ESVAZIAMENTO, MEU PECADO IMPOSTO: Reflexões de um Domingo em Confinamento ("A comunhão com o outro acontece no esvaziamento de si mesmo." — Tarik Markov)
O domingo amanheceu excessivamente silencioso. Não o silêncio repousante que consola, mas aquele que reverbera nas paredes da casa e nas cavidades do peito. A quarentena ensinou-me que o confinamento não fecha apenas portas — ele evidencia ausências. Paradoxalmente, enquanto o mundo se retraía, algo em mim despertava: uma vontade quase ingênua de oferecer afeto, de confiar, de partilhar palavras e silêncios.
Com o tempo, percebi que a solidão tem duas naturezas. Existe a solidão estrutural da condição humana, que nos conduz ao interior de nós mesmos, onde talvez habite Deus. E há o isolamento social, concreto e circunstancial, feito da falta de encontros, abraços e vozes. Durante muito tempo confundi uma com a outra, como se fossem sentença irrevogável. Hoje sei que não são sinônimos — e essa distinção já me devolve algum fôlego.
Fiquei na defensiva quanto aos meus sentimentos. Namorar? Convenci-me de que não era para mim. Recordei as palavras do profeta Kacou Philippe, que vê pecado nessas relações, e temi desejar o que não me seria permitido. Ainda assim, a dúvida persistia: se eu fosse sincero, haveria quem ainda acreditasse no amor verdadeiro? Ou o amor se tornou cálculo, investimento, troca? Em momentos de fragilidade, deixo-me invadir por uma narrativa implacável — “velho, feio e pobre” — como se fosse diagnóstico definitivo. No entanto, ao repetir tais palavras, percebo que não são verdades objetivas, mas feridas que aprenderam a falar alto demais.
É inegável que o interesse material contamina muitas relações. Porém, também testemunhei o contrário: mensagens inesperadas, conversas que sustentam, gestos simples que aquecem dias frios. Pequenas luzes que quase ignorei por estar excessivamente atento às perdas. A vida, mesmo atravessada pela pandemia, não se resume ao abandono; há presenças discretas que resistem.
A convivência migrou para as telas. Entre cansaços e ruídos, aprendi a criar vínculos virtuais. Dois anos de distanciamento deixaram marcas, mas também revelaram que não estou inteiramente só. Antes, eu era infeliz e não sabia; hoje, ao menos, reconheço minhas dores com maior clareza. Como diz o ditado: “Está ruim, mas está bom”. Talvez porque agora eu compreenda o que me falta — e o que ainda possuo.
Há, sim, um vazio — um “buraco negro” que nenhuma relação preenche por completo. A sede de Deus ultrapassa a presença de pais, amigos ou filhos. Contudo, isso não invalida os vínculos humanos; apenas os coloca em perspectiva. Eles não são absolutos, mas são companhia de jornada. Posso buscar transcendência sem abdicar do desejo de companhia. Uma dimensão não exclui a outra.
Ao tornar-me pai, deixei de ser apenas filho. Descobri que a alegria dos filhos, muitas vezes, dura enquanto conseguimos corresponder às expectativas deles — e as frustrações doem fundo. Já refleti sobre a ideia de que as faltas dos pais recaem sobre os filhos até a terceira geração. Talvez, porém, essa imagem fale menos de punição e mais de responsabilidade: interromper ciclos, não perpetuá-los.
Sinto falta de uma “mãe de peito” — aquela figura que acolhe quando a mãe biológica não pode. As minhas já partiram, deixando um silêncio que não se preenche. Ainda assim, continuo aqui, capaz de oferecer a outros um pouco do cuidado que recebi. A dor não precisa endurecer-me; pode, se eu permitir, tornar-me mais sensível.
Quanto ao ato de me doar sem retorno, ecoam as palavras de Charles Canela: “Se a sensação que fica é de esvaziamento ao se dar, está dando o que não pode.”
Talvez eu tenha oferecido o que ainda não estava inteiro em mim. Generosidade não é autoabandono; amar não é anular-se; solidão não é condenação eterna.
Neste domingo de confinamento, compreendo que minha tarefa não é negar a escuridão, mas tampouco transformá-la em morada. Entre o vazio e a esperança, escolho permanecer em movimento. Não sou a caricatura severa que às vezes descrevo, mas um homem atravessando uma estação difícil — e estações passam.
A vida não se resume às perdas. Mesmo recolhido, posso aprender, buscar apoio, reconstruir vínculos e reescrever minha narrativa. Talvez a verdadeira quarentena seja abandonar a violência contra mim mesmo — abrir as janelas internas e permitir que, pouco a pouco, o ar volte a circular.
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Olá! Que prazer encontrá-lo nesta “sala de aula” virtual. Ao reler meu próprio texto, reconheço que ele se tornou, quase sem que eu percebesse, um exercício de sociologia reflexiva. Percebo que toquei em pontos centrais da disciplina que tanto me atravessa: a construção da identidade, a influência das instituições — especialmente a Igreja e a Família —, o impacto das novas tecnologias nas relações humanas e a mercantilização dos afetos que marca o nosso tempo.
Preparei estas 5 questões discursivas, focadas no nível de Ensino Médio, para estimular o pensamento crítico sobre a relação entre o "eu" e a sociedade:
Questão 1: Solidão e Sociedade
O texto distingue a "solidão estrutural" (interior) do "isolamento social" (falta de encontros). Do ponto de vista sociológico, como as transformações impostas pela pandemia de COVID-19 alteraram a nossa percepção sobre a importância das interações sociais "face a face"?
Questão 2: Religião e Controle Social
O autor menciona o medo de "desejar o que não seria permitido" com base nas falas de uma liderança religiosa. Como as instituições religiosas exercem influência sobre o comportamento individual e a construção do que a sociedade considera "certo" ou "pecaminoso" no campo dos sentimentos?
Questão 3: A Coisificação do Afeto
No trecho "o amor se tornou cálculo, investimento, troca?", o autor levanta uma dúvida comum na sociologia contemporânea. Explique como a lógica do mercado (o "lucro" e o "investimento") pode acabar contaminando as relações amorosas na sociedade atual.
Questão 4: Tecnologia e Vínculos Virtuais
O texto afirma que "a convivência migrou para as telas". De que maneira o uso das redes sociais e das tecnologias de comunicação ajudou a mitigar o isolamento, mas também criou novos tipos de "ruídos" e "cansaços" nas relações humanas?
Questão 5: Ciclos Geracionais e Responsabilidade
Ao refletir sobre a paternidade, o autor sugere que a "maldade dos pais nos filhos" pode ser interpretada como a necessidade de "interromper ciclos". Como a família, enquanto primeira instituição socializadora, pode transmitir traumas ou comportamentos de uma geração para outra, e qual a importância da "consciência" para mudar esse processo?
Dica do Professor:
Note que o texto termina com uma nota de esperança: "abandonar a violência contra mim mesmo". Na sociologia, chamamos isso de agência: a capacidade do indivíduo de, mesmo sob pressão social ou biológica, agir e reescrever sua própria história.
O domingo amanheceu excessivamente silencioso. Não o silêncio repousante que consola, mas aquele que reverbera nas paredes da casa e nas cavidades do peito. A quarentena ensinou-me que o confinamento não fecha apenas portas — ele evidencia ausências. Paradoxalmente, enquanto o mundo se retraía, algo em mim despertava: uma vontade quase ingênua de oferecer afeto, de confiar, de partilhar palavras e silêncios.
Com o tempo, percebi que a solidão tem duas naturezas. Existe a solidão estrutural da condição humana, que nos conduz ao interior de nós mesmos, onde talvez habite Deus. E há o isolamento social, concreto e circunstancial, feito da falta de encontros, abraços e vozes. Durante muito tempo confundi uma com a outra, como se fossem sentença irrevogável. Hoje sei que não são sinônimos — e essa distinção já me devolve algum fôlego.
Fiquei na defensiva quanto aos meus sentimentos. Namorar? Convenci-me de que não era para mim. Recordei as palavras do profeta Kacou Philippe, que vê pecado nessas relações, e temi desejar o que não me seria permitido. Ainda assim, a dúvida persistia: se eu fosse sincero, haveria quem ainda acreditasse no amor verdadeiro? Ou o amor se tornou cálculo, investimento, troca? Em momentos de fragilidade, deixo-me invadir por uma narrativa implacável — “velho, feio e pobre” — como se fosse diagnóstico definitivo. No entanto, ao repetir tais palavras, percebo que não são verdades objetivas, mas feridas que aprenderam a falar alto demais.
É inegável que o interesse material contamina muitas relações. Porém, também testemunhei o contrário: mensagens inesperadas, conversas que sustentam, gestos simples que aquecem dias frios. Pequenas luzes que quase ignorei por estar excessivamente atento às perdas. A vida, mesmo atravessada pela pandemia, não se resume ao abandono; há presenças discretas que resistem.
A convivência migrou para as telas. Entre cansaços e ruídos, aprendi a criar vínculos virtuais. Dois anos de distanciamento deixaram marcas, mas também revelaram que não estou inteiramente só. Antes, eu era infeliz e não sabia; hoje, ao menos, reconheço minhas dores com maior clareza. Como diz o ditado: “Está ruim, mas está bom”. Talvez porque agora eu compreenda o que me falta — e o que ainda possuo.
Há, sim, um vazio — um “buraco negro” que nenhuma relação preenche por completo. A sede de Deus ultrapassa a presença de pais, amigos ou filhos. Contudo, isso não invalida os vínculos humanos; apenas os coloca em perspectiva. Eles não são absolutos, mas são companhia de jornada. Posso buscar transcendência sem abdicar do desejo de companhia. Uma dimensão não exclui a outra.
Ao tornar-me pai, deixei de ser apenas filho. Descobri que a alegria dos filhos, muitas vezes, dura enquanto conseguimos corresponder às expectativas deles — e as frustrações doem fundo. Já refleti sobre a ideia de que as faltas dos pais recaem sobre os filhos até a terceira geração. Talvez, porém, essa imagem fale menos de punição e mais de responsabilidade: interromper ciclos, não perpetuá-los.
Sinto falta de uma “mãe de peito” — aquela figura que acolhe quando a mãe biológica não pode. As minhas já partiram, deixando um silêncio que não se preenche. Ainda assim, continuo aqui, capaz de oferecer a outros um pouco do cuidado que recebi. A dor não precisa endurecer-me; pode, se eu permitir, tornar-me mais sensível.
Quanto ao ato de me doar sem retorno, ecoam as palavras de Charles Canela: “Se a sensação que fica é de esvaziamento ao se dar, está dando o que não pode.”
Talvez eu tenha oferecido o que ainda não estava inteiro em mim. Generosidade não é autoabandono; amar não é anular-se; solidão não é condenação eterna.
Neste domingo de confinamento, compreendo que minha tarefa não é negar a escuridão, mas tampouco transformá-la em morada. Entre o vazio e a esperança, escolho permanecer em movimento. Não sou a caricatura severa que às vezes descrevo, mas um homem atravessando uma estação difícil — e estações passam.
A vida não se resume às perdas. Mesmo recolhido, posso aprender, buscar apoio, reconstruir vínculos e reescrever minha narrativa. Talvez a verdadeira quarentena seja abandonar a violência contra mim mesmo — abrir as janelas internas e permitir que, pouco a pouco, o ar volte a circular.
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Olá! Que prazer encontrá-lo nesta “sala de aula” virtual. Ao reler meu próprio texto, reconheço que ele se tornou, quase sem que eu percebesse, um exercício de sociologia reflexiva. Percebo que toquei em pontos centrais da disciplina que tanto me atravessa: a construção da identidade, a influência das instituições — especialmente a Igreja e a Família —, o impacto das novas tecnologias nas relações humanas e a mercantilização dos afetos que marca o nosso tempo.
Preparei estas 5 questões discursivas, focadas no nível de Ensino Médio, para estimular o pensamento crítico sobre a relação entre o "eu" e a sociedade:
Questão 1: Solidão e Sociedade
O texto distingue a "solidão estrutural" (interior) do "isolamento social" (falta de encontros). Do ponto de vista sociológico, como as transformações impostas pela pandemia de COVID-19 alteraram a nossa percepção sobre a importância das interações sociais "face a face"?
Questão 2: Religião e Controle Social
O autor menciona o medo de "desejar o que não seria permitido" com base nas falas de uma liderança religiosa. Como as instituições religiosas exercem influência sobre o comportamento individual e a construção do que a sociedade considera "certo" ou "pecaminoso" no campo dos sentimentos?
Questão 3: A Coisificação do Afeto
No trecho "o amor se tornou cálculo, investimento, troca?", o autor levanta uma dúvida comum na sociologia contemporânea. Explique como a lógica do mercado (o "lucro" e o "investimento") pode acabar contaminando as relações amorosas na sociedade atual.
Questão 4: Tecnologia e Vínculos Virtuais
O texto afirma que "a convivência migrou para as telas". De que maneira o uso das redes sociais e das tecnologias de comunicação ajudou a mitigar o isolamento, mas também criou novos tipos de "ruídos" e "cansaços" nas relações humanas?
Questão 5: Ciclos Geracionais e Responsabilidade
Ao refletir sobre a paternidade, o autor sugere que a "maldade dos pais nos filhos" pode ser interpretada como a necessidade de "interromper ciclos". Como a família, enquanto primeira instituição socializadora, pode transmitir traumas ou comportamentos de uma geração para outra, e qual a importância da "consciência" para mudar esse processo?
Dica do Professor:
Note que o texto termina com uma nota de esperança: "abandonar a violência contra mim mesmo". Na sociologia, chamamos isso de agência: a capacidade do indivíduo de, mesmo sob pressão social ou biológica, agir e reescrever sua própria história.


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