O Jogo do Saber: Entre Porcos e Filósofos ("Ainda hoje tem gente escolhendo a porcaria, no lugar da salvação!" — Cláudio Peixoto)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Há uma sala na escola que cheira antes de ensinar. Não é mau cheiro — é o odor morno de lanche amassado, mochila úmida e pressa pedagógica. A aula começa ali, onde a teoria chega atrasada e a realidade já está sentada, batendo a perna na carteira.
Naquela manhã propus um jogo: cada aluno defenderia uma ideia absurda como se fosse verdade. Um decretou que a prova deveria ser proibida; outro jurou que matemática existia apenas para assustar adultos; uma menina afirmou, séria, que aprender dói menos quando a gente ri. O barulho cresceu — mas era o som do pensamento nascendo, ainda torto, ainda sem uniforme.
A porta abriu.
A coordenadora ficou alguns segundos parada, avaliando o cenário como quem inspeciona um curral depois da chuva: cadernos fora de ordem, alunos debatendo de pé, gargalhadas atravessando a lousa. Anotou algo na prancheta e disse apenas: — Professor, o senhor está sem domínio de turma.
Há frases que chegam prontas, embaladas pela instituição, dispensando a observação da vida real. Para ela, silêncio era aprendizado; para mim, silêncio era só silêncio.
Expliquei que argumentavam. Ela disse que estavam desorganizados. Expliquei que pensavam. Ela disse que dispersavam. Expliquei que aprendiam. Ela disse que não parecia.
Percebi então: não se trata de compreender o que acontece, mas de reconhecer o que se espera ver. Às vezes, a escola prefere a coreografia da obediência à da inteligência.
Mais tarde, na reunião pedagógica, reapareceu a palavra favorita do sistema: resultado. O gráfico subia, descia, comparava turmas como quem pesa animais antes do mercado. Ninguém perguntou o que haviam descoberto; perguntaram apenas quanto acertaram.
Lembrei do conselho de Platão: ensinar como jogo, não como força — não por beleza, mas por verdade. A aprendizagem nasce curiosa; a cobrança é que a domestica.
O problema não é a existência da prova, e sim quando ela se torna a única linguagem possível da inteligência. Nesse momento, a escola deixa de ser encontro entre mentes e vira balcão de conferência de desempenho.
No dia seguinte repeti o jogo. O mesmo barulho, a mesma vida. Um aluno, geralmente quieto, levantou a mão: — Professor… então pensar certo não é decorar?
Respondi que pensar certo é entender o por quê. Ele sorriu — um sorriso que não aparece em boletim.
Foi aí que compreendi: o sistema não odeia o pensamento; apenas não sabe medi-lo. Como não pode quantificar, chama de bagunça. Como não cabe na tabela, chama de descontrole.
Entre o silêncio perfeito e a inteligência imperfeita, continuo escolhendo o ruído. Porque aprender, às vezes, parece mesmo um chiqueiro — e é nele que a consciência nasce de pé, ainda suja, porém viva.
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1. O Conceito de Instituição e Ordem
No texto, a coordenadora associa o barulho e o debate à "falta de domínio de turma". Do ponto de vista sociológico, por que muitas instituições (como a escola ou a fábrica) priorizam o silêncio e a padronização em vez da interação espontânea?
2. A "Escola como Mercado"
O autor menciona que, na reunião pedagógica, as turmas eram comparadas "como quem pesa animais antes do mercado" por meio de gráficos de desempenho. Como essa visão da educação focada apenas em resultados quantificáveis altera a relação entre professor e aluno?
3. O Pensamento como "Ruído"
Ao final do texto, o autor afirma que o sistema "não odeia o pensamento; apenas não sabe medi-lo". Explique, com suas palavras, por que a criatividade e o pensamento crítico são mais difíceis de serem encaixados em modelos de avaliação tradicionais (como provas de marcar X).
4. A Herança de Platão na Educação
O texto cita o conselho de Platão: "enclausurar o ensino como jogo, não como força". Qual a diferença fundamental entre aprender por obediência/medo e aprender pela curiosidade/descoberta, conforme sugerido no relato do professor?
5. Função Social da Escola
O aluno faz uma pergunta crucial: "Professor… então pensar certo não é decorar?". Considerando o texto, qual deve ser a verdadeira função social da escola: preparar o indivíduo para reproduzir informações ou capacitá-lo para questionar a realidade? Justifique.
Sugestão de "Gatilho" para Debate
Dica do Prof: Para tornar a aula ainda mais dinâmica, você pode pedir que os alunos identifiquem na própria rotina escolar momentos em que se sentiram como o "aluno quieto" que finalmente entendeu que pensar é diferente de decorar.
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