AMIGOS CAPITALISTAS ("O que o dinheiro não traz ele leva." — Lis Oliveira)
Há dias em que a vida me parece um organismo mal programado: um ciclo automático, voraz, quase obsceno — comer, comer, comer. Produzir para comer. Comer para continuar produzindo. E, quando o corpo cansa — ou a alma apodrece antes —, resta o gesto final: vomitar o excesso, esquecer o que não coube, ejacular a própria existência como quem desperdiça o que nunca chegou a florescer. Nada de épico nisso. Apenas fisiologia aplicada à rotina.
Talvez por isso eu tenha passado a perseguir uma meta tardia, quase ingênua: resgatar algum prazer possível no que sobrou do caminho. Trabalho, família, fé — não como promessas de salvação, mas como pequenas trincheiras contra o esvaziamento. Descansar quando der. Conversar sem cálculo. Orar não para pedir milagres, mas para não endurecer por completo. Às vezes penso que ressignificar conceitos é luxo; o que me resta é aplicar, com disciplina cansada, os poucos valores que ainda não se venderam.
A urgência dessa busca se impôs quando o mundo parou. A pandemia não criou meus medos; apenas os empurrou para a superfície. Isolado, vi os números crescerem como sentenças frias, estatísticas que não consolam ninguém. Não temi apenas a morte — temi que a minha história se encerrasse sem ter sido, de fato, vivida. A estagnação revelou o que o movimento escondia: eu já vinha tenso, apenas não tinha tempo de perceber.
Já não espero surpresas dessa engrenagem chamada vida, nem das relações humanas que ela molda. A ilusão foi gasta. Ainda assim, abandonar tudo não é opção heroica — é privilégio de quem pode recomeçar. Eu não posso. Sinto-me velho demais para apostas grandiosas e jovem demais para desistir sem remorso. Eis o dilema bruto: ou agarro o osso que me deram e finjo que é banquete, ou jogo a toalha e aceito o cabresto com a dignidade possível.
Tive oportunidades, dizem. Talvez tenha tido mesmo. Em que ponto o caminho se tornou esse deserto, não sei precisar. O que sei é simples e indecente: portas se abrem com uma facilidade quase pornográfica para quem tem dinheiro. As outras — as invisíveis — exigem virtudes que não rendem juros. Aprende-se cedo a regra não escrita: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Repetimos isso como sabedoria popular quando, na verdade, é o sistema falando pela nossa boca.
Tenho consciência do paradoxo que carrego. Sei que me faltam aparência, capital, verniz social; e sei, também, que me sobram virtudes que ninguém cotou na bolsa. Reconheço meu valor íntimo, meu potencial humano, mas esbarro no muro frio do materialismo cotidiano. Como atrair boas companhias num mundo que mede afetos por desempenho? Como sustentar amizades onde tudo vira troca, vantagem, oportunidade? Não afirmo que não existam exceções — talvez existam, escondidas, resistentes —, mas confesso: ando cansado demais para encontrá-las.
Resta-me, então, o sarcasmo. Não como fuga, mas como defesa. Rir para não apodrecer por dentro. Ironizar para não enlouquecer. Compreender a engrenagem não me libertou dela; apenas tornou o aperto mais consciente. Ainda assim, sigo — não por esperança grandiosa, mas por teimosia humana. E, enquanto der, sigo rindo da tragédia que nos atravessa.
E viva nós, né, Batoré!
-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
Como seu professor de Sociologia, é fascinante analisar um texto que transita entre o existencialismo e a crítica social. O autor nos apresenta o que chamamos de Alienação, um conceito fundamental para entender como o sistema econômico molda não apenas nosso trabalho, mas nossos afetos e nossa percepção de tempo. O texto reflete a angústia do indivíduo que se sente uma "peça" em uma engrenagem maior, onde o "ter" frequentemente atropela o "ser". Aqui estão 5 questões discursivas para pensarmos a sociedade através deste relato:
1. O Ciclo da Produção e Consumo O autor descreve a vida como um ciclo de "produzir para comer e comer para continuar produzindo". Relacione essa frase ao conceito de Alienação em Karl Marx. Como o sistema capitalista pode transformar a atividade vital do ser humano em um fardo mecânico e repetitivo?
2. O Fetiche da Mercadoria e as Relações Humanas No texto, afirma-se que as portas se abrem para quem tem dinheiro e que os afetos são medidos por "desempenho". De que maneira a lógica do mercado (compra e venda) invade a esfera privada e transforma as amizades e os relacionamentos em objetos de troca ou "investimento"?
3. Instituições Sociais como Refúgio O autor menciona o trabalho, a família e a fé como "trincheiras contra o esvaziamento". Explique a importância das Instituições Sociais na construção de sentido para o indivíduo. Elas servem apenas para controle social ou podem, como sugere o texto, oferecer suporte emocional em tempos de crise?
4. A Pandemia como Fato Social O texto destaca que a pandemia "empurrou medos para a superfície". Analise a pandemia como um Fato Social (conceito de Émile Durkheim): como esse evento coletivo alterou as consciências individuais e revelou as tensões que já existiam na estrutura da nossa sociedade?
5. Ética e Poder: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo" O autor diz que essa frase é o "sistema falando pela nossa boca". Como a sociologia explica a reprodução de discursos que justificam a desigualdade de poder? Por que tendemos a aceitar hierarquias baseadas no capital financeiro como se fossem "leis naturais" ou "sabedoria popular"?
Dica do Professor:
Para responder bem, foque na tensão entre o indivíduo (seus sentimentos e virtudes) e a estrutura social (as regras do dinheiro e da produtividade). O autor parece sentir que a estrutura é um "muro frio" que impede o florescimento do potencial humano.
Há dias em que a vida me parece um organismo mal programado: um ciclo automático, voraz, quase obsceno — comer, comer, comer. Produzir para comer. Comer para continuar produzindo. E, quando o corpo cansa — ou a alma apodrece antes —, resta o gesto final: vomitar o excesso, esquecer o que não coube, ejacular a própria existência como quem desperdiça o que nunca chegou a florescer. Nada de épico nisso. Apenas fisiologia aplicada à rotina.
Talvez por isso eu tenha passado a perseguir uma meta tardia, quase ingênua: resgatar algum prazer possível no que sobrou do caminho. Trabalho, família, fé — não como promessas de salvação, mas como pequenas trincheiras contra o esvaziamento. Descansar quando der. Conversar sem cálculo. Orar não para pedir milagres, mas para não endurecer por completo. Às vezes penso que ressignificar conceitos é luxo; o que me resta é aplicar, com disciplina cansada, os poucos valores que ainda não se venderam.
A urgência dessa busca se impôs quando o mundo parou. A pandemia não criou meus medos; apenas os empurrou para a superfície. Isolado, vi os números crescerem como sentenças frias, estatísticas que não consolam ninguém. Não temi apenas a morte — temi que a minha história se encerrasse sem ter sido, de fato, vivida. A estagnação revelou o que o movimento escondia: eu já vinha tenso, apenas não tinha tempo de perceber.
Já não espero surpresas dessa engrenagem chamada vida, nem das relações humanas que ela molda. A ilusão foi gasta. Ainda assim, abandonar tudo não é opção heroica — é privilégio de quem pode recomeçar. Eu não posso. Sinto-me velho demais para apostas grandiosas e jovem demais para desistir sem remorso. Eis o dilema bruto: ou agarro o osso que me deram e finjo que é banquete, ou jogo a toalha e aceito o cabresto com a dignidade possível.
Tive oportunidades, dizem. Talvez tenha tido mesmo. Em que ponto o caminho se tornou esse deserto, não sei precisar. O que sei é simples e indecente: portas se abrem com uma facilidade quase pornográfica para quem tem dinheiro. As outras — as invisíveis — exigem virtudes que não rendem juros. Aprende-se cedo a regra não escrita: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Repetimos isso como sabedoria popular quando, na verdade, é o sistema falando pela nossa boca.
Tenho consciência do paradoxo que carrego. Sei que me faltam aparência, capital, verniz social; e sei, também, que me sobram virtudes que ninguém cotou na bolsa. Reconheço meu valor íntimo, meu potencial humano, mas esbarro no muro frio do materialismo cotidiano. Como atrair boas companhias num mundo que mede afetos por desempenho? Como sustentar amizades onde tudo vira troca, vantagem, oportunidade? Não afirmo que não existam exceções — talvez existam, escondidas, resistentes —, mas confesso: ando cansado demais para encontrá-las.
Resta-me, então, o sarcasmo. Não como fuga, mas como defesa. Rir para não apodrecer por dentro. Ironizar para não enlouquecer. Compreender a engrenagem não me libertou dela; apenas tornou o aperto mais consciente. Ainda assim, sigo — não por esperança grandiosa, mas por teimosia humana. E, enquanto der, sigo rindo da tragédia que nos atravessa.
E viva nós, né, Batoré!
-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
Como seu professor de Sociologia, é fascinante analisar um texto que transita entre o existencialismo e a crítica social. O autor nos apresenta o que chamamos de Alienação, um conceito fundamental para entender como o sistema econômico molda não apenas nosso trabalho, mas nossos afetos e nossa percepção de tempo. O texto reflete a angústia do indivíduo que se sente uma "peça" em uma engrenagem maior, onde o "ter" frequentemente atropela o "ser". Aqui estão 5 questões discursivas para pensarmos a sociedade através deste relato:
1. O Ciclo da Produção e Consumo O autor descreve a vida como um ciclo de "produzir para comer e comer para continuar produzindo". Relacione essa frase ao conceito de Alienação em Karl Marx. Como o sistema capitalista pode transformar a atividade vital do ser humano em um fardo mecânico e repetitivo?
2. O Fetiche da Mercadoria e as Relações Humanas No texto, afirma-se que as portas se abrem para quem tem dinheiro e que os afetos são medidos por "desempenho". De que maneira a lógica do mercado (compra e venda) invade a esfera privada e transforma as amizades e os relacionamentos em objetos de troca ou "investimento"?
3. Instituições Sociais como Refúgio O autor menciona o trabalho, a família e a fé como "trincheiras contra o esvaziamento". Explique a importância das Instituições Sociais na construção de sentido para o indivíduo. Elas servem apenas para controle social ou podem, como sugere o texto, oferecer suporte emocional em tempos de crise?
4. A Pandemia como Fato Social O texto destaca que a pandemia "empurrou medos para a superfície". Analise a pandemia como um Fato Social (conceito de Émile Durkheim): como esse evento coletivo alterou as consciências individuais e revelou as tensões que já existiam na estrutura da nossa sociedade?
5. Ética e Poder: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo" O autor diz que essa frase é o "sistema falando pela nossa boca". Como a sociologia explica a reprodução de discursos que justificam a desigualdade de poder? Por que tendemos a aceitar hierarquias baseadas no capital financeiro como se fossem "leis naturais" ou "sabedoria popular"?
Dica do Professor:
Para responder bem, foque na tensão entre o indivíduo (seus sentimentos e virtudes) e a estrutura social (as regras do dinheiro e da produtividade). O autor parece sentir que a estrutura é um "muro frio" que impede o florescimento do potencial humano.
.jpg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário