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MINHAS PÉROLAS

domingo, 8 de janeiro de 2023

QUEM VAI E QUEM FICA: Rotatividade e Qualidade Institucional ("É urgente selecionar o que é caminho e o que é desvio." — Dan Porto)

 


QUEM VAI E QUEM FICA: Rotatividade e Qualidade Institucional ("É urgente selecionar o que é caminho e o que é desvio." — Dan Porto)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Costuma-se repetir que a vitalidade de uma instituição reside em sua capacidade de renovação. A afirmação, à primeira vista sedutora, encerra uma armadilha conceitual: confundir renovação com rotatividade. Renovar é formar, concluir ciclos, permitir a progressão orgânica do tempo pedagógico; rotacionar compulsivamente, ao contrário, costuma revelar falhas estruturais. Não por acaso, as instituições educacionais mais consistentes — aquelas que constroem tradição, vínculo e excelência — sustentam-se menos pela evasão e mais pela permanência significativa.

No cotidiano da escola pública brasileira, a alta rotatividade raramente configura virtude. Ela emerge da precariedade material, da fome silenciosa, do esgotamento emocional e da ausência de políticas de cuidado. Tratar a saída precoce como gesto de lucidez individual é inverter a causalidade: não é a desistência que oxigena o sistema, mas a incapacidade institucional de sustentar trajetórias. Permanecer, nesse contexto, não é teimosia; é, muitas vezes, uma forma de resistência.

Diante do caos, torna-se tentador defender critérios seletivos, filtrar os “desalinhados” e ensinar apenas àqueles que demonstram disposição imediata para aprender. Essa lógica, sob a aparência de eficiência, carrega um risco profundo: penalizar quem mais necessita da escola. A educação pública não existe para premiar os já preparados, mas para criar condições de formação àqueles a quem a vida negou quase tudo. Selecionar pelo engajamento visível é confundir desigualdade social com falta de mérito.

Também é preciso cautela com as imagens mobilizadas no discurso educacional. Quando estudantes são descritos como entraves, obstruções ou patologias institucionais, abandona-se a crítica ao sistema para ferir os sujeitos. O problema não são “corpos estranhos” que bloqueiam o fluxo, mas vínculos pedagógicos fragilizados, currículos esvaziados e políticas que exigem desempenho sem oferecer sustentação.

A educação tampouco pode ser reduzida a um cálculo de retorno econômico. Seu valor não se mede apenas pela mão de obra que produz, mas pela cidadania que forma, pela violência que previne e pela consciência que desperta. Eficiência pedagógica não consiste em excluir para render mais, mas em criar condições para que todos aprendam melhor.

Talvez o verdadeiro perigo não esteja em quem entra ou sai, mas em sistemas que naturalizam o abandono e o celebram como dinâmica saudável. Renovar, na educação, não é descartar; é sustentar, transformar e permanecer com sentido.


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Olá! Como seu professor de Sociologia, fico satisfeito em ver como este texto nos desafia a olhar para além da superfície dos números. Ele toca em temas fundamentais da nossa disciplina, como reprodução das desigualdades, função social da escola e a crítica ao produtivismo. Aqui estão 5 questões discursivas, formuladas de maneira simples, para explorarmos essas ideias em sala:


1. Renovação vs. Rotatividade. O texto diferencia "renovar" de apenas "rotacionar" pessoas dentro do sistema. Do ponto de vista sociológico, por que a alta rotatividade (muitos alunos entrando e saindo sem concluir o ciclo) pode ser um sinal de crise institucional e não de "oxigenação" saudável?

2. A Falsa Meritocracia na Seleção. Ao discutir a ideia de filtrar apenas os alunos "já preparados" ou "interessados", o autor afirma que isso é "confundir desigualdade social com falta de mérito". Explique como uma escola que seleciona apenas os melhores alunos pode acabar aumentando a desigualdade em vez de combatê-la.

3. O Aluno como "Entrave" ou Sujeito. Muitas vezes, alunos com dificuldades são vistos como obstáculos ao bom andamento da aula. De acordo com o texto, por que devemos focar a crítica nos "vínculos pedagógicos fragilizados" e na "falta de infraestrutura" em vez de culpar individualmente os estudantes pelo fracasso do sistema?

4. A Educação Além do Mercado de Trabalho. O texto defende que a educação não pode ser apenas um "cálculo de retorno econômico". Além de formar mão de obra para o mercado, quais outras funções sociais a escola pública deve cumprir para garantir o desenvolvimento de uma sociedade mais justa?

5. O Perigo da Naturalização do Abandono. O autor termina dizendo que o verdadeiro perigo é "naturalizar o abandono" (achar normal que muitos desistam). Como a sociologia pode nos ajudar a entender que o abandono escolar não é apenas uma escolha individual do aluno, mas um problema político e social?

Dica do Professor:

Lembrem-se: na Sociologia, as escolhas que parecem ser "individuais" (como desistir da escola) quase sempre estão ligadas a pressões externas, como a situação econômica da família ou a falta de sentido no currículo escolar. Olhem sempre para a estrutura!

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