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MINHAS PÉROLAS

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

NEGANDO-SE AO APEGO ("Pratique a lei do desapego e você notará menos problema em sua vida." — Karol Palumbo)

 


NEGANDO-SE AO APEGO ("Pratique a lei do desapego e você notará menos problema em sua vida." — Karol Palumbo)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

A proximidade do meu aniversário empurra-me, sem delicadeza, para a soleira da terceira idade. Digo a mim mesmo que não há pranto — e talvez isso seja verdade apenas em parte. Com o tempo, a dor aprende a se disfarçar de método: muda o gesto, ajusta o tom, transforma-se em escolha. Para evitar o desgaste psicológico e as frustrações sentimentais, passamos a ignorar indiretas, a reduzir círculos, a deixar de perseguir quem não deseja ficar. Chamamos isso de paz. Georg Lichtenberg sussurra ao fundo: “Nada contribui mais para a serenidade da alma do que não termos qualquer opinião.” Repito como um mantra, embora saiba que minha serenidade não nasce da ausência de opiniões, mas do cansaço de vê-las recusadas.

Não me iludo: minhas opiniões permanecem todas aqui, sentadas comigo à mesa. Sobre a carne, as bebidas, o volume da música, a pressa em confundir convivência com ruído. O que amadureceu não foi o silêncio, mas a fadiga. Reconhecer isso parece-me mais honesto do que vestir o desapego como virtude incontestável.

Na confraternização de encerramento do semestre escolar, essa contradição expôs-se sem pudor. Fui — e fui sabendo que me cansaria. O ambiente me estranha tanto quanto eu a ele. Já fui mais hábil na arte de conviver; hoje, contento-me com o respeito mútuo. Não discuto, não confronto, não ensino. Sigo acreditando que não se vingar já é uma forma de perdão. Ainda assim, reconheço minha própria intransigência: não partilho dos mesmos gostos, não me entusiasmo com os mesmos excessos. O convívio, para mim, tornou-se um exercício de contenção.

“A companhia da multidão é nociva: há sempre alguém que nos ensina a gostar de um vício, ou que, sem que percebamos, transmite-nos esse vício por completo ou em parte. Quanto mais numerosas forem as pessoas com as quais convivemos, maior é o perigo.” — Sêneca

Apoio-me em Sêneca como quem busca abrigo, embora saiba que ele não defendia a fuga, mas a escolha. Entre cultivar poucos vínculos e desistir da convivência por exaustão, há um abismo que tento atravessar com passos curtos. Pergunto-me, sem resposta pronta, se pratico estoicismo ou se apenas racionalizo uma rendição emocional. Chamo de maturidade aquilo que pode ser também autodefesa. Jung talvez fosse mais incisivo: individuação não é isolamento; é a coragem de integrar as feridas sem transformá-las em muros.

Digo que não há pranto, mas ele existe — discreto, contido, escondido nas pausas. A contenção estilística me protege, mas também me trai. Apesar da fadiga, permaneço. Vou às confraternizações que me cansam, sento-me entre colegas fora do horário letivo, escuto, lembro, projeto. Há algo ali que o desapego não entrega: a confirmação de que, mesmo cansado, ainda pertenço. Entre histórias antigas e futuros imaginados, entrelaçam-se lembranças e ambições; e nesse emaranhado imperfeito, ruidoso e humano, descubro uma verdade incômoda.

O desapego não me libertou da necessidade do outro; apenas a tornou mais exigente. É nessa tensão — entre querer menos e ainda precisar — que encontro, sem heroísmo, o verdadeiro valor do tempo vivido.


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Olá! Que texto potente e reflexivo. Como professor de Sociologia, vejo aqui uma oportunidade incrível para discutirmos temas fundamentais da nossa disciplina, como a socialização, as relações de pertencimento, o isolamento na modernidade e a construção da identidade. Preparei estas 5 questões discursivas focadas na análise sociológica do texto, com uma linguagem acessível para o Ensino Médio:


1. O Processo de Socialização e a Maturidade. No início do texto, o autor descreve como a chegada da terceira idade altera seu comportamento em relação aos outros (ignorar indiretas, reduzir círculos sociais). Do ponto de vista sociológico, como podemos interpretar essa mudança de comportamento: trata-se de um novo processo de socialização ou apenas um isolamento social? Justifique.

2. Cultura e Convivência em Grupos. O autor menciona um "descompasso" entre seus gostos pessoais (carne, volume da música, bebidas) e os do grupo na confraternização. Como a Sociologia explica a dificuldade de um indivíduo em se integrar quando seus valores e hábitos culturais não coincidem com o padrão do grupo dominante?

3. O Pensamento de Sêneca e a Pressão Social. A citação de Sêneca sugere que "a companhia da multidão é nociva" e pode transmitir vícios. Relacione essa ideia ao conceito de conformidade social — a tendência de as pessoas mudarem seu comportamento para se ajustarem ao grupo. Por que o autor vê o "convívio como um exercício de contenção"?

4. Pertencimento vs. Individualismo. Ao final do texto, o autor afirma: "O desapego não me libertou da necessidade do outro". Mesmo sentindo-se deslocado, ele escolhe permanecer e participar das histórias e projetos com os colegas. Por que o sentimento de pertencimento é fundamental para o ser humano, segundo a visão sociológica, mesmo quando há conflitos de opinião?

5. Identidade e Autodefesa. O texto questiona se o comportamento do narrador é "maturidade" ou "autodefesa". Considerando o conceito de identidade social, como as nossas experiências passadas e as feridas emocionais citadas (referenciando Jung) influenciam a forma como nos apresentamos e interagimos na sociedade hoje?

Sugestão de uso: Você pode utilizar estas questões para um debate em sala de aula ou como uma atividade de redação reflexiva.

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