação. Não possuía diploma de teologia. Não carregava títulos antes do nome nem cargos depois dele. O que tinha era um dom raro de comunicar esperança de forma simples e direta, como quem acende uma vela sem fazer alarde sobre a luz.
Durante anos, financiou do próprio bolso aquilo que considerava sua missão. Pagava combustível, materiais evangelísticos, literatura e, vez ou outra, até o lanche compartilhado com pequenos grupos que se reuniam em varandas, quintais e salas apertadas. Nunca pediu reembolso. Nunca exigiu reconhecimento. Na prática, era exatamente isso: um irmão que pagava para pregar, enquanto outros recebiam salário, benefícios e estrutura para realizar o mesmo trabalho em condições muito mais favoráveis.
Certa vez, conhecendo de perto uma comunidade que a estrutura institucional dificilmente alcançaria, Gilberto propôs algo simples. Queria direcionar parte de sua oferta mensal para um projeto local de assistência e evangelização. Nada extravagante. Nada revolucionário. Apenas um esforço para atender necessidades reais de pessoas reais.
A proposta seguiu os trâmites necessários e chegou à liderança. Algumas semanas depois, a resposta retornou. Veio por escrito, envolta naquela cordialidade burocrática que domina a arte de negar sem parecer que está negando. Os recursos, dizia o documento, deveriam ser encaminhados pela tesouraria oficial, pois "a unidade da missão exige que as iniciativas individuais sejam coordenadas pela estrutura competente."
Gilberto leu a carta. Leu uma segunda vez. Depois a dobrou cuidadosamente e a guardou. Não discutiu. Não protestou. Não organizou movimentos nem escreveu manifestos. Continuou visitando os bairros. Continuou financiando o trabalho com seus próprios recursos. Continuou servindo. A única mudança foi silenciosa: nunca mais levou o assunto à liderança. Há silêncios que encerram discussões. E há silêncios que revelam conclusões. O dele parecia pertencer à segunda categoria.
Ellen White escreveu, numa declaração que costuma aparecer pouco justamente quando se torna mais necessária: "É um erro fatal supor que a obra de salvar almas depende apenas do ministro ordenado. Todos a quem veio a celestial inspiração são depositários do Evangelho." A palavra é importante: depositários. Não meros espectadores. Não consumidores. Não auxiliares ocasionais. Depositários.
A diferença parece pequena na superfície, mas é imensa quando desce às profundezas da responsabilidade cristã. Porque quem recebe um depósito assume um encargo pessoal sobre aquilo que recebeu. Não pode simplesmente terceirizar essa responsabilidade. Não pode transferi-la para uma comissão, uma diretoria ou uma estrutura administrativa. Muito menos pode permanecer imóvel, esperando uma autorização que talvez nunca venha. O Evangelho foi confiado a pessoas antes de ser confiado a instituições. E todo depósito traz consigo uma prestação de contas.
Existe uma ironia que atravessa esta série inteira como um rio subterrâneo. O pastor recebe para pregar. O irmão paga para pregar. E quando esse mesmo irmão decide investir seus próprios recursos numa obra que acredita ser do Senhor, a estrutura — sustentada, em parte, pelos recursos desse próprio irmão — intervém para assegurar que tudo passe pelos canais adequados. Os canais corretos. A expressão soa organizada. Prudente. Segura.
Mas, às vezes, me pergunto se não acabamos confundindo ordem com controle. Como se a graça precisasse preencher formulários. Como se a compaixão tivesse protocolo de encaminhamento. Como se o Espírito aguardasse aprovação em ata antes de atravessar uma rua, bater numa porta ou tocar um coração. A história da fé, afinal, quase sempre avança pelas margens antes de ser reconhecida pelos centros.
Gilberto continuou seu trabalho durante anos. Sem salário. Sem reconhecimento oficial. Sem certificados. Sem fotografias em relatórios. Sem a validação institucional que tantos consideram indispensável. E, curiosamente, sem perder a alegria de servir. Numa tarde em que o acompanhei numa visita, perguntei se a falta de apoio institucional não o incomodava. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Daquele tipo de silêncio que não procura resposta, mas organiza pensamento. Então disse: — A comissão aprova o que ela entende. O Espírito vai onde quer. Não acrescentou mais nada. Entrou na casa onde algumas pessoas já nos aguardavam. Eu permaneci por alguns instantes na calçada, observando a porta se fechar e refletindo sobre o peso daquelas palavras.
Porque, às vezes, uma verdade inteira cabe em duas frases. E tive a impressão de que Gilberto havia resumido, em poucos segundos, aquilo que esta série levou quarenta e nove crônicas para tentar dizer. Há responsabilidades que podem ser delegadas. Há tarefas que podem ser distribuídas. Mas, o chamado de Deus, quando chega ao coração de alguém, não costuma esperar autorização para começar. Os mordomos fiéis não são aqueles que apenas administram recursos. São aqueles que administram a confiança que receberam. E confiança, quando enterrada, vira omissão. Mas, quando colocada em movimento, transforma-se em missão.


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