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MINHAS PÉROLAS

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

HÁ VIDA NA PODRIDÃO ("Gosto de lugares assim, com a podridão humana estampada no rosto das pessoas." — Raphael Montes)

 


HÁ VIDA NA PODRIDÃO ("Gosto de lugares assim, com a podridão humana estampada no rosto das pessoas." — Raphael Montes)

Por Claudeci Ferreia de Andrade

Entrei naquele mercado ao fim da tarde, quando o cheiro da fruta passada já não tenta se disfarçar. As bananas negras repousavam como cadáveres aceitos, e um homem, encostado na parede, mastigava lentamente algo que já não parecia alimento, mas hábito. Foi ali, entre o doce fermentado e o suor antigo, que me ocorreu a sentença incômoda de Camilo Castelo Branco: “A torpeza, a ignomínia, a podridão das entranhas vivas… é só do homem.”

Perguntei-me, então, se também carrego esse rosto — não o visível, mas o outro, o que se forma por dentro. Serei um zumbi civilizado? Um ser ordinário que aprende a sobreviver sugando sombra até da árvore que o abriga?

Voltei para casa com folhas secas no bolso, recolhidas do chão como quem aceita esmola da terra. Caíram mortas, como eu caio um pouco todos os dias. À noite, preparei um chá espesso e amargo, mais próximo do lodo do que do conforto. Bebi consciente da contradição: busco cura justamente no que já se entregou à decomposição. Sou raiz sem mapa, nutrindo-me do que apodreceu antes de mim.

Enquanto a água fervia, observei meus próprios vícios com a mesma atenção que costumo lançar aos erros alheios — erros que não educam, apenas se repetem. Ri de mim ao perceber que condeno o mundo enquanto engulo comprimidos industrializados, embalados a vácuo, como se a limpeza química pudesse me absolver do ciclo que me constitui. Não há acusação aqui; há espelho.

Se a podridão é constitutiva, por que ainda insisto em remédio? Por que busco alívio, sabendo que o corpo é matéria em trânsito para o colapso? Talvez porque, apesar de tudo, eu ainda queira durar — não por negação, mas por apego. Amor fati, diria Nietzsche: não a resignação asséptica, mas a afirmação trágica — aceitar o apodrecer sem desistir de viver.

Cansei do verniz da higienização moral. Essa obsessão por superfícies esterilizadas adoece mais do que o mofo. Se o corpo é a prisão da alma, então minha alma também está encarcerada e aprende a adoecer junto. Não peço libertação; peço lucidez. Sei que a morte nos conduzirá, a todos, ao mesmo chão fértil e sujo — é de lá que algo sempre retorna.

O podre não é a doença. Doente é a alma que se nega ao escuro, que se recusa a tocar o que fede. Por isso ainda busco o curandeiro, mesmo sabendo que suas mezinhas não purificam nada. Elas apenas sustentam — e isso basta. Viver, afinal, nunca foi sobre estar limpo, mas sobre permanecer pulsando no meio daquilo que se desfaz.

Há vida na podridão. O resto é fantasia asséptica para quem tem medo de cheirar a si mesmo.


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Como seu professor de Sociologia, vejo aqui um prato cheio para discutirmos a condição humana, a modernidade e como a sociedade tenta "esconder" processos naturais sob uma camada de consumo e higiene. O texto toca em pontos fundamentais da sociologia clássica e contemporânea: a alienação, a relação homem-natureza e a construção moral das aparências. Abaixo, preparei 5 questões discursivas para ajudar você e seus colegas a aprofundarem essa análise:

Questões Propostas:


A Estetização da Vida: No início do texto, o autor menciona a "fantasia asséptica" e a "higiene moral". De que maneira a sociedade moderna utiliza o consumo e a estética para esconder processos naturais como o envelhecimento e a finitude?

Alienação e Natureza: O narrador descreve-se como uma "raiz sem mapa" que se nutre do que apodreceu, contrapondo isso ao uso de "comprimidos industrializados". Como essa metáfora ilustra o distanciamento do ser humano moderno em relação aos ciclos naturais da vida?

Moralidade e Julgamento: O texto afirma que "erros não educam, apenas se repetem" e que o autor vê no mundo um "espelho". Do ponto de vista sociológico, como as normas sociais de "limpeza moral" influenciam a forma como julgamos o comportamento alheio em comparação ao nosso?

Institucionalização da Cura: O autor questiona o uso de remédios químicos em busca de uma "absolvição". Como a medicalização da vida (o hábito de buscar soluções químicas para sofrimentos existenciais) reflete uma tentativa da sociedade de controlar o que é considerado "doente" ou "saudável"?

A Aceitação do Ciclo Social: Ao final, o texto sugere que "há vida na podridão". Relacionando essa ideia ao conceito de renovação social, por que o reconhecimento das crises e das falhas de uma sociedade é necessário para que algo novo possa "nascer ou retornar"?

Dica do Professor:

Ao responder, tente conectar o texto com o conceito de "Civilização" de Norbert Elias, que discute como aprendemos a sentir nojo e a esconder nossas funções biológicas para parecermos "civilizados".

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