AS LOTÉRICAS NÃO SÃO PARA AMADORES ("É melhor eu fingir ser bobo! Assim eles vão pensar que eu sou mesmo". — Renato siqueira de souza)
Frequento casas lotéricas quase todos os dias para apostar na Lotofácil. O nome do jogo soa irônico, quase provocativo: nada ali é fácil. Já aceitei a derrota matemática — os números que escolho raramente coincidem com os sorteados. O que ainda me surpreende é a outra batalha, menos abstrata e mais concreta: a luta contra o sistema. Apostar exige vigilância constante, como se, a qualquer distração, alguém pudesse subtrair mais do que o valor do bilhete. Ainda assim, continuo. Talvez por teimosia, talvez por hábito, talvez por essa estranha fidelidade ao fracasso que transforma prejuízo recorrente em rotina domesticada.
Às vezes, belisco prêmios pequenos, valores fixos que mal compensam o custo do ritual. Nem sempre, porém, recebo o que de fato ganhei. Já fui lesado por atendentes e, ao buscar relatos na internet, percebi um padrão inquietante: denúncias semelhantes se acumulam, mudando apenas os detalhes. Não se trata de exceção, mas de uma micro-violência cotidiana, discreta o suficiente para não escandalizar e frequente o bastante para normalizar a desconfiança. Passei a chamar isso de lição — dessas que doem pouco para evitar perdas maiores —, embora a palavra “aprendizado” às vezes soe condescendente demais.
Minha liturgia de conferência beira o obsessivo. Costumo levar oito cartelas, com três apostas cada. Antes de sair de casa, reviso os resultados repetidas vezes, como quem precisa confirmar a própria lucidez. Chego ao balcão sabendo exatamente quanto devo receber. Ainda assim, o caixa por vezes decreta derrota onde eu havia visto vitória, e o valor pago vem sempre um pouco abaixo do esperado. Solicitar o comprovante do suposto jogo perdido raramente esclarece algo: o volante original nunca retorna às minhas mãos, e a dúvida passa a integrar o recibo invisível da operação.
Há também as falhas no registro, aquelas que beiram o grotesco. Já entreguei cartelas e quase saí com menos comprovantes do que paguei. Em uma dessas ocasiões, retornei ao guichê. A atendente, subitamente humilde, explicou que o bilhete “caiu” ao sair da máquina. A cena encerrou-se ali, sem escândalo, sem prova, sem desfecho. O restante ficou por conta da imaginação — e da suspeita de que, em algum lugar, alguém apostou com o meu dinheiro. A ambiguidade, nesse caso, fala por si.
Hoje, confiro tudo no ato — cartelas, registros e troco — antes mesmo de me afastar do balcão. As lotéricas deixaram de ser espaços banais; tornaram-se territórios de tensão. Já enfrentei uma tentativa de assalto na fila. Guardo também um trauma menor, porém mais íntimo: uma funcionária que me entregou uma nota rasgada e, no dia seguinte, recusou-se a aceitá-la de volta. “Você deveria ter reclamado no momento”, sentenciou, com a frieza de quem domina as regras quando elas jogam a seu favor. É curioso que ali se prestem serviços bancários, mas sem o rigor ético exigido até pelo mais modesto banco de esquina.
E, ainda assim, volto. Consciente de que perco duas vezes — pela lógica dos números e pela lógica moral —, continuo apostando. Há algo de sísifo nesse gesto repetido: empurrar diariamente a pedra da esperança até o alto do balcão, apenas para vê-la rolar de volta na forma de desconfiança, troco errado ou silêncio. No fim, saio sempre com um papel na mão e a sensação de ter travado uma guerra pequena demais para virar notícia, mas grande o suficiente para me acompanhar até a próxima aposta.
Olha a incidência dos casos conhecidos e divulgados:
https://www.youtube.com/watch?v=CIGgTmFbVRc acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=5vs8uDVOaUA acessado em 22/01/2023
https://www.tjto.jus.br/index.php/deposito-judicial/8-noticias/6094-justica-condena-funcionaria-de-loterica-que-roubou-r-75-mil-do-estabelecimento acessado em 22/01/2023
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2021/07/08/funcionaria-de-loterica-e-presa-no-ceara-por-desvio-de-dinheiro-do-auxilio-emergencial-de-mais-de-150-vitimas-em-oito-estados.ghtml Acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=t2FhSt8k2QY&t=35s acessado em 22/01/2023
https://webterra.com.br/2020/05/05/funcionaria-de-casa-loterica-e-presa-suspeita-de-furtar-r-600-de-beneficio-de-cliente-em-itacambira/ acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=4gI4Uac5eYY&ab_channel=MirellePinheiro Acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=bh_GoY-IxMw&ab_channel=SaulodeTarsoAlmeida ACESSADO EM 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=KqYitRIYhJA&ab_channel=TvMogi acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/shorts/_T_MS-eGaGs acessado em 22/012023
https://www.youtube.com/watch?v=I1Ppf00UnV8&ab_channel=JornalistaFernandoMartins acessado em 22/01/2023
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Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no texto, focando em conceitos fundamentais da nossa disciplina, como as relações de poder, a ética nas instituições e a normalização da violência cotidiana.
Aqui estão elas para você exercitar sua capacidade crítica e sociológica:
1. A Normalização do Desvio: No texto, o autor menciona que a "micro-violência cotidiana" é frequente o bastante para "normalizar a desconfiança". Sob a ótica sociológica, como o processo de normalização de comportamentos antiéticos afeta a coesão social e a confiança dos cidadãos nas instituições?
2. Relações de Poder e Assimetria: Ao descrever o episódio da nota rasgada, o autor destaca a frase da funcionária: "Você deveria ter reclamado no momento". Como essa situação exemplifica uma assimetria de poder entre o prestador de serviço (instituição) e o cliente (indivíduo)?
3. Instituições e Ética: O texto compara as casas lotéricas aos bancos, apontando uma falta de "rigor ético" nas primeiras, apesar de realizarem serviços semelhantes. Por que a padronização de condutas éticas é essencial para o funcionamento de instituições que lidam com o patrimônio público ou privado?
4. A Teoria da Escolha Racional e o Hábito: O autor afirma que continua apostando mesmo consciente de que perde "duas vezes" (na matemática e na moral). Sociologicamente, como podemos explicar a permanência de um indivíduo em uma prática que lhe traz prejuízos claros? Trata-se de um hábito social ou de uma resistência psicológica?
5. Alienação e Cotidiano: O autor encerra comparando seu gesto ao mito de Sísifo (o esforço repetitivo e inútil). Relacione essa comparação com o conceito de alienação no cotidiano moderno: como as "pequenas guerras" descritas no texto refletem a exaustão do indivíduo comum diante de sistemas que parecem feitos para derrotá-lo?
Dica do professor: Ao responder, tente não focar apenas no caso das lotéricas, mas pense em como essas situações se repetem em outros lugares da nossa sociedade, como no transporte público, em órgãos governamentais ou em redes sociais. Bom trabalho!
Frequento casas lotéricas quase todos os dias para apostar na Lotofácil. O nome do jogo soa irônico, quase provocativo: nada ali é fácil. Já aceitei a derrota matemática — os números que escolho raramente coincidem com os sorteados. O que ainda me surpreende é a outra batalha, menos abstrata e mais concreta: a luta contra o sistema. Apostar exige vigilância constante, como se, a qualquer distração, alguém pudesse subtrair mais do que o valor do bilhete. Ainda assim, continuo. Talvez por teimosia, talvez por hábito, talvez por essa estranha fidelidade ao fracasso que transforma prejuízo recorrente em rotina domesticada.
Às vezes, belisco prêmios pequenos, valores fixos que mal compensam o custo do ritual. Nem sempre, porém, recebo o que de fato ganhei. Já fui lesado por atendentes e, ao buscar relatos na internet, percebi um padrão inquietante: denúncias semelhantes se acumulam, mudando apenas os detalhes. Não se trata de exceção, mas de uma micro-violência cotidiana, discreta o suficiente para não escandalizar e frequente o bastante para normalizar a desconfiança. Passei a chamar isso de lição — dessas que doem pouco para evitar perdas maiores —, embora a palavra “aprendizado” às vezes soe condescendente demais.
Minha liturgia de conferência beira o obsessivo. Costumo levar oito cartelas, com três apostas cada. Antes de sair de casa, reviso os resultados repetidas vezes, como quem precisa confirmar a própria lucidez. Chego ao balcão sabendo exatamente quanto devo receber. Ainda assim, o caixa por vezes decreta derrota onde eu havia visto vitória, e o valor pago vem sempre um pouco abaixo do esperado. Solicitar o comprovante do suposto jogo perdido raramente esclarece algo: o volante original nunca retorna às minhas mãos, e a dúvida passa a integrar o recibo invisível da operação.
Há também as falhas no registro, aquelas que beiram o grotesco. Já entreguei cartelas e quase saí com menos comprovantes do que paguei. Em uma dessas ocasiões, retornei ao guichê. A atendente, subitamente humilde, explicou que o bilhete “caiu” ao sair da máquina. A cena encerrou-se ali, sem escândalo, sem prova, sem desfecho. O restante ficou por conta da imaginação — e da suspeita de que, em algum lugar, alguém apostou com o meu dinheiro. A ambiguidade, nesse caso, fala por si.
Hoje, confiro tudo no ato — cartelas, registros e troco — antes mesmo de me afastar do balcão. As lotéricas deixaram de ser espaços banais; tornaram-se territórios de tensão. Já enfrentei uma tentativa de assalto na fila. Guardo também um trauma menor, porém mais íntimo: uma funcionária que me entregou uma nota rasgada e, no dia seguinte, recusou-se a aceitá-la de volta. “Você deveria ter reclamado no momento”, sentenciou, com a frieza de quem domina as regras quando elas jogam a seu favor. É curioso que ali se prestem serviços bancários, mas sem o rigor ético exigido até pelo mais modesto banco de esquina.
E, ainda assim, volto. Consciente de que perco duas vezes — pela lógica dos números e pela lógica moral —, continuo apostando. Há algo de sísifo nesse gesto repetido: empurrar diariamente a pedra da esperança até o alto do balcão, apenas para vê-la rolar de volta na forma de desconfiança, troco errado ou silêncio. No fim, saio sempre com um papel na mão e a sensação de ter travado uma guerra pequena demais para virar notícia, mas grande o suficiente para me acompanhar até a próxima aposta.
Olha a incidência dos casos conhecidos e divulgados:
https://www.youtube.com/watch?v=CIGgTmFbVRc acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=5vs8uDVOaUA acessado em 22/01/2023
https://www.tjto.jus.br/index.php/deposito-judicial/8-noticias/6094-justica-condena-funcionaria-de-loterica-que-roubou-r-75-mil-do-estabelecimento acessado em 22/01/2023
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2021/07/08/funcionaria-de-loterica-e-presa-no-ceara-por-desvio-de-dinheiro-do-auxilio-emergencial-de-mais-de-150-vitimas-em-oito-estados.ghtml Acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=t2FhSt8k2QY&t=35s acessado em 22/01/2023
https://webterra.com.br/2020/05/05/funcionaria-de-casa-loterica-e-presa-suspeita-de-furtar-r-600-de-beneficio-de-cliente-em-itacambira/ acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=4gI4Uac5eYY&ab_channel=MirellePinheiro Acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=bh_GoY-IxMw&ab_channel=SaulodeTarsoAlmeida ACESSADO EM 22/01/2023
https://www.youtube.com/watch?v=KqYitRIYhJA&ab_channel=TvMogi acessado em 22/01/2023
https://www.youtube.com/shorts/_T_MS-eGaGs acessado em 22/012023
https://www.youtube.com/watch?v=I1Ppf00UnV8&ab_channel=JornalistaFernandoMartins acessado em 22/01/2023
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Como seu professor de sociologia, preparei cinco questões discursivas baseadas no texto, focando em conceitos fundamentais da nossa disciplina, como as relações de poder, a ética nas instituições e a normalização da violência cotidiana.
Aqui estão elas para você exercitar sua capacidade crítica e sociológica:
1. A Normalização do Desvio: No texto, o autor menciona que a "micro-violência cotidiana" é frequente o bastante para "normalizar a desconfiança". Sob a ótica sociológica, como o processo de normalização de comportamentos antiéticos afeta a coesão social e a confiança dos cidadãos nas instituições?
2. Relações de Poder e Assimetria: Ao descrever o episódio da nota rasgada, o autor destaca a frase da funcionária: "Você deveria ter reclamado no momento". Como essa situação exemplifica uma assimetria de poder entre o prestador de serviço (instituição) e o cliente (indivíduo)?
3. Instituições e Ética: O texto compara as casas lotéricas aos bancos, apontando uma falta de "rigor ético" nas primeiras, apesar de realizarem serviços semelhantes. Por que a padronização de condutas éticas é essencial para o funcionamento de instituições que lidam com o patrimônio público ou privado?
4. A Teoria da Escolha Racional e o Hábito: O autor afirma que continua apostando mesmo consciente de que perde "duas vezes" (na matemática e na moral). Sociologicamente, como podemos explicar a permanência de um indivíduo em uma prática que lhe traz prejuízos claros? Trata-se de um hábito social ou de uma resistência psicológica?
5. Alienação e Cotidiano: O autor encerra comparando seu gesto ao mito de Sísifo (o esforço repetitivo e inútil). Relacione essa comparação com o conceito de alienação no cotidiano moderno: como as "pequenas guerras" descritas no texto refletem a exaustão do indivíduo comum diante de sistemas que parecem feitos para derrotá-lo?
Dica do professor: Ao responder, tente não focar apenas no caso das lotéricas, mas pense em como essas situações se repetem em outros lugares da nossa sociedade, como no transporte público, em órgãos governamentais ou em redes sociais. Bom trabalho!


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