PARA VIVER MUITO... ("Homem de grande paz, homem de muita vida; para viver, deixar viver". — Baltasar Gracián y Morales)
Por Claudeci Ferreira de Andrade
Envelhecer tem uma gentileza curiosa: devolver silêncio às antigas correções. Com o tempo, as vozes que antes se apressavam em moldar minha conduta — sempre em nome do céu, com a urgência dos que têm certeza — foram cedendo lugar a uma calma inevitável. Não porque eu tenha vencido, nem porque tenham perdido; apenas porque o tempo, paciente artesão, reorganiza a importância das coisas.
Vejo-os partir, às vezes em sequência, chamados pelo velho Cronos com a naturalidade com que o entardecer chama a noite. O que sinto não é triunfo, mas uma compaixão tardia: muitos viveram ocupados demais tentando salvar a eternidade para experimentar a própria manhã.
O problema nunca foi morrer cedo ou tarde — foi atravessar a vida sem servir de abrigo a ninguém.
Ser útil não é produzir feitos grandiosos nem erguer monumentos morais; é ser pausa no cansaço de alguém, escuta no desespero, riso em dia difícil. Útil é quem deixa vestígios de alívio no mundo. O resto é biografia, não existência.
Quando isso falta, a morte pesa mais do que deveria, pois encerra algo que mal começou. Não por castigo nem por justiça cósmica, mas porque viver pouco dentro da própria vida cria um vazio que o fim não consegue preencher.
Escolhi outro caminho: não prolongar os dias por medo do término, e sim preenchê-los até que a duração se torne consequência. Quero morrer cansado de ter estado presente. Talvez por isso me acompanhe a lembrança de Gilmar Pereira: "...seu transbordamento encha o coração de alegria".
Não conto com outra vida para justificar esta; por isso, a felicidade precisa caber no hoje — não como euforia permanente, mas como consciência desperta. Evito o desgaste inútil não para preservar anos, e sim significado dentro deles.
Aos jovens, se algo posso deixar, não é conselho, mas testemunho: a vida não se legitima pela duração, e sim pelo que distribui enquanto dura. Ainda assim, quando compartilhada, costuma alongar-se naturalmente.
O que não se oferece evapora.
O que se oferece permanece.
A isso — e apenas a isso — dou o nome de viver muito.
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Como professor de Sociologia, vejo aqui uma oportunidade preciosa para discutirmos não apenas a biologia do envelhecer, mas como construímos nossa identidade, nossas relações sociais e o sentido de utilidade dentro de uma comunidade. Na Sociologia, estudamos como o indivíduo se relaciona com o coletivo. O texto sugere que a "verdadeira existência" acontece na troca com o outro. Com base nisso, preparei 5 questões discursivas pensadas para o nível do Ensino Médio, focando na interpretação sociológica e humana desse conteúdo.
1. A Construção Social do Indivíduo
O texto menciona que, com o tempo, as vozes que tentavam "moldar a conduta" do autor perdem força. Na Sociologia, chamamos esse processo de moldagem de socialização. Como o autor descreve a sua libertação dessas pressões sociais ao envelhecer e qual é a diferença que ele estabelece entre "biografia" e "existência"?
2. O Conceito de Solidariedade e Utilidade
Segundo o autor, ser útil não é realizar feitos grandiosos, mas ser "pausa no cansaço de alguém". Relacione essa afirmação com a ideia de coesão social: por que a capacidade de "servir de abrigo" aos outros é fundamental para a vida em sociedade, de acordo com o texto?
3. Instituições Sociais e a Busca pela Eternidade
O autor cita que muitos viveram "ocupados demais tentando salvar a eternidade", muitas vezes seguindo normas rígidas (morais ou religiosas). De que maneira a crítica do autor a essa postura nos faz refletir sobre o peso das instituições sociais na vida cotidiana dos indivíduos?
4. A Ética do Cuidado na Contemporaneidade
O texto afirma: "O que não se oferece evapora. O que se oferece permanece". Pensando na sociedade atual, muitas vezes marcada pelo individualismo, como essa frase desafia a lógica de que o sucesso pessoal é mais importante que o bem-estar coletivo?
5. O Papel do Testemunho Geracional
Ao se dirigir aos jovens, o autor prefere oferecer um "testemunho" em vez de um "conselho". Como a transmissão de experiências entre diferentes gerações (idosos e jovens) contribui para a continuidade da cultura e dos valores de uma sociedade?
Dica Pedagógica
Ao responderem, incentive seus alunos a pensarem em exemplos do dia a dia. A Sociologia fica muito mais rica quando eles conseguem enxergar o "abrigo" e a "escuta" mencionados no texto dentro da própria escola ou família.


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