DO ESPETO PARA A BRASA: O Isolamento do Mestre ("Prova de que os valores estão invertidos é perceber alguns amando sapatos e pisando em pessoas!" — Nannye Dias
Nesta madrugada insone, reflito sobre o silêncio que se adensou ao meu redor. Não sei quando alguns se afastaram; talvez não por discordância, mas por receio. Hoje, a proximidade é lida como endosso, e o convívio, como delito. Recordo Nicodemos, que buscava Jesus sob o abrigo da noite. Eu, porém, sequer conto com a sombra: sou observado à distância, sob a vigilância dos intérpretes da aparência e dos fiscais da vida alheia.
Faço, então, um esclarecimento, antes que a fantasia se antecipe aos fatos: não aceito discípulos. Desconfio, inclusive, quando alguém concorda demais comigo — nessas horas, suspeito do meu próprio erro. Aprendi, não sem custo, que toda unanimidade encerra um perigo e que, em qualquer grupo numeroso, pode surgir um Judas, menos por perversidade individual do que pela lógica impessoal das estruturas. Bajulação e traição costumam caminhar juntas; talvez por isso eu tenha escolhido ser professor, não chefe: ensinar exige diálogo, enquanto chefiar pressupõe submissão.
Seria desonesto, contudo, fingir neutralidade. Há dias em que a inversão de valores me atravessa com força. O descaso com quem ensina não é imaginário; manifesta-se em risos, desdéns e rótulos apressados. Num desses momentos, tomado por indignação, recorri ao rigor dos antigos textos: amaldiçoei, em pensamento, os que zombam do ofício docente. Esperei, confesso, que o destino de Eliseu se repetisse — não por crueldade, mas por um desejo quase infantil de justiça simbólica. Nada aconteceu. Ou melhor: ocorreu o inverso. A maldição voltou-se contra mim, e percebi tarde demais que havia trocado a crítica pela invectiva. Saí do espeto apenas para cair na brasa.
Talvez o erro não esteja apenas na chamada “nova ordem”, mas também em certo apego meu a hierarquias que já não se sustentam intactas. O tradicionalismo que defendo — preciso admitir — só se justifica se for capaz de dialogar com o tempo, e não apenas amaldiçoá-lo. Do contrário, degenera em nostalgia ressentida. Paulo Freire tinha razão: somos condicionados, mas não determinados. Reconhecer isso implica aceitar que também ensino desde dentro das contradições que critico.
Hoje, as ursas bíblicas ainda emergem do bosque, mas aprenderam novos critérios. Poupa-se o barulho juvenil e a fanfarronice performática; devora-se o professor marcado pelo estigma do “careca tradicional”, acusado de pecados ideológicos antes mesmo de concluir a frase. Aos “lacradores”, nada acontece — não por mérito, mas porque aprenderam a linguagem certa do tempo. Caminham ilesos, protegidos menos por convicção do que por adequação.
Resta-me, então, a vigília. Não a do mártir incompreendido, mas a do educador que observa, erra, corrige-se e insiste. Entre o passado que não retorna e o futuro que ainda não sabe seu nome, sigo escrevendo verbetes provisórios — não para condenar o mundo, mas para compreendê-lo sem abdicar da crítica. Afinal, ensinar talvez seja isso: permanecer em tensão, sem se absolver nem se calar.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto é um material riquíssimo para discutirmos a sociologia do cotidiano e as mudanças nas hierarquias sociais. Ele nos convida a refletir sobre como as normas de comportamento mudam com o tempo e como isso afeta a identidade de quem trabalha em instituições tradicionais, como a escola. Aqui estão 5 questões discursivas, formuladas de maneira clara para o nível de Ensino Médio:
1. A Vigilância na Era da Aparência. O autor afirma ser observado à distância por "fiscais da vida alheia" e que a proximidade hoje é lida como "endosso" (concordância). Como as redes sociais e a cultura da vigilância alteraram a forma como as pessoas se relacionam no ambiente de trabalho e o medo de serem "canceladas" por estarem perto de quem pensa diferente?
2. Autoridade Docente vs. Chefia. O texto faz uma distinção importante: "ensinar exige diálogo, enquanto chefiar pressupõe submissão". Do ponto de vista sociológico, por que a autoridade do professor, baseada no saber, está enfrentando tanta crise em uma sociedade que valoriza mais a "lacração" (performance) do que o debate profundo?
3. Inversão de Valores e Estigmatização. O autor utiliza a metáfora das "ursas bíblicas" para dizer que hoje o sistema "devora" o professor tradicional, enquanto poupa a "fanfarronice" dos mais jovens. Como a sociologia explica a mudança de prestígio social de uma geração para outra? Por que o "novo" passou a ser mais valorizado do que a "tradição"?
4. O Professor como Sujeito de Contradições. Ao citar Paulo Freire ("somos condicionados, mas não determinados"), o autor reconhece que também faz parte das contradições que critica. Explique como o ambiente social em que vivemos influencia nossas opiniões e por que é difícil manter uma postura totalmente "tradicional" em um mundo em constante mudança.
5. A Resistência através da Crítica. O texto termina dizendo que ensinar é "permanecer em tensão, sem se absolver nem se calar". Em uma sociedade que muitas vezes busca respostas rápidas e divisões entre "nós contra eles", qual é a importância social de um educador que escolhe observar e criticar o mundo em vez de apenas aceitar as regras da moda?
Dica do Professor:
Muitas vezes, o que sentimos como uma "perseguição pessoal" é, na verdade, um conflito de gerações ou uma mudança de paradigma na sociedade. Entender que as "regras do jogo" social mudaram nos ajuda a analisar a situação com menos sofrimento e mais estratégia. A sociologia não serve para nos dar razão, mas para nos dar clareza!
Nesta madrugada insone, reflito sobre o silêncio que se adensou ao meu redor. Não sei quando alguns se afastaram; talvez não por discordância, mas por receio. Hoje, a proximidade é lida como endosso, e o convívio, como delito. Recordo Nicodemos, que buscava Jesus sob o abrigo da noite. Eu, porém, sequer conto com a sombra: sou observado à distância, sob a vigilância dos intérpretes da aparência e dos fiscais da vida alheia.
Faço, então, um esclarecimento, antes que a fantasia se antecipe aos fatos: não aceito discípulos. Desconfio, inclusive, quando alguém concorda demais comigo — nessas horas, suspeito do meu próprio erro. Aprendi, não sem custo, que toda unanimidade encerra um perigo e que, em qualquer grupo numeroso, pode surgir um Judas, menos por perversidade individual do que pela lógica impessoal das estruturas. Bajulação e traição costumam caminhar juntas; talvez por isso eu tenha escolhido ser professor, não chefe: ensinar exige diálogo, enquanto chefiar pressupõe submissão.
Seria desonesto, contudo, fingir neutralidade. Há dias em que a inversão de valores me atravessa com força. O descaso com quem ensina não é imaginário; manifesta-se em risos, desdéns e rótulos apressados. Num desses momentos, tomado por indignação, recorri ao rigor dos antigos textos: amaldiçoei, em pensamento, os que zombam do ofício docente. Esperei, confesso, que o destino de Eliseu se repetisse — não por crueldade, mas por um desejo quase infantil de justiça simbólica. Nada aconteceu. Ou melhor: ocorreu o inverso. A maldição voltou-se contra mim, e percebi tarde demais que havia trocado a crítica pela invectiva. Saí do espeto apenas para cair na brasa.
Talvez o erro não esteja apenas na chamada “nova ordem”, mas também em certo apego meu a hierarquias que já não se sustentam intactas. O tradicionalismo que defendo — preciso admitir — só se justifica se for capaz de dialogar com o tempo, e não apenas amaldiçoá-lo. Do contrário, degenera em nostalgia ressentida. Paulo Freire tinha razão: somos condicionados, mas não determinados. Reconhecer isso implica aceitar que também ensino desde dentro das contradições que critico.
Hoje, as ursas bíblicas ainda emergem do bosque, mas aprenderam novos critérios. Poupa-se o barulho juvenil e a fanfarronice performática; devora-se o professor marcado pelo estigma do “careca tradicional”, acusado de pecados ideológicos antes mesmo de concluir a frase. Aos “lacradores”, nada acontece — não por mérito, mas porque aprenderam a linguagem certa do tempo. Caminham ilesos, protegidos menos por convicção do que por adequação.
Resta-me, então, a vigília. Não a do mártir incompreendido, mas a do educador que observa, erra, corrige-se e insiste. Entre o passado que não retorna e o futuro que ainda não sabe seu nome, sigo escrevendo verbetes provisórios — não para condenar o mundo, mas para compreendê-lo sem abdicar da crítica. Afinal, ensinar talvez seja isso: permanecer em tensão, sem se absolver nem se calar.
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Olá! Como seu professor de Sociologia, vejo que este texto é um material riquíssimo para discutirmos a sociologia do cotidiano e as mudanças nas hierarquias sociais. Ele nos convida a refletir sobre como as normas de comportamento mudam com o tempo e como isso afeta a identidade de quem trabalha em instituições tradicionais, como a escola. Aqui estão 5 questões discursivas, formuladas de maneira clara para o nível de Ensino Médio:
1. A Vigilância na Era da Aparência. O autor afirma ser observado à distância por "fiscais da vida alheia" e que a proximidade hoje é lida como "endosso" (concordância). Como as redes sociais e a cultura da vigilância alteraram a forma como as pessoas se relacionam no ambiente de trabalho e o medo de serem "canceladas" por estarem perto de quem pensa diferente?
2. Autoridade Docente vs. Chefia. O texto faz uma distinção importante: "ensinar exige diálogo, enquanto chefiar pressupõe submissão". Do ponto de vista sociológico, por que a autoridade do professor, baseada no saber, está enfrentando tanta crise em uma sociedade que valoriza mais a "lacração" (performance) do que o debate profundo?
3. Inversão de Valores e Estigmatização. O autor utiliza a metáfora das "ursas bíblicas" para dizer que hoje o sistema "devora" o professor tradicional, enquanto poupa a "fanfarronice" dos mais jovens. Como a sociologia explica a mudança de prestígio social de uma geração para outra? Por que o "novo" passou a ser mais valorizado do que a "tradição"?
4. O Professor como Sujeito de Contradições. Ao citar Paulo Freire ("somos condicionados, mas não determinados"), o autor reconhece que também faz parte das contradições que critica. Explique como o ambiente social em que vivemos influencia nossas opiniões e por que é difícil manter uma postura totalmente "tradicional" em um mundo em constante mudança.
5. A Resistência através da Crítica. O texto termina dizendo que ensinar é "permanecer em tensão, sem se absolver nem se calar". Em uma sociedade que muitas vezes busca respostas rápidas e divisões entre "nós contra eles", qual é a importância social de um educador que escolhe observar e criticar o mundo em vez de apenas aceitar as regras da moda?
Dica do Professor:
Muitas vezes, o que sentimos como uma "perseguição pessoal" é, na verdade, um conflito de gerações ou uma mudança de paradigma na sociedade. Entender que as "regras do jogo" social mudaram nos ajuda a analisar a situação com menos sofrimento e mais estratégia. A sociologia não serve para nos dar razão, mas para nos dar clareza!


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