PRAGAS NO "EGITO" UNIVERSAL: O Coronavírus Reforçado ("Pragas servem para libertar a alma e reconhecer que a cura é Deus." — Carlos Monteiro)
Se a vacinação não alcançar cobertura e eficácia suficientes, novas linhagens surgirão — mais rápidas, mais adaptáveis, capazes de driblar a imunização e prolongar a pandemia. Não se trata de misticismo, mas de epidemiologia. Ainda assim, o vírus fez mais do que pressionar UTIs: abalou crenças, expôs fissuras e arrancou o verniz de certezas que pareciam sólidas.
Acusou-se a ciência de falha; apontou-se a omissão da religião. Talvez ambas apenas tenham revelado sua condição humana — provisória, limitada, atravessada por interesses e temores. A crise evidenciou menos uma impotência absoluta e mais nossa dependência de instituições que prometem sentido — a família que transmite valores, a igreja que anuncia transcendência, a escola que forma consciências — mas que, não raro, confundem orientação com controle e tradição com silenciamento.
Ao mencionar as “filhas manipuladoras do politicamente correto”, faltou explicitar o mecanismo: manipula-se quando o diálogo é substituído pelo constrangimento moral; quando a proteção vira pretexto para interditar perguntas; quando o sagrado se transforma em capital simbólico. Há o politicamente correto secular, que patrulha linguagem e pensamento, e o religioso institucionalizado, que absolutiza costumes como se fossem mandamentos eternos. Ambos, sem vigilância crítica, trocam a verdade pelo aplauso.
A Covid-19 não escolhe almas; atinge corpos vulneráveis. Não é entidade moral, mas organismo microscópico. Ainda assim, muitos a interpretaram como juízo. A tentação não é nova: diante da peste, procura-se culpa; diante do caos, sentido. Em tempos bíblicos, pragas eram sinais. Hoje distinguimos vírus de vingança divina — mas continuamos sedentos de narrativa.
Afirmar que a pandemia desmascara os deuses modernos é leitura possível, porém não automática. Outras guerras e epidemias já nos devastaram sem demolir nossos ídolos. Talvez a singularidade desta crise resida menos na dor e mais na exposição global da fragilidade: pela primeira vez, o mundo assistiu ao próprio colapso em tempo real.
Durante o lockdown, templos fecharam as portas — alguns por prudência sanitária, outros por cautela jurídica, outros por responsabilidade sincera. Reduzi-los à hipocrisia seria simplificação injusta. Entre omissão e coragem, há uma vasta zona cinzenta que raramente vira manchete.
A inquietação persiste: que espiritualidade depende exclusivamente de portas abertas e microfones ligados? Se a salvação é proclamada como eterna, por que pareceu condicionada à agenda semanal? Talvez porque confundimos instituição com fé, estrutura com transcendência.
Como escreveu Ellen Glasgow: “Nem toda mudança é crescimento; nem todo movimento é para a frente.” A igreja cresceu em números — mas amadureceu em caráter?
Houve um tempo — real ou idealizado — em que a ofensa era entregue à oração. Hoje, protocola-se queixa, registra-se ocorrência, processa-se o agressor. Não se condena a justiça civil; ela é necessária. O ponto é outro: quando a fé transfere ao tribunal o que antes confiava ao altar, revela-se uma mudança na prática espiritual.
É progresso moral ou deslocamento de confiança? Os antigos conservadores eram ingênuos resignados — ou guardavam uma esperança que perdemos?
Entre amor e justiça não há oposição inevitável. O amor pode exigir justiça; a justiça pode nascer do amor. O risco está nos extremos: amor sem verdade degenera em permissividade; justiça sem compaixão, em vingança.
E chega o Carnaval — não apenas festa, mas símbolo. No Brasil, ele representa a catarse coletiva, a suspensão das máscaras sociais que usamos o ano inteiro por causa da Covide-19. Ali, o amor irrompe rápido, intenso e descartável.
Cícero escreveu: “O amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza.” No entanto, o deus dos foliões raramente busca amizade; busca vertigem.
Mas seria o Carnaval o único culpado? Ou apenas o espelho de uma sociedade que transformou afeto em consumo? A crítica à folia talvez deva alcançar também o altar quando este vende experiências instantâneas e êxtases programados. O amor carnavalesco e o amor institucional podem ser extremos do mesmo vazio: intensidade sem compromisso.
Há momentos em que a denúncia precisa soar como trombeta. Ainda assim, até os profetas choravam. Não basta acusar o templo corrompido; é preciso lembrar das pessoas frágeis que nele buscam abrigo — vítimas do vírus e da incoerência humana.
Se a pandemia é juízo, que seja também convite à revisão. Se é consequência natural, que ao menos nos sirva de espelho. Uma fé autêntica talvez sobreviva sem palcos ou marketing espiritual. Talvez se sustente em gestos simples: cuidado concreto com o próximo, escuta atenta, justiça temperada por misericórdia.
Não sei se o amor venceu. Sei que, se desaparecer, restará uma justiça árida, incapaz de redimir até os justos. E nenhuma vacina nos imuniza contra a perda da humanidade.
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Olá! Como professor de Sociologia, fico muito satisfeito em trabalhar com um texto tão rico, que transita entre a análise institucional, a ética e o comportamento social contemporâneo. Para o Ensino Médio, é fundamental que as questões estimulem o pensamento crítico e a capacidade de conectar o texto com conceitos sociológicos (como instituições sociais, cultura e mudança social). Aqui estão as 5 questões discursivas propostas:
1. Instituições Sociais em Xeque
O texto menciona que a família, a igreja e a escola, muitas vezes, "confundem orientação com controle e tradição com silenciamento". Do ponto de vista sociológico, qual é o papel esperado dessas instituições na formação do indivíduo e como a pandemia revelou as falhas em suas estruturas de suporte?
2. Ciência, Religião e a Busca por Sentido
Segundo o autor, diante do caos da pandemia, houve uma tentativa de interpretar um fenômeno biológico (o vírus) como um "juízo" ou "vingança divina". Por que, sociologicamente falando, o ser humano tende a buscar narrativas morais ou religiosas para explicar fenômenos naturais e crises globais?
3. Mudança Social e Comportamento
O texto cita Ellen Glasgow: "Nem toda mudança é crescimento; nem todo movimento é para a frente". Ao comparar o comportamento dos antigos fiéis (que buscavam a oração) com os atuais (que buscam processos judiciais e indenizações), que tipo de mudança na confiança das pessoas nas instituições religiosas e civis o texto sugere que ocorreu?
4. O "Politicamente Correto" e o Controle Social
O autor diferencia o "politicamente correto secular" do "religioso institucionalizado", afirmando que ambos podem trocar a verdade pelo "aplauso". Como o mecanismo do constrangimento moral atua como uma forma de controle social nas redes sociais e nas comunidades religiosas atualmente?
5. Cultura e Consumo de Afetos
Ao analisar o Carnaval e certas práticas religiosas, o texto sugere que ambos podem sofrer do mesmo problema: a busca por "intensidade sem compromisso" e "êxtases programados". Explique, com base no texto, como a lógica do consumo pode transformar tanto a festa popular quanto a experiência religiosa em produtos descartáveis.
Dica para o aluno: Ao responder, procure identificar no texto os trechos que sustentam sua argumentação e tente relacioná-los com a realidade que você observou nos últimos anos.
Se a vacinação não alcançar cobertura e eficácia suficientes, novas linhagens surgirão — mais rápidas, mais adaptáveis, capazes de driblar a imunização e prolongar a pandemia. Não se trata de misticismo, mas de epidemiologia. Ainda assim, o vírus fez mais do que pressionar UTIs: abalou crenças, expôs fissuras e arrancou o verniz de certezas que pareciam sólidas.
Acusou-se a ciência de falha; apontou-se a omissão da religião. Talvez ambas apenas tenham revelado sua condição humana — provisória, limitada, atravessada por interesses e temores. A crise evidenciou menos uma impotência absoluta e mais nossa dependência de instituições que prometem sentido — a família que transmite valores, a igreja que anuncia transcendência, a escola que forma consciências — mas que, não raro, confundem orientação com controle e tradição com silenciamento.
Ao mencionar as “filhas manipuladoras do politicamente correto”, faltou explicitar o mecanismo: manipula-se quando o diálogo é substituído pelo constrangimento moral; quando a proteção vira pretexto para interditar perguntas; quando o sagrado se transforma em capital simbólico. Há o politicamente correto secular, que patrulha linguagem e pensamento, e o religioso institucionalizado, que absolutiza costumes como se fossem mandamentos eternos. Ambos, sem vigilância crítica, trocam a verdade pelo aplauso.
A Covid-19 não escolhe almas; atinge corpos vulneráveis. Não é entidade moral, mas organismo microscópico. Ainda assim, muitos a interpretaram como juízo. A tentação não é nova: diante da peste, procura-se culpa; diante do caos, sentido. Em tempos bíblicos, pragas eram sinais. Hoje distinguimos vírus de vingança divina — mas continuamos sedentos de narrativa.
Afirmar que a pandemia desmascara os deuses modernos é leitura possível, porém não automática. Outras guerras e epidemias já nos devastaram sem demolir nossos ídolos. Talvez a singularidade desta crise resida menos na dor e mais na exposição global da fragilidade: pela primeira vez, o mundo assistiu ao próprio colapso em tempo real.
Durante o lockdown, templos fecharam as portas — alguns por prudência sanitária, outros por cautela jurídica, outros por responsabilidade sincera. Reduzi-los à hipocrisia seria simplificação injusta. Entre omissão e coragem, há uma vasta zona cinzenta que raramente vira manchete.
A inquietação persiste: que espiritualidade depende exclusivamente de portas abertas e microfones ligados? Se a salvação é proclamada como eterna, por que pareceu condicionada à agenda semanal? Talvez porque confundimos instituição com fé, estrutura com transcendência.
Como escreveu Ellen Glasgow: “Nem toda mudança é crescimento; nem todo movimento é para a frente.” A igreja cresceu em números — mas amadureceu em caráter?
Houve um tempo — real ou idealizado — em que a ofensa era entregue à oração. Hoje, protocola-se queixa, registra-se ocorrência, processa-se o agressor. Não se condena a justiça civil; ela é necessária. O ponto é outro: quando a fé transfere ao tribunal o que antes confiava ao altar, revela-se uma mudança na prática espiritual.
É progresso moral ou deslocamento de confiança? Os antigos conservadores eram ingênuos resignados — ou guardavam uma esperança que perdemos?
Entre amor e justiça não há oposição inevitável. O amor pode exigir justiça; a justiça pode nascer do amor. O risco está nos extremos: amor sem verdade degenera em permissividade; justiça sem compaixão, em vingança.
E chega o Carnaval — não apenas festa, mas símbolo. No Brasil, ele representa a catarse coletiva, a suspensão das máscaras sociais que usamos o ano inteiro por causa da Covide-19. Ali, o amor irrompe rápido, intenso e descartável.
Cícero escreveu: “O amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza.” No entanto, o deus dos foliões raramente busca amizade; busca vertigem.
Mas seria o Carnaval o único culpado? Ou apenas o espelho de uma sociedade que transformou afeto em consumo? A crítica à folia talvez deva alcançar também o altar quando este vende experiências instantâneas e êxtases programados. O amor carnavalesco e o amor institucional podem ser extremos do mesmo vazio: intensidade sem compromisso.
Há momentos em que a denúncia precisa soar como trombeta. Ainda assim, até os profetas choravam. Não basta acusar o templo corrompido; é preciso lembrar das pessoas frágeis que nele buscam abrigo — vítimas do vírus e da incoerência humana.
Se a pandemia é juízo, que seja também convite à revisão. Se é consequência natural, que ao menos nos sirva de espelho. Uma fé autêntica talvez sobreviva sem palcos ou marketing espiritual. Talvez se sustente em gestos simples: cuidado concreto com o próximo, escuta atenta, justiça temperada por misericórdia.
Não sei se o amor venceu. Sei que, se desaparecer, restará uma justiça árida, incapaz de redimir até os justos. E nenhuma vacina nos imuniza contra a perda da humanidade.
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Olá! Como professor de Sociologia, fico muito satisfeito em trabalhar com um texto tão rico, que transita entre a análise institucional, a ética e o comportamento social contemporâneo. Para o Ensino Médio, é fundamental que as questões estimulem o pensamento crítico e a capacidade de conectar o texto com conceitos sociológicos (como instituições sociais, cultura e mudança social). Aqui estão as 5 questões discursivas propostas:
1. Instituições Sociais em Xeque
O texto menciona que a família, a igreja e a escola, muitas vezes, "confundem orientação com controle e tradição com silenciamento". Do ponto de vista sociológico, qual é o papel esperado dessas instituições na formação do indivíduo e como a pandemia revelou as falhas em suas estruturas de suporte?
2. Ciência, Religião e a Busca por Sentido
Segundo o autor, diante do caos da pandemia, houve uma tentativa de interpretar um fenômeno biológico (o vírus) como um "juízo" ou "vingança divina". Por que, sociologicamente falando, o ser humano tende a buscar narrativas morais ou religiosas para explicar fenômenos naturais e crises globais?
3. Mudança Social e Comportamento
O texto cita Ellen Glasgow: "Nem toda mudança é crescimento; nem todo movimento é para a frente". Ao comparar o comportamento dos antigos fiéis (que buscavam a oração) com os atuais (que buscam processos judiciais e indenizações), que tipo de mudança na confiança das pessoas nas instituições religiosas e civis o texto sugere que ocorreu?
4. O "Politicamente Correto" e o Controle Social
O autor diferencia o "politicamente correto secular" do "religioso institucionalizado", afirmando que ambos podem trocar a verdade pelo "aplauso". Como o mecanismo do constrangimento moral atua como uma forma de controle social nas redes sociais e nas comunidades religiosas atualmente?
5. Cultura e Consumo de Afetos
Ao analisar o Carnaval e certas práticas religiosas, o texto sugere que ambos podem sofrer do mesmo problema: a busca por "intensidade sem compromisso" e "êxtases programados". Explique, com base no texto, como a lógica do consumo pode transformar tanto a festa popular quanto a experiência religiosa em produtos descartáveis.
Dica para o aluno: Ao responder, procure identificar no texto os trechos que sustentam sua argumentação e tente relacioná-los com a realidade que você observou nos últimos anos.


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