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MINHAS PÉROLAS

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

O Mercado das Relações: Entre a Conveniência e o Desprezo ("As regras nunca vão lhe dar as respostas profundas do coração, e nunca irão amar você." — A Cabana)

 


O Mercado das Relações: Entre a Conveniência e o Desprezo ("As regras nunca vão lhe dar as respostas profundas do coração, e nunca irão amar você." — A Cabana)

Por Claudeci Ferreira de Andrade

Tornou-se raro encontrar amor genuíno entre as pessoas. O que predomina, em grande parte das relações, é a conveniência travestida de afeto: ama-se enquanto há retorno garantido, rompe-se ao primeiro atrito. O amor, que deveria ser invasivo — no sentido de nos deslocar de nós mesmos —, foi domesticado pela lógica da troca. Até mesmo sob o discurso da salvação espiritual, vê-se com frequência a busca por superioridade moral, não por comunhão; aceita-se o outro para moldá-lo, não para encontrá-lo.

Essa lógica não surgiu do nada. Vivemos sob a modernidade líquida descrita por Bauman, em que os vínculos se fragilizam porque tudo precisa permanecer reversível. Amar exige permanência; a conveniência, mobilidade. Por isso, o “eu te amo” escorre fácil pelos lábios, mas evapora diante de um simples “não”. Bloqueia-se um contato, ignora-se uma ligação, como quem descarta um aplicativo inútil. Pais, filhos, parceiros e amigos, muitas vezes, tornam-se relações condicionais: permanecem enquanto somos úteis e silenciam quando deixamos de atender expectativas — financeiras, emocionais ou simbólicas.

Não estou fora dessa engrenagem. Também já tratei vínculos como opções substituíveis; também já confundi autopreservação com indiferença. Reconhecer isso é doloroso, mas necessário, pois a crítica que não inclui o próprio crítico degenera em ressentimento. A mercantilização dos afetos não é apenas um vício alheio; é uma tentação cotidiana que atravessa a todos nós.

Ainda assim, reduzir o humano à pura vilania seria um erro. Há resistências. O amor materno que persiste sem garantias, a amizade que suporta o dissenso, a compaixão que não exige reciprocidade são lampejos que desmentem o cinismo absoluto. Amar, nesses casos, não é possuir nem converter, mas sustentar o outro como alteridade, mesmo quando isso custa.

Talvez a sabedoria, hoje, consista menos em fechar-se por completo e mais em desconfiar da própria conveniência. Proteger-se, sim — mas sem transformar a cautela em desprezo. Amar, ainda que pouco e falivelmente, como ato ético de resistência num mundo que insiste em transformar tudo, inclusive as pessoas, em mercadoria descartável.


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Olá, classe! Sou eu, seu professor de sociologia. Hoje vamos analisar um texto que dialoga profundamente com o pensamento contemporâneo, especialmente com as ideias de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos laços humanos.

O texto nos provoca a pensar como o capitalismo e a lógica do mercado entraram em nossas casas e em nossos corações, transformando sentimentos em "produtos" de troca.

Preparei estas 5 questões discursivas para que vocês possam exercitar o olhar sociológico sobre o cotidiano:


1. A Lógica da Conveniência O autor afirma que o amor foi "domesticado pela lógica da troca". Como essa ideia se relaciona com o conceito de sociedade de consumo, onde as pessoas passam a ser avaliadas pela sua utilidade ou pelo que podem oferecer em troca?

2. Modernidade Líquida e Descarte Com base no texto, explique como a facilidade de "bloquear um contato" ou "ignorar uma ligação" reflete a liquidez das relações modernas. Por que, na visão sociológica de Bauman citada no texto, os vínculos se tornaram tão reversíveis e frágeis?

3. Instituições e Superioridade Moral O texto menciona que, mesmo em instituições religiosas, a busca por "superioridade moral" às vezes substitui a comunhão. Do ponto de vista da sociologia, como as instituições sociais podem acabar moldando o indivíduo para que ele aceite o outro apenas se ele for igual a si mesmo?

4. O Indivíduo na Engrenagem O autor faz uma autocrítica, admitindo que também faz parte dessa "engrenagem". Por que é importante para a sociologia entender que os problemas sociais (como a indiferença e o egoísmo) não são apenas falhas individuais, mas parte de uma estrutura social maior que nos influencia?

5. Resistência e Ética O texto termina sugerindo que amar é um "ato ético de resistência". Como o ato de manter um vínculo que "não exige reciprocidade" desafia a lógica atual do sistema capitalista, que prega que tudo deve gerar lucro ou benefício pessoal?

Dica para a resposta: Lembrem-se de que a sociologia não julga o que é "certo" ou "errado" emocionalmente, mas tenta entender como o modo como a sociedade está organizada (o mercado, a tecnologia, a economia) afeta o modo como sentimos e nos relacionamos.

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