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MINHAS PÉROLAS

sábado, 7 de janeiro de 2023

O NOVO ENSINO MÉDIO PÓS-PANDÊMICO: Entre Cartas, Capitulações e Reformas ("O novo sempre despertou perplexidade e resistência." — Sigmund Freud)

 


O NOVO ENSINO MÉDIO PÓS-PANDÊMICO: Entre Cartas, Capitulações e Reformas ("O novo sempre despertou perplexidade e resistência." — Sigmund Freud)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A cena se repete com a precisão de um ritual profano. Enquanto explico sintaxe — sujeito, predicado, concordância — o som seco das cartas batendo na carteira rasga o ar da sala. Truco. O baralho não surge como distração inocente; impõe-se como linguagem concorrente, manifesto silencioso contra o esforço intelectual. Não é apenas um jogo: é a recusa do tempo longo do pensamento, a busca por pertencimento imediato, o riso cúmplice que substitui o confronto com o saber.

Permiti o truco. Não por convicção pedagógica, mas por capitulação. A escola pública brasileira — sobretudo após a Lei nº 13.415/2017 e sua implementação errática nas redes estaduais — deixou o professor sem respaldo, sem autoridade simbólica, sem instrumentos reais de intervenção. Denunciar à coordenação raramente produz efeito; insistir, por vezes, produz risco. Entre a violência latente e o esvaziamento institucional, escolhe-se sobreviver. E é aí que reside o crime maior da reforma: não formar professores para ensinar, mas para resistir.

O chamado Novo Ensino Médio promete mil horas anuais, duzentos dias letivos, itinerários formativos e protagonismo juvenil. Na prática, ao menos nas escolas periféricas, entrega exaustão sem densidade, quantidade sem qualidade. Dados recentes de evasão e abandono — sobretudo no primeiro ano — indicam que ampliar a carga horária sem sentido pedagógico apenas prolonga o cansaço. O aluno entra às sete, sai ao meio-dia e aprende menos. O baralho, então, reaparece como anestesia coletiva. “Aluno cansado não aprende”, repete-se, como se o problema fosse fisiológico, e não político.

É preciso cautela: o estudante não é vilão. Ele é fruto de décadas de uma pedagogia neoliberal que o ensinou a se perceber como cliente, consumidor de aulas rápidas, fáceis e utilitárias. O jovem que joga truco enquanto o professor fala é também vítima de uma escola que desistiu de formá-lo. A tragédia, aqui, é compartilhada.

Se há saída, ela não virá da facilitação infinita nem da nostalgia autoritária. Virá da reconstrução da autoridade pedagógica como pacto social: uma escola exigente, um professor institucionalmente protegido, um currículo com sentido e um tempo que respeite o pensamento. Utopia? Talvez. Mas toda educação que não ousa imaginar outro horizonte já perdeu antes mesmo de distribuir as cartas.

https://www.youtube.com/watch?v=yJunMvIFtxI


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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto nos oferece um "raio-X" contundente sobre as crises de autoridade e sentido na escola contemporânea. Ele nos permite discutir conceitos como alienação, neoliberalismo na educação e a função social das instituições. Aqui estão 5 questões discursivas simples para pensarmos criticamente sobre essa realidade:


1. A Crise da Autoridade Simbólica, O texto menciona que o professor permitiu o jogo de cartas não por vontade própria, mas por "capitulação" e falta de "autoridade simbólica". Na visão sociológica, por que é perigoso para uma sociedade quando as instituições (como a escola) perdem sua autoridade e não conseguem mais estabelecer normas de convivência e respeito?

2. A Reforma e o "Professor Residente". O autor afirma que a reforma (Lei nº 13.415/2017) acabou por formar professores "não para ensinar, mas para resistir". Explique como o esvaziamento do respaldo institucional e a falta de condições de trabalho podem transformar a profissão docente em uma atividade de sobrevivência em vez de uma prática educativa.

3. O Aluno como Consumidor e a Pedagogia Neoliberal. O texto sugere que o estudante foi ensinado a se perceber como um "cliente" de aulas rápidas e utilitárias. Como essa lógica neoliberal (que trata a educação como um serviço comercial) altera a relação entre professor e aluno e a forma como o jovem encara o esforço necessário para aprender?

4. O Baralho como "Anestesia" e a Evasão Escolar. A análise aponta que o baralho surge como uma "anestesia coletiva" diante de uma carga horária exaustiva e sem sentido. Relacione o aumento da quantidade de horas na escola com os dados de evasão e abandono escolar citados: por que mais tempo na escola nem sempre significa mais aprendizado ou melhor socialização?

5. A Reconstrução da Escola como Pacto Social. Ao final, o autor defende uma escola "exigente e institucionalmente protegida". Do ponto de vista da sociologia da educação, por que a "facilitação infinita" do ensino (tornar tudo fácil e sem cobrança) pode acabar prejudicando justamente os alunos das classes mais pobres em vez de ajudá-los?

Dica do Professor:

Reparem que o texto não culpa o aluno nem o professor isoladamente. Ele foca no sistema. Ao responder, tente observar como as leis e as pressões políticas (como a reforma do ensino) criam comportamentos dentro da sala de aula que fogem ao controle de quem está lá dentro.

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